Uma mentira útil • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 01 de outubro de 2014

Uma mentira útil

Estocado em Manuscritos

A era da globalização começou nominalmente com a queda do muro de Berlim. 25 anos depois, o mundo nunca esteve mais sectário e dividido

“Numa das longas férias de verão que passamos em Montevidéu,” conta Jorge Luis Borges, “meu pai me disse que desse uma boa olhada em certas coisas porque estavam fadadas a desaparecer. Ele queria que eu tivesse como contar aos meus filhos e netos que tinha visto essas coisas quando ainda existiam. Ele me disse para olhar para quartéis, bandeiras, mapas com cores diferentes representando diferentes países, açougues, igrejas, sacerdotes e alfândegas – porque todas essas coisas desapareceriam quando o mundo fosse um e todas as diferenças fossem esquecidas.”

Jorge Guilhermo Borges, pai de Jorge Luis, era anarquista e simpatizante de Herbert Spencer. Aquelas eram as primeiras décadas do século vinte, e “víamos a Revolução Russa como um prelúdio de paz entre todos os homens” (mais tarde os Jorges se desiludiriam asperamente com o socialismo soviético).

O pai de Borges não estava sozinho em entender que um mundo pós-nacional era inevitável. Um planeta unificado, que abandonasse os conceitos de fronteira e nação em favor de uma irmandade universal entre os homens, foi ao longo do século XX um dos futuros mais comumente antecipados pela política e pela ficção.

Esse futuro pós-nacional, multicultural e multirracial foi tomado como certo, por exemplo, por todas as manifestações da série Jornada nas Estrelas. Nessa visão de futuro “o espaço é a fronteira final” porque, como na expectativa de Jorge Guilhermo Borges, a Terra tornou-se finalmente “uma” e as fronteiras nacionais que retalhavam o planeta deixaram de existir.

Na transição para o século vinte e um essas expectativas sofreram uma correção de rumo: a utopia pós-nacional foi adiada, tenso sido substituída pelos discursos da “aldeia global” e da globalização. Escolhemos com cuidado essa palavra, globalização, porque quando a utilizamos não precisamos explicar a nós mesmos por que toleramos que o mundo continue dividido.

A narrativa oficial adotou, como rito global de passagem para o terceiro milênio, a queda do muro de Berlim em 1989. O Muro simbolizou, a seu modo, “a fronteira final”: sua queda representou o fim de um mundo dividido, estampando a vitória planetária do capitalismo sobre o socialismo. Compramos todos a ideia de que a partir daquele momento as nações viveriam em cooperação e paz sob a égide do capitalismo, adotando como universais e colhendo as recompensas globais dos valores do liberalismo econômico: liberdade, autonomia e igualdade de oportunidade para nações inteiras e para cada habitante do planeta. Países insubmissos (como o Iraque) e regiões remotas (como todos os sertões da Terra) teriam de ser “liberados” para o capitalismo, mas o futuro já estava balizado e operante, e chamava-se economia global.

Passados vinte e cinco anos, estamos ainda adiando a compreensão do que deveria ter se tornado óbvio: o mundo globalizado é uma mentira útil. O planeta está tão nacionalista quanto o que desencadeou as Grandes Guerras, o fascismo vai bem – obrigado, – e as fronteiras nunca foram tão explosivas e vigiadas. O mundo não está só fragmentado como jamais esteve, mas cada fragmento toma as maiores precauções para não ter de se misturar com os demais.

Os ídolos das nações

As tensões entre as nações são tão antigas quanto a humanidade, mas a própria natureza dessas tensões garantiu por milênios a sua fluidez. Ao longo da história as fronteiras de impérios e nações mudaram com tanta frequência quanto a autoimagem dos povos. Antes de ser “italiana” a Sicília foi chamada de sua por romanos, bizantinos, muçulmanos, normandos, catalães e espanhóis (e foi ainda por algum tempo um reino independente, o Regnum Siciliae).

Foi somente a partir do século dezenove (em termos históricos, foi ontem) que começaram a estabelecer-se os Estados-nação, e pela primeira vez na história as fronteiras e os caráteres nacionais passaram almejar deliberadamente a fixidez. A Itália tem para contar muitos milênios de história, mas como país é mais jovem do que o Brasil 1O Brasil é país independente desde 1822. A Itália só foi unificada em 1871, com a anexação do Vaticano e a mudança da capital para Roma (alguns historiadores acham mais correto dizer que a unificação da Itália só foi concluída ainda mais tarde, com o fim da Primeira Guerra Mundial em 1918)., tendo existido por séculos fragmentada em reinos, cidades-estado e territórios mais ou menos independentes e de fronteiras sempre cambiantes.

Com a aproximação do século vinte o mapa da Europa ocidental assumiu a forma que conhecemos hoje, e fixaram-se mais ou menos ao mesmo tempo as fronteiras nacionais de grande parte dos países do planeta.

