Dominguaçu estava sonhando quando despertou em pé dentro do trem lotado em Madureira, e no sonho as ruas do bairro tinham sido desmontadas e redistribuídas em andaimes e escadarias ao redor de uma objeto colossal que era ao mesmo tempo um vaso, um fruto, um balão, um arco-íris, um animal alado e uma imagem sagrada, verde pálido e amarelo pálido nas grandes superfícies e violeta, carmim, turquesa e laranja nas extremidades. Dominguaçu estava andando de bicicleta por um dos andaimes de duas pistas que circundavam o monumento quando da parede do lado o objeto abriu um olho gigante amarelo e circular, alto seis andares, três acima e três abaixo, e enquanto tentava fixar o olhar em alguma coisa Dominguaçu perdeu o equilíbrio e acordou.
Pediu licença aos sovacos que pendiam de boca aberta, galgou os zagueiros que bloqueavam a porta e pôs o pé na plataforma empopulaçada, achando incrível que fizesse mais calor fora do que dentro do vagão.
Desceu a passarela para a rua aberta e era ali entre os quarteirões de órgãos e a mundiça que corria veloz pelas artérias, a pé nas canaletas definidas pela camelotagem e olhando para fora de dentro dos ônibus lotados que tubarejavam pista adentro e pista afora sem desacelerar e ███████████████████ sem dar sinal, que lhe vinham em mente as gravuras de Audoíno Bernassis, penduradas no bairro em cada parede de todo bar, que desenhavam Madureira como divindade tutelar, um pouco esfinge um pouco carranca, vigiando com olhos que eram terreiros e garras que eram igrejas as curvas da baía, da serra e da Baixada, com Cascadura de um lado e Oswaldo Cruz do outro, duas onças de pedra.
Ali na rua tudo que dava era prédio e vidraça, galeria com tapume, placa de publicidade, ambulante e camelô, tráfego, fio de eletricidade, cadeira de plástico na calçada, gente regateando, fumando, provando óculos de sol, entrando no boteco com o bilhete da loteria e saindo da lotérica com na mão o cafezio, mercadoria espalhada na toalha colorida no chão, dinheiro amassado trocando de mão, cordão de jogo do bicho, cartão pendurado de tatuagem, cheiro de fritura e de fruta vencida e de tinta de parede e de asfalto derretendo, reluz de concreto, malandro dentro e malandro fora, padre da Baixada e mãe de santo de Irajá: tudo em movimento, tudo fluindo, fumegando, tudo furando o bucho da manhã em veios mais ou menos paralelos que só ocasionalmente se relavam, um fuzuê universal operando dentro de uma estrita ordem de normalidade.
Pensou razão tinha Bernassis, se Madureira de mil braços não galopava entre o urbano e o selvagem com um junguianismo e uma ciclopetagem que não se via numa cidade desde os tempos mais crocós sei lá dos etruscos ou dos sumérios, dos zigurachos, dos taurobólios e coribantes, quando de sacanagem e acima da rinha dos homens os titãs lutavam na praia do mundo uma ferozeira que era capoeiragem, meia mãe meia Maria, meio ameaça meio coreografia, e se essa mesma placa literal dizendo COMPRO OURO naquele poste não pendia ela mesma e dizia as mesmas coisas nas ruas forradas de gente de Pompeia, de Ur, de Nápoles ou de Bombaim nos dias mais fortes de cada uma.
