O que permanece é o que não está escrito

«São todas coisas que vossia tem de memorizar», diz o indiano para concluir o seu discurso, enquanto começa a se despir. «Os egípcios da antiguidade escreviam as regras nas paredes, em etiquetas de papiro, nas tiras de pano com que envolviam o seu corpo e na superfície interna dos vasos que colocavam junto do sarcófago. Mas no outro mundo o que tinha sido escrito para ajudar acabava virando obstáculo, já que (e a vossia isso não preciso dizer) as palavras o demônio mais incompetente pode revirar o seu sentido, gerando engano e dúvida. Todas essas coisas vossia tem então de memorizar: o que permanece é o que não está escrito. Isso foi confirmado em 1957, quando Jacques Bergier encontrou, num olho de vidro caído do bico de uma poupa dois mil anos antes, uma mensagem de Unefer (sacerdote de Osíris) que dizia: «no mundo além da pele / só [subsiste] o que [se traz] dentro da pele». Se quer de fato reencontrar █████, sua alma tem de atravessar incólume o inferno, e a palavra de ordem é incólume. A viagem é mais dura porque vossia começa com todas as memórias menos as de █████ – pelo que, por toda a duração da sua busca, não vai ter como saber se cada esforço adicional vale realmente à pena. Não terá em momento algum a memória daquilo que está buscando, e a única certeza será que não há garantias de que no final vai conseguir. Não esqueça (e vossia será tentado a esquecer), a memória do sol, dos abraços, do vinho no copo, das brincadeiras e das partes do corpo.

Seguro com firmeza o punho do indiano.

«Por que vossia está –

Inteiramente agora nu, ele me beija o canto da boca, metade lábio e metade bigode, e entendo ali mesmo – a partir da lógica de histórias que li e que eu mesmo escrevi – que o indiano sou eu, que fui eu a me despir e que acabo de morrer.