Falamos do dia em que Mainza Suassira, maio de 1567, apresentou-se no portão de Coronel Gesuardo em Dindié puxando um cortejo saltimbanco de mucugês, caçanjes, cariris, tabajaras e sicilianos, vestindo esses nada além de imbira, cicatrizes, sanguessugas, maritacas, membros faltantes e varas de taquara com que navegar a lama, vestida ela à moda de ████ São Coro com só uma rede colorida de dormir ao redor do corpo. Odorico Ydriúna, sacristão de Dindié e cronista daquele dia, descreve uma tarde de chumbo com rajadas de chuva que atravessavam a paisagem pesadas e intransponíveis fossem pernas que passeavam de gigantes, arremessando na distância o cristão que nelas por engano relasse.
Coronel Gesuardo era um violento e um molestador e tinha meio Cripocó debaixo do joelho, mas não tinha lastro para ignorar o apelo popular de uma beata da qualha de Suassira: ela não quis entrar e foi Gesuardo a sair para a enxurrada, numa liteira de Sevilha carregada por seis mulheres grávidas.
Se as imagens na Matriz de Patos e de Sanmarita dão qualquer indicação, Gesuardo encontrou no terreiro uma mulher alta, negra, muito magra; viu um cabelo forte armado, dedos longos reluzentes, um rosto quebrado em ângulos agudos e maçãs do rosto afiadas ao machado.
Nina Rodrigues, contra Teodoro Sampaio, é de opinião que Gesuardo corria verdadeiro risco naquela situação: que, à parte a perfilada milícia de saltimbancos, uma palavra de Suassira poderia ter virado contra o Coronel boa parte do círculo de jagunços que estavam ali para protegê-lo (os fatos posteriores, com a consolidação do Cangaço Bento sob a supervisão de Mainza, fornecem peso não pequeno a essa suposição). Eduardo Viveiros de Castro acrescenta que o Gesuardo sofria de gota e de disenteria, que uma carta estabelece que início daquele mês tinha mandado chamar com urgência de São Mamede um barbeiro perito em sangria, e sugere que o acúmulo de vulnerabilidades pode ter determinado o que acabou acontecendo.
Do que Suassira disse a Coronel Gesuardo debaixo do temporal existem de versões um cento; em cada uma, mesmo quando se contradizem, a santa limita-se a descrever aquilo que está vendo: nenhuma prédica, nenhuma repreensão, nenhuma advertência. Gesuardo é sua visão no sentido mais primário e apocalíptico da palavra: Mainza está olhando para ele e fala do que está vendo.
Do discurso da santa a versão do sacristão Odorico Ydriúna, aquela mais próxima aos fatos no tempo seja no espaço, não é a mais interessante nem a mais fidedigna, mas foi a partir dela que Machado de Assis desenvolveu a sua hipótese, de que com a descrição dos demônios que assediavam o homem, do que estavam fazendo com os membros do seu corpo e – particularmente – do modo em que estavam dispostos em relação uns aos outros certos órgãos externos e internos, Suassira teria convencido Gesuardo não de uma condenação futura, mas de que estava já no inferno sofrendo a mais elaborada das penas: que da punição fazia parte ignorar que a punição estava sendo executada até ser exposto perpetuamente, como se fosse cada uma a primeira vez, à revelação da santa.
Que o coronel tenha imediatamente procurado tirar a própria vida de um modo cruento sem precedentes na história ou na literatura – um modo que, a dizer pouco, requeria enorme investimento físico da parte sua – confirmaria, ao mesmo tempo que um pouco negava, essa leitura. Foi salvo da morte (segundo Ydriúna) pela mão estendida de Suassira ou (segundo Eúba Ogrande) pelo raio que atingiu a liteira de que tinha acabado de sair; certo é que ficou inconsciente por semanas e viveu com membros faltantes pelo resto da vida, juntando-se ao exército de sobreviventes que tinha sido ele mesmo, em grande parte, a fazer mutilar.
Nunca foi perdoado por suas mulheres e ██████ ██████████ amantes, mas alguns filhos trataram-no com gentileza e o grupo de saltimbancos o acolheu sem qualquer transição e ou rancor. Cria-se salvo do inferno, e crendo-se salvo do inferno morreu vinte anos depois.
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