A febre do que viriam a se tornar os nacionalismos havia tomado conta do mundo. Cada nação procurou estabelecer suas fronteiras e suas tradições, seu posicionamento cultural e seu diferencial ideológico. Como denunciado por Eric Hobsbawn, quando faltavam tradições históricas e legítimas as nações trataram de inventá-las. As tradições inventadas ajustavam e legitimavam a realidade retroativamente, oferecendo à população o conforto do ritual e fixando as origens das feições nacionais num passado remoto e fictício.

«As minorias étnicas substituíram o herege como objeto de ressentimento nos novos Estados-nação»

Num mundo que abraçava em ritmo acelerado o secularismo, a paixão mundial pelo bairrismo assumiu em pouco tempo as dimensões de culto. Como me trouxe recentemente à memória Karen Armstrong, o culto à nação efetivamente substituiu a religião como norte para a vida e justificação para a guerra:

Se definimos o sagrado como aquilo pelo que estamos prontos a morrer, o que Benedict Anderson chama da “comunidade imaginada” da nação passou a substituir Deus. Passou a ser considerado admirável morrer pelo seu país, mas não pela sua religião.

A Terra pertencia a todos

Colocados em prática nas nações que iam surgindo, os ideais de liberdade, tolerância e de igualdade do Iluminismo acabaram produzindo o seu oposto: tensões raciais internas e externas e restrições à liberdade. Não é por acaso que o nacionalismo ao mesmo tempo causou e consolidou-se com a Primeira Guerra Mundial. Stefan Zweig:

Nada deixa mais claro o imenso retro­cesso que recaiu sobre o mundo depois da Primeira Guerra Mundial do que as res­tri­ções sobre a liberdade de des­lo­ca­mento do homem e a dimi­nui­ção dos seus direitos civis. Antes de 1914 a Terra pertencia a todos. As pessoas iam para onde dese­jas­sem e ficavam o quanto quisessem. Não havia vistos nem auto­ri­za­ções de per­ma­nên­cia, (…) e antes de 1914 viajei da Europa para a Índia e para a América sem ter um pas­sa­porte e sem ter em qualquer momento visto um.

É evidente que o nacionalismo não inventou o ódio ao estrangeiro, mas conferiu à xenofobia uma nova justificativa e um novo método. As fronteiras foram reforçadas, as nações se ensimesmaram e – isto é particularmente significativo – “as minorias étnicas substituíram o herege como objeto de ressentimento nos novos Estados-nação” (Armstrong).

O culto à nação colocou um manto de virtude e de racionalidade sobre a hostilidade contra o estrangeiro, e as consequências foram (e permanecem) cataclísmicas. Os judeus (para citar um único caso exemplar) nunca foram benquistos na Europa cristã; porém não é demais lembrar o Holocausto não foi motivado por um fundamentalismo religioso, mas um secular: o exaltado nacionalismo nazista, tingido de devoção à pátria, do amor à pureza da raça e da proteção aos valores “do bem” que gente estranha parecia ser por natureza incapaz de sustentar.

O enclausuramento das nações possibilitava a mobilização para a guerra, mas também para o trabalho e para a produção. Não foi sem razão que o nacionalismo espalhou-se pela Europa em sincronia com a Revolução Industrial e com a ascensão do capitalismo. O discurso fascista do nacionalismo esteve desde o início (e permanece) ligado à proteção do produto e da força produtiva nacional – ou seja, a proteção da manifestação local do capitalismo. Seja no Brasil ou na Itália, o discurso nacionalista-fascista troveja sem cessar contra “esses malditos estrangeiros/africanos/haitianos/muçulmanos/nordestinos/índios que vieram roubar os empregos/recursos/terras que pertencem por direito à nossa gente”.

O capitalismo de todos os muros

Desse modo, e a despeito do discurso da globalização, o capitalismo patrocina a hostilidade entre as nações em muitos níveis.

Num extremo estão aqueles estados e grupos (em particular os islâmicos radicais) que antagonizam os países capitalistas (em particular os Estados Unidos) porque rejeitam ativamente o que o capitalismo defende e representa. Usam (ou devolvem) o terrorismo como ferramenta, e permanecem nas margens da legitimidade diplomática.

Porém o capitalismo é um diabo versátil, e promove tensões mesmo entre os países capitalistas. Os países pobres temem que os países ricos queiram explorar o seus recursos; os países ricos temem que os países pobres queiram roubar os seus empregos. Os estrangeiros são vistos como competição e ameaça quer dentro quer fora do território nacional, e as fronteiras são militarizadas. Atravessar sem autorização o muro de Berlim não pode ter sido muito mais difícil do que atravessar do mesmo modo uma alfândega nos nossos dias.

O capitalismo contemporâneo gosta de ser chamado de “liberal” porque afirma colocar a liberdade e a igualdade de oportunidade acima de todos os outros valores. Como sugeriu-me Roland Boer, para entender a falsidade desses argumentos basta olhar as fronteiras entre as nações e as restrições à imigração impostas por virtualmente todos os países. Em vez de liberal, o capitalismo é rigorosamente tribal: a liberdade e a igualdade de oportunidade que promete aplica-se somente aos de dentro, e isso na melhor das hipóteses.

