Que mês não se sabe de 1362, escoltado por um bando de macacos, quando Carnivaldo de Bezerros desembrenhou da Zona da Matta e veio desbaratando sozinho e fazendo saltar pelo ar, armado que foi com o furor sozinho da sua alegria, o sortimento de milícias de Alci Fazenzo de Mugém, já que ano e meio refém trazia da barbárie sua o assento da Parahyba no fio entre o mar e o rio, Carnivaldo pediu a Alci Fazenzo, depois do que viraram amigos, que lhe mostrasse algum prodígio que o convencesse a poupar a localidade e o ferrume da batalha de serem obliterados por qualquer explosão adicional do seu gozo. Alci procurou a Carnivaldo prebendarias de todos os genros, socorrendo as mucosas superiores seja as inferiores, mas porque o cuscuz, a rola, o rapé, o sururu, a ostra e o feijão verde já conhecia, Carnivaldo não se deixou enternecer até pousar os olhos no altar grande da Igreja de Santa Boturatiz, esculpido por Relarmina de Caicó com indiarias, varões, iraras e benfazejos e coroado com a Senhora Preta, recoberto em sua majestade e sajeza por uma folha lúcida e rumorejante de água pura corrente sortida por um ramado oculto de bicas e valvolejaturas que serpeava em entremeios nas pedras e na frisatura das avencas, em conformidade com a reza de São Coro de Minância de que o primeiro mandamento do siso e aquele da santidade são um só, e é esse entender que a água é mais coisa valiosa do que o ouro.
Carnivaldo, que tinha visto nunca folha d’água corrente substituir antes a folha d’ouro em obra qualseja, quedou tão entregue que Alci Facenzo como oferta de paz mandou construir ali onde o pezinho da alegria tinha posto em debandada a batalha, na curva do Parahyba do Norte no boqueirão de Vila do Porto, um edifício em que Carnivaldo nunca pôs o pé, casarão de seis lados com as colunas e paredes externas revestidas de folha d’água do rio, atravessado dentro na altura do joelho por sessenta canaletas comunicantes internas às paredes de pedra, com três dedos d’água e corrente própria, em que os hóspedes deitavam cuias de coité na fúria de mandar bilhetes, iguarias e pequenas oferendas entre um aposento e outro, obedecendo esse circuito a outra doutrina de São Côro: “a terra é travada e a pedra não arreda dali; o braço já do riacho serpeia o rego, a água vara o Mar Oceano e deita no pé do cristão um afago ou uma mensagem”.
Tudo isso está narrado, com essas exatas mesmas palavras, em Fevereiros da folha d’água de Precinto Cabiru, em cujo apêndice número II espreita a lista com o nome das 623 primeiras gotas d’água da criação, relação deitada pelos mucugês e a partir da qual – do mesmo modo que quem conhece os números de 0 a 9 pode numerar e identificar qualquer outro número sobre a terra – o leitor pode nomear gota d’água qualseja que lhe caia na mão.
Vem citada ali também uma carta a Limarina Laverna de Corneiro já Pecí, que em 1371 foi hóspede do Folgorado no casarão do Abaeté:
«O serviário de comunicantes no palácio que Alci dedicou a Carnivaldo segue um arranjo circular, resolvendo que a cuia com dentro sua mensagem depositada na água da canaleta num dado aposento desaparece levada pela corrente por uma fenda na parede; depois de atravessar cada outro aposento daquele andar e de ser interceptada no rego quem sabe pelo destinatário e respondida, o coité com a resposta ou outro afago chega na mesma canaleta pelo buraco na parede oposta, ocasionando que sem sair do quarto seu o hóspede pode trocar mensagem com os outros cada um.»
Corneiro Peci, cabra atraente, nariz quebrado, vozeirão, na noite que passou no casarão em Vila do Porto recolheu da canaleta no quarto coités anônimos com dentro o primeiro jambos, o segundo duas pitombas, outro um ninho de beija-flor, outro uma mandioca miúda, outro um copo de água de arroz. A única verdadeira correspondência da noite iniciou ele mesmo Corneiro, endereçando a mãe de santo Carmela Saissá no quarto adjacente ao seu, contra a corrente.
A resposta que lhe chegou pouco antes do amanhecer (e a história é toda essa) tinha sido interceptada e respondida pelos hóspedes todos da casa, como se tivesse sido endereçada a eles, antes de ser recebida finalmente e respondida por Carmela Saissá. Cada um tinha além disso respondido não só a mensagem original mas a resposta também de cada hóspede anterior, resultando num rosário de equívocos e invenções em que a última caligrafia pesava sempre mais do que a anterior.
A última a contribuir, a própria Saissá, respondeu não só a mensagem original e todas as outras, mas redigiu e assinou também uma resposta de Corneiro já Peci a si mesma e a cada um dos outros interlocutores, excluindo desse modo o iniciador do circuito no momento em que teria sido sua vez de jogar1.
Câmara Cascudo, a partir de uma única mas importante indicação, vê nessa história a origem da prática contemporânea que nas universidades do Norte se dá o nome de chapisco:
«Para abrandar o tédio de uma aula de Economia ou de Cálculo, o voluntário rasga uma folha de caderno e escreve de cabeça sua o mote: uma frase ou parágrafo (incompletos, terminando em reticências…) que darão a início à história. Ele sem dizer palavra passa a folha ao colega da carteira de trás, que entende de continuar a narrativa com duas ou três linhas suas antes de passar a folha ao companheiro atrás de si para uma nova contribuição – assim por diante classe afora até o fim um da folha, dois da aula ou três da história.»
Em A meiarte do chapes, Zé Márcio apresenta o chapisco como arte comunitária ligada menos à improvisação do que ao equilibrismo, suspensa entre o fio da coerência narrativa e a prazerosa acumulação de contrastes, chistes e grotesquerias. Quem praticou pode entender.
A pessoa que consegue arrematar com brio e bom humor uma folha adiantada de chapisco, oferecendo aos fios díspares da narrativa uma conclusão satisfatória – ao ponto que não ocorre a ninguém acrescentar a sua – se chama Saissá, e daquela hora essa passa a ser sua profissão.
- CURIQUEIRO
- NERECOPORETA
- SAISSÁ
