A porta do mar na igreja de Chiruli

A referência mais antiga à porta que nunca foi aberta na igreja em Chiruli é do mês de maio durante a Caravarada de 1279, aquela que é reputada a maior invasão de besouros numa área urbana da história do semiárido1.

Este é Rilmo de Paraíma em Ata do Ano das Duas Cheias (1279), e no seu testemunho a porta do mar na igreja (construída em 1139) em Chiruli era já um ponto de referência e um mistério:

Abafadas no toque da garoa as fogueiras da praça os bichos voltaram a cair do alto fossem granizo e a escalar as carnes feito aluvião, conseguindo que Jupiara e Jebusério dos Tenentes mais alguns mucugês e cricatis repararam na igreja no vão acima da sacristia, até a altura da porta de que escreveu Mariúna “Porta do Mar que o Creador não escondeu, que o Homem não abriu, que quem nomeou o Tempo esqueceu” em seu poema.

Tudo isso vai lido na seguinte ordem:

Chiruli (em língua geral se diz Xirulé ou Xirulê) é o nome de uma praça e arredores na orla da cidade alta de Sisarina do Cripocó, entre Patos e Dindié.

Os besouros do semiárido que invadiram a Sisarina naquela e em outras ocasiões são pretos, graúdos e de vários chifres, aqueles que no Cripocó se chamam caravarás.

Dos duzentos quase poemas de Mariúna que nos chegaram nenhum contém os versos citados por Rilmo de Paraíma na Ata sua; de fato, nenhum poema sobrevivente de Mariúna faz menção a outra cidade que não Sanmarita onde nasceu.

A esses pequenos portentos se acrescente este, que no século décimo terceiro, numa cidade do semiárido a 300 quilômetros do litoral existisse no andar de cima da sacristia de uma igreja de praça uma porta interna chamada do Mar, com a fama de não ter sido nunca aberta, e que a cuja porta tenha sobrevivido aos séculos e às intrusões corretivas do barroco e esteja ali onde estava, agora mesmo enquanto escrevo, com o mesmo nome e a mesma idêntica reputação – não por nada na Sisarina, frágua do Criocó, capitel do Teixeira, a Assis do Tendó.

Que a própria ausência do mar transforme o mar em subtexto permanente da cultura do semiárido é notícia que não requer ilustração. Em termos urbanísticos e estéticos nenhum município apropriou-se dessas ressonâncias mais do que Sisarina do Cripocó (fundada em 814), cidade que é paradoxalmente famosa por motivos muito outros. Em suas Cartas de Perosna o italiano Ramperto Grafiano descreve a Sisarina como “cidade completamente ignorante da sua própria obsessão com o mar, como de resto qualquer cidade de mar”.

Resta que a porta sempre fechada da igreja em Chiruli é a referência direta mais antiga ao mar na cultura da Sisarina2 e, ainda que tenha desaparecido periodicamente dos registros históricos (algumas vezes por mais de um século), pode ter sido a origem de todas as outras.

O diabo (ou uma série de homens chamados Odiabo, a controvérsia não é pequena), que morou na Sisarina em diversos períodos a partir de 1666 (sempre na mesma casa da rua Truapá), deixou escrito que a porta do mar em Chiruli “não é uma saída ou ingresso para o Mar Oceano”, mas “dá para a cura (ou ‘para a salvação’) do mar.”

Essa e outras tradições (vejam-se por exemplo os barroquíssimos tacos de cordel de Lariângela) se consolidaram na ideia de que a porta do mar representa uma tábua de salvação, um último recurso, resultando o que só pode ou só deve ser aberta por ocasião da maior emergência, da mais inequívoca ameaça existencial. “Se vossia alberga dúvida qualseja, não é hora ainda de abrir a porta do mar,” prescreveu em 1876 Antônio Vicente Mendes Maciel (o Antônio Conselheiro, quando ainda se fazia chamar Antônio dos Mares).