Mas não seria ingenuidade, Brabo, esperar que o estado italiano fosse capaz de acolher todos os africanos interessados em aportar na Sicília, ou o governo australiano receber de bom grado todos os brasileiros interessados em trabalhar em Sydney? Mas digo eu – se os valores nominais de liberdade e igualdade de oportunidade operassem de fato acima dos critérios arbitrários do nacionalismo, por que não?

Nosso problema é que entendemos imediatamente que nenhum estado se mostraria capaz de fornecer educação, rede sanitária, previdência social e assistência médica a uma multidão indiscriminada de imigrantes. Essa convicção é combustível de todos os focos do fascismo: a aversão aos estrangeiros nos países mais ricos é sustentada em grande parte pelo medo que gente estranha venha sugar os benefícios e recursos (por definição limitados e frequentemente insuficientes) que o estado deveria reservar para os cidadãos.

E aqui entra a curiosa relação do capitalismo com o estado assistencialista. O estado de bem-estar social, em que o governo se obriga a fornecer serviços públicos e assistenciais a toda a população, é no papel tido como um sonho da esquerda, inteiramente incompatível com o estado liberal defendido pelo capitalismo.

A verdade é mais complexa: nas nações modernas o próprio capitalismo fomenta e requer um estado paternalista. Um caso extremo é o da Coréia do Sul, em que a súbita ascensão dos valores liberais individualistas do capitalismo tornou necessária a criação emergencial de uma estado assistencialista:

O acelerado sucesso econômico do país terminou por dissolver o contrato social confuciano que formou a base da cultura coreana por séculos. Esse contrato baseava-se na premissa de que os pais fariam praticamente qualquer coisa pelos filhos, mas passariam o fim de suas vidas sob o cuidado deles. Nenhuma previdência social era necessária, e os lares para idosos eram raros.

Porém, à medida em que as gerações mais novas juntaram-se ao êxodo das fazendas para as cidades nas últimas décadas, ou passaram simplesmente a trabalhar com maior esforço no ambiente hipercompetitivo que sustentou o milagre econômico nacional, seus pais e mães ficaram para trás, pobres e sozinhos nas áreas rurais.

O governo começou a estruturar uma previdência social em 1988, mas muitos dos coreanos mais velhos não são cobertos por haviam passado da idade de trabalhar quando o sistema foi criado.

O capitalismo é um sistema inclemente, e todos que não estão dentro são suas vítimas. Quanto maior o sucesso do capitalismo num país, maior é o número daqueles que (por velhice, invalidez, doença, desemprego ou qualquer outro motivo) são lançados para as margens e requerem alguma assistência – assistência que se alguém vai dar é o estado, porque no capitalismo cada um cuida de si. E, naturalmente, a própria existência de uma rede de assistência estatal torna cada país menos inclinado a (ou capaz de) acolher estrangeiros.

A senzala global

O resultado do fechamento das fronteiras é um mundo dividido em compartimentos muito distintos, uma senzala planetária em que há lugar para países senhores, países feitores e países escravos.

E, como venho dizendo, a conveniência do capitalismo de viviam da terra: “estão na cidade mas pelo menos não estão se prostituindo”.

Este é o mundo descompensado que o capitalismo promove e do qual depende. Os italianos não querem os africanos, os franceses não querem os muçulmanos, os americanos não querem os mexicanos, os australianos não querem os brasileiros e os brasileiros não querem os haitianos. Os smartfones só chegam ao Ocidente num preço que você pode pagar porque cada aparelho foi patrocinado pela mão de obra barata (isto é, os salários baixos e as condições de trabalho brutais) de chineses que você não vai ter de conhecer e que não quer ver imigrando para o Brasil.

Não há diferença: o mundo tolera o capitalismo do mesmo modo e pelos mesmos motivos que tolerava a escravidão. Se os países fecham as suas fronteiras é porque de outro modo não teriam como se beneficiar de ninguém. É a lei do condomínio fechado: não nos sentimos responsáveis por aqueles que excluímos. Queremos sonhar que há oportunidade para todos, só não deixe que passem da portaria, que vão me sujar a piscina e deixar tocos de cigarro por todo o gramado. Gente sem educação.

Curioso é que os filósofos iluministas – cujas ideias deram à luz o nacionalismo e o liberalismo econômico, – colocaram a nação, a liberdade e a igualdade no lugar de Deus porque acreditavam que a religião gerava sectarismo e intolerância entre os homens. A ortodoxia secular que pregaram acabou criando o mapa-múndi mais intolerante, fragmentado e sectário da história do tráfico entre as nações.

Leia em seguida:
O comprimento das cadeias
A Grécia e a Lei do condomínio fechado

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. O Brasil é país independente desde 1822. A Itália só foi unificada em 1871, com a anexação do Vaticano e a mudança da capital para Roma (alguns historiadores acham mais correto dizer que a unificação da Itália só foi concluída ainda mais tarde, com o fim da Primeira Guerra Mundial em 1918).
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