São Coro

«Cante comigo esse coro gostoso,
Que vem da rede do cristão que descansa
Feito São Coro:
Diz ali que o santo mais preguiçoso
Era também o mais famoso»
Mariolina de Ré da Cruz, 1957

Pelo meu conhecimento foi Claude Lévi-Strauss1 o primeiro a observar que, com exceção de Suassira – Mainza puxa-briga, a santa cangaceira, – os santos do Beirazul queriam cada um pouca coisa além de serem deixados em paz.

Nenhum porém mais do que São Coro de Minância, o santo do sono, dos sonhos e da rede de dormir, o patrono desalinhado da preguice e do sossego.

O que Lévi-Strauss deixou passar sobre São Coro é que no Brejaú os santos negociaram reputação (ou hagiografia) tendencialmente linear: do quê Suassira a arretada, Tregésimo o xingador, Cangüira o flagelo da razão. Já São Coro, o Amado e o Amador, deixou esboçado um perfil ambivalente e prenhe de contradições.

São Coro era amante seja do sono seja de observar caminhando a madrugada, e passou a vida rodeando o fato de que são paixões que se contradizem. Amava o povo mas odiava a ideia de ter seguidores, louvava quem vivia na companhia de amigos mas se sentia à vontade sozinho ou na estrada com um companheiro só. Era sujeito de princípio sem regateios mas achava só os pecadores interessantes e emocionava com os sonhos e com o teatro porque “o cabra que dorme e o ator no anfiteatro experimentam o que é pecar sem conhecer a culpa2.”

Sua obra mais famosa exalta a sacralidade da madrugada “em que se reflete a divina solitude”, mas é autor também, celebrado em outros círculos, do poema Relascença, em que está descrita a experiência do homem3 que se deita nu e, antes de cair no sono, sente o prazer simples dos membros do corpo que da cabeça aos pés estão naquele momento tocando uns nos outros: seu peso, sua distância relativa, a textura, sua disposição e caimento, todos “os trancos e tratos da pele que rela com a pele”4. Ali estão “o dedão do pé que se enfia/no vão entre os dedos do pé seu irmão/que queima debaixo dele”; ali está “o braço atravessado contra a face/imprimindo sombra aos olhos fechados,/de um dedo fresco daquela mão/que toca a orelha do outro lado”; ali estão “as bolas que resvalam na vertente da coxa/fossem um pano que coa manteiga” e “o capucho5 que desliza por si e (se) retrai/para relevar à brisa a cabeça”.

Do alto dessas carnes (ou “devido a elas”, segundo o Linguadura) São Coro insistia numa profunda familiaridade entre o ser humano e a ████ divindade. Este é Muraci Calandra em Hagiografia poética do Serestão (1973):

[Para São Coro] Deus criou a madrugada para que todo homem, querendo, caminhasse pelo mundo e o mundo experimentasse como é experimentado por Deus. A noite é o mundo avesso (e portanto direito) em que todos se dobram, em que todos comungam: em que dormem abraçados, sem saber, amigos e inimigos, santos e pecadores, vítimas e algozes. A madrugada é um mundo de plena graça em que os homens existem somente, livres completamente de rótulos e de destinos, de compromissos e de posses, de méritos e deméritos, de títulos e de papéis a desempenhar.

Ainda:

Na ideia de São Coro o dilema do ser humano não é o quanto somos diferentes de Deus, mas o quanto somos semelhantes a ele. A alma humana (como aquela divina), sendo intercambiável com o amor mais puro e mais cândido, ama não só todos os seres mas todas as coisas, tudo que existe, mesmo as coisas mais horrendas e moralmente reprováveis – mesmo aquelas que Deus teria nunca ████████ como imitar ou aprovar […] todos os assassinatos, todas as corrupções, todos os genocídios, todas as injustiças, todas as perversidades, todas as torturas, todas as defraudações. Essas coisas que Deus de modo algum aprova, de modo algum endossa, de modo algum justifica, de modo algum recomenda, ele ainda assim ama, porque [1] o seu amor diz respeito ao que diz respeito ao ser humano, [2] cada uma dessas coisas fala de e ao ser humano, e [3] o amor não só não admite exceções: ele não admite exclusões.

Nisso reside a formulação mais antiga da teologia do amor impenitente, prefigurada no livro de Oséias e no evangelho mas articulada por São Coro em toda sua obscena sacralidade (para usar a expressão de H. G. Wells). Deus ama não só o pecador: ele ama o próprio pecado, “do mesmo modo que amamos o dia da morte de uma pessoa amada sem aprovar a sua morte e sem tê-la desejado.” A morte da pessoa amada não é redimida e não pode ser “perdoada”, mas pode ser amada e nós a amamos – porque amamos tudo que diz respeito a quem amamos.

A alma ama portanto todas as coisas, tudo o que existe e acontece, mesmo as coisas mais terríveis, trágicas e repreensíveis6. Ao intelecto essa capacidade de amar o que é condenável parece desconcertante, mas confere ao ser humano a escolha de ser em certo sentido como Deus: autônomo diante da adversidade, livre de todo o ressentimento e continuamente pronto a perdoar.

São Coro (como Francesco, que chamava a morte de irmã; como o Filho, que perdoou sem trâmites ou quesitos os que o estavam assassinando) encarna esse amor de celebração por tudo o que existe e acontece; que anula a tragédia através da inclusão e desarma a armadilha do pecado através não da condenação do pecado, mas pela condenação da condenação.

Em São Coro essa monstruosa magnanimidade de caráter (outra expressão de Wells) se refletia ainda em uma espaçosa frugalidade. “Rico é quem não precisa de nada”, dizia o santo constantemente, e vivia ostentando essa sua riqueza nada possuindo (nada precisando). Única possessão sua era famosamente uma rede de dormir, que usava também para se vestir.

E da qual publicamente se despiu no Concílio de Perosna em 1233, em resposta aos terebentinos que queriam obrigar os habitantes originários a cobrir a   sua nudez.

«De certas visões Deus não nos protege,» São Coro disse naquele dia, «e da vista daquilo de que Deus a ninguém protege ninguém deveria se arvorar a proteger. Enquanto discutimos, agora mesmo nesta cidade uma criança pode estar abrindo uma porta e topando com um homem nu, um homem morto ou um casal entretido no deites. Por Deus, nada impede que abrindo agora a Escritura não encontre uma qualseja dessas coisas. Se o céu não desceu à terra para cobrir os nossos olhos dessas visões, não cabe a meros homens legislar sobre o que é lícito esconder ou revelar.»

Depois de despir e largar no pavimento (onde está até hoje) sua única propriedade, São Coro atravessou nu e descalço as colunas paramentadas de freis e freiras e bispos e foi unir-se porta afora aos originários. Um bom número de seus pares juntou-se a ele, ao que se sabe imediatamente, nesse despojamento e nesse percurso.

Aquela a primeira e a última vez em que foi visto dentro de uma igreja.