Esses fatos cada um solenemente eu ignorava quando recolhi minha primeira lembrança da Sisarina em 1974. Vínhamos visitando de Quixeramobim no que deve ter sido pouco depois de estação forte de chuva, conseguindo que – um pouco como setecentos anos antes – a cidade estava cheia peja de caravarás.   Eu tinha seis ou sete anos de pura assombração: as paredes, tetos e ruas atochadas de besourada reluzente, chifrudos fossem Belial e grandes mais do que meu punho fechado tornaram ilegível e substituíram na minha memória a real geografia da cidade.

O que ficou foi o estralejar do nosso Opala verde avançando pelas colunas de besouros que empechavam a rua; ficou a lembrança da manhã em que fomos à missa e todos ignoramos as leituras e a homilia para venerar o voo de um único caravará maior do que um pardal, anjo triscado que ocupava a zonzo a nave da igreja lá no alto, zunindo fosse brinquedo de corda.

Quarenta anos depois só cruzei os fatos de que a igreja do besouro era aquela da praça de Chiruli, e entender que tinha estado tão perto da porta do mar sem tê-la visto me extorquiu a voltar.

A sacristia da igreja em Chiruli fica nos fundos, atrás da abside, e é acessível por duas █████ portas laterais. No fundo da sacristia dois lances de escada levam ao primeiro andar, que consiste num corredor em forma de C , com uma salinha de cada lado e uma porta em cada extremidade, cada uma dando acesso à galeria que contorna a nave da igreja dos dois lados. Junto à porta da esquerda há uma outra porta, mais interna e meio metro mais alta do que o pavimento, muito ordinária e sem qualquer indicação, que está sempre fechada: é a porta do mar. Uma marca irregular na parede indica o lugar onde três degraus de uma escada de pedra (removida ao que se sabe no início do século 20) levava até a soleira.

A porta de um depósito de vassouras e material de limpeza, perguntassem. A coisa mais ou menos notável, como observado por miríades de viajantes, é a ilusão criada pela geometria do edifício: dada à proximidade e alinhamento à porta da tribuna lateral da igreja (que está aberta, conseguindo que sem dar um passo posso entrever no interior da igreja os vitrais de duas janelas), resta a impressão de que, uma vez aberta, a porta do mar daria diretamente para a curva da abside do santuário, uma queda sem reparos cinco ou seis metros acima do altar principal.

A maçaneta do século 16 é de bronze, verde oxidado na base e dourado reluzente na área exposta do puxador em que foi apertada por milhares de mãos – séculos de mãos de gente que se conteve e deixou a maçaneta sem ser girada, a porta cerrada muito salubre como resta diante de mim.

Estou ali ignorando os dois ou três turistas estrangeiros que pausam um instante e desaparecem pela porta da galeria em busca de coisas que possam realmente fotografar, e lembro primeiro Domenico Scandella, detto Menocchio, para quem o diabo no Jardim foi condenado por Deus a ser incapaz de mentir, pelo que aprendeu a tentar os seres humanos (e em pelo menos uma ocasião o próprio Filho) através da verdade. Depois Juraci Cabrião, o desfilósofo quilombola: “é sabido que continuamos a amar os entes queridos mesmo depois que a morte deles nos separa de nós. Fica nisso comprovado que o amor é eterno: os nossos mortos, separados pela morte eles mesmos do objeto do seu amor, amam-nos precisamente como nós a eles.”

Na entrada da sacristia lá embaixo, numa caixa de vidro no alto de uma coluna romana, está exposto o bilhete que Antônio Conselheiro mandou de Canudos em resposta a uma carta que perguntava se a guerra em Belo Monte representava a grande emergência final; se era ou não hora de abrir a porta do mar em Chiruli. Quando o bilhete chegou à Sisarina Antônio jazia morto já e degolado na Bahia: Ainda não, ele tinha escrito.