NERECOPORETA

Foi dito muitas vezes e de muitas maneiras, mas outra nenhuma como pelo engenhoso Arievaldo Viana1: “nerecoporeta é o cabra que fala tão rococó que acaba dobrando a realidade”.

Nerecoporeta é o encenador da nerecoporese, a cura semântica prescrita pelos guatós, artifício através da qual a realidade (ou a percepção da realidade, que é naturalmente a mesma coisa) é alterada ou sanada pelo uso exuberante, improviso e maneirista da linguagem2.

As malasartes todas do semiárido – o repente, o cordel, o bolodório, o paleio, a troncadura – pressupõem a cura semântica. Cada uma fomenta a nerecoporese a seu modo, mas requerem cada uma a fioteza, a gaiatice, a ligeireza – a inteligência verbal e gestual a serviço da maravilha, da ironia e da imaginação.

Através das palavras o nerecoporeta (ou bendizente, ou dissebença) alinhava sentidos, sons e alusões de modo a conduzir o seu ouvinte além do premurido, que é o inaudível estrondo sônico/sonic boom (para usar uma imagem de José Márcio) além do qual existe e subsiste, por um período de tempo, a realidade alterada pela cura semântica.

Jandira Maçude, ampliando uma página de Ariano Suassuna, elenca3 dezesseis modalidades (ou módulos) através dos quais o dissebença usa as palavras para dobrar a realidade. Este elenco Maçude esparge em duas grandes categorias, o Velho Modo – que usa formas e vocabulários estabelecidos – e o Novo Modo – que usa neologismos, dialetagens e regionalismos.

O exemplo clássico de cura semântica segundo o Velho Modo está no Canto XXIV do Purgatório:

E io a lui: «I’ mi son un che, quando
Amor mi spira, noto, e a quel modo
ch’e’ ditta dentro vo significando»

Eu eu a ele: «Já eu sou um que quando
O amor me inspira, tomo nota, e do jeito
que comanda interiormente vou significando»

– em que o premurido é atingido e ultrapassado no último segundo com aquele “vou significando”.

Ou este exemplo de Borges:

Mudou-se para Quioto, cidade sem rival em todo o império pela cor de seus outonos. Deixou-se arrebatar pelos prostíbulos, pelas casas de jogo e pelas tabernas. Apesar de seus cabelos brancos, ombreou com rameiras e com poetas, e até com gente pior.

Poetas, e até gente pior.

Sujeito que quer usar o Velho Modo e não tem a fioteza de Dante e de Borges recorre com frequência à enumeração e à acumulação de contrastes, conforme estes versos de Jacopo Ferretti para o libreto de La Cenerentola de Rossini:

Ed intanto in ogni lato
Sarà zeppo e contornato
Di memorie e petizioni,
Di galline, di sturioni,
Di bottiglie, di broccati,
Di candele e marinati,
Di ciambelle e pasticcetti,
Di canditi e di confetti,
Di piastroni, di dobloni,
Di vaniglia e di caffè

– enumeração que requer ser ouvida para ser crida4.

São Tregésimo:

«Vossia o que esperava além de troça
De um leso ignorante largado na roça
Feio, batoré e criado no imprompério
Que vive entre o mangue e o cemitério?»

O repente e a literatura de cordel, do lado seu, recorrem a miúdo ao regionalismo e ao invencioneiro do Novo Modo.

Aqui está Zefinha do Claricôco em seu Encontro com Bolsonaro no Planalto:

Malrasgado, malmovente, malestruço, malcurtido, malditado;
malrosnante, maltangente, malpastor, malgerido e malgestado.
Malcaído, malpatraz, maltenente, malcozido, malforjado; malencosto, malinchado, maltirado, maltingido e malversado.

Nenhum bem eu te provejo ou te imponho:
Não por não ter podido
Não por não ter querido
Mas porque seria você
A crer com o bem ser punido

E Zé da Luz, em Ai se sêsse:

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?…
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!

O vocabulário ou mitologia pessoal da qual o nerecoporeta extrai suas imagens e alusões se chama crondieira.

Localidade qualseja que se preze no serestão tem Academia Municipal de Nerecoporese (mínimo treze cadeiras), com assessores e dissebenças pagos pelo governo para exercer em regime perpétuo o ofício seu.


Este texto é a parte 2 de 2 da série Profissões verdadeiras do serestão: