Uma questão de sanidade • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 16 de março de 2014

Uma questão de sanidade

Estocado em Manuscritos

Esta é a parte 4 de 6 da série Entre a riqueza e a justiça

Os ideais igualitários da esquerda não são antipáticos por natureza; ao contrário, o mais acirrado partidário da direita já terá sentido o apelo deles, e muitos deles reconhecem isso.

Ideais simpáticos, no entanto, são relativamente fáceis de serem desacreditados. O modo mais desonesto de se fazer isso é também o mais comum, e é por isso que é coisa tão frequente ver as ideias da esquerda desclassificadas justamente por serem bem-intencionadas. “Você, Brabo, tem de ser um cara muito ingênuo pra acreditar nessas propostas fora da realidade” – como se eu devesse me sentir culpado por ter ideais elevados, ou por desejar para os outros as mesmas coisas (sobre isso leia, imediatamente, Uma utopia interina).

Pode haver manobra mais ideológica do que chamar de doente a quem não pensa como você?

Há no entanto uma versão estendida desse argumento, e se desenrola da seguinte forma: [1] como é impossível que alguém seja tão ingênuo de acreditar nas ideias da esquerda e [2] como quero acreditar que você não seja uma pessoa mal-intencionada, só posso concluir que você, Brabo, está mesmo é [3] doente.

“A esquerda como doença” – como modalidade contagiosa de loucura que se pega pelo simples contato com ideias ou pessoas insalubres – deixou de ser considerada hipérbole útil: ela é hoje a modalidade retórica essencial dos partidários da direita no Brasil.

Para a direita o socialismo é uma epidemia com vetores, com sintomas, com alucinações, com febres, com quadro clínico, com complicações, com recaídas e – ocasionalmente – com cura. Se não ouviu alguém falando da esquerda como doença você tem sido mais afortunado do que eu. Tenha a paciência de me acompanhar:

Sem programa e incompetentes, os neobolcheviques só sabem avacalhar as instituições democráticas, com alguns picaretas-sábios deitando “teoria” (Zizek e outros). Somos vítimas de um desequilíbrio psíquico. Muito mais que “de esquerda” ou “ex-heróis guerrilheiros” há muito psicopata e paranoico simplório. Esta crise não é só política – é psiquiátrica.
Arnaldo Jabor, O ‘perigo vermelho’


Nesse ponto, o cristão sempre deve desconfiar dos discursos sociais, maquiados na fertilidade imaginativa de que cabe ao cristão, além de propagar as Boas Novas, também propagar a redistribuição de renda e a consciência política. O cristão submetido a esse prisma ativista merece acompanhamento permanente e constante para que se registre a possibilidade quase iminente do afloramento das loucuras socialistas.
Filipe Liepkan, A caridade


Voegelin não exagerava ao dizer que Marx possuía uma verdadeira doença espiritual, caracterizada pela revolta da consciência imanente contra a ordem espiritual do mundo. Pois bem, essa doença é altamente contagiosa. Um cristão que siga Marx está abrindo portais gigantescos para sérios danos à sua mente e à sua fé.
Norma Braga, Marx logofóbico


Sua neurose fica evidente em seus ideais e fantasias; em sua arrogância, pomposidade e sentimento de superioridade moral; em suas demandas por gratificação, regalias e isenção de culpabilidade; em sua reivindicação de direitos; naquilo que ele dá e naquilo que nega; e em seus protestos de que nada que seja feito voluntariamente basta para satisfazê-lo. Em particular, a neurose do esquerdista radical fica evidente em suas extravagantes demandas políticas, em seus furiosos protestos contra a liberdade econômica, em seu arrogante desprezo pela moralidade, em sua indignada oposição à civilidade, em seus amargos ataques à liberdade de associação, em suas violentas agressões à liberdade individual.
Lyle H. Rossiter, Jr., M.D.
The Liberal Mind: The Psychological Causes of Political Madness



Que fique expresso o argumento comum a essas vozes: para esses apologistas, a questão deixou oficialmente o terreno da discussão de ideias que podem ser consideradas legítimas. Se esses caras da esquerda discordam de mim, explicam eles, é porque estão muito literalmente doentes. Sem exagero. Sem metáfora.

Trata-se de retórica útil, obviamente, porque ideias de louco não se discutem: se descartam e se tiram do palco, de preferência com o louco. Sonhadores, ingênuos e visionários podem ser incômodos, mas basta rotulá-los de loucos e doentes para anular o seu potencial transformador.

O inevitável paradoxo é que outro recurso retórico fundamental da direita é condenar as aspirações da esquerda como “ideologias”. Para a direita tudo que a esquerda faz é ideológico – no sentido de alguém que constantemente trapaceia, usando o peso conceitual de determinadas ideias para manipular as pessoas e fazer avançar um projeto. Mas pode haver manobra mais ideológica do que a de desclassificar, chamando de louco e de doente, a quem simplesmente não pensa como você?

Mas o que mais a direita poderia fazer? Se entende que deve desarmar os da esquerda como ingênuos, doentes ou mal-intencionados, a direita o faz porque seria impensável para o discurso neoliberal contemplar a alternativa. A retórica, colega, deve correr sem pausa. Temos de fazer de conta que é uma questão de sanidade, porque se não poderíamos ter de pensar nela como uma questão de ética. Ninguém que simpatize com a esquerda pode ser visto, em nenhuma luz, como simultaneamente lúcido e bem-intencionado – porque, se for, se um mundo mais admirável e menos desigual for realmente possível, resistir a ele apoiando a direita poderia ser considerado moralmente errado.

E essa possibilidade quem gostaria de encarar.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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