O irreversível

Minha lembrança mais antiga com uma conotação negativa (e que na travessia portanto do inferno me pode ser útil) não envolve uma coisa que fizeram a mim, mas uma coisa ████████ que fiz e despertou em mim o terror de tê-la feito: a culpa original, se o leitor emprestado insiste, ainda que eu não esteja certo de por quanto tempo na viagem vai fazer sentido usar esses termos.

Eu tinha seis ou sete anos e ████████ estava sozinho em casa; por algum descuido cujos detalhes não recordo (uma capa? uma espada? uma corda?), deixei cair no chão um vaso de minha mãe.

Um vaso vazio sem planta e sem flor, de cerâmica ou de porcelana, que estava apoiado no alto de uma banqueta ou no canto de uma cômoda: fiz cair e se despedaçou no chão expandindo-se como uma galáxia.

Fato é que com o Brabo que existia antes daquele momento não tenho nada em comum; sujeito é para mim um perfeito desconhecido.

Sou aquele depois, o cabra olhando perplexo para os cacos do vaso deixando em câmera lenta de deslizar em todas as direções pelo assoalho, o homem pequeno tentando abarcar no cérebro e no coração a vastidão daquilo tudo.

A velocidade com que entendi que era impossível reparar aquele dano, o sentimento de impotência diante da coordenação entre casualidade e causalidade, a face nua e sem expressão do simplesmente irreversível – tudo aquilo experimentei num segundo, destelhou-me a alma pela primeira vez e sequestrou-me contra a vontade para este lado da maturidade.

Uma raça de irreversível eu naquela idade tinha já experimentado num passarinho encontrado imóvel na calçada ou na morte de um caro animal de estimação, mas aquela do vaso era uma outra história: uma espécie de irreversível que tinha literalmente a marca da minha mão, um irreversível que poderia ter sido evitado de mil modos em mil cenários alternativos.

E agora e somente agora, nem um segundo antes – eu tendo rompido os termos de um contrato que não sabia sequer ter assinado – era tarde demais. Estava ali no chão em pedaços e poeira, em partes naquela altura incompatíveis com um todo: era o irreversível.

Estarrecido eu estava e estarrecido permaneço diante dessa vertigem, que o dano que pode ser evitado com ██████ ██████████ frequência acaba evitado não sendo. Conhecesse o messias torto Sabbatai Sevi, sobre quem eu só leria trinta anos mais tarde, teria usado como lamento a sua benção mais desconcertante: que tipo de Deus permite às suas criaturas que façam as coisas que ele proíbe?

Tudo aquilo experimentei sozinho na nossa casa de gente adulta, sem alma viva seja para me condenar seja para me absolver, e aquela solidão arrematou o laço da dúvida.

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Se lhe escrevo só hoje, minha mãe, é que o terror é do mesmo gênero mas o dano é disparado maior.