Uma lista de singularidades: porque o Brasil é tão difícil de explicar • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 11 de agosto de 2015

Uma lista de singularidades: porque o Brasil é tão difícil de explicar

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O resto do mundo não opera a partir de lógicas que se aplicam aqui

A confissão: escrever sobre a crise da zona do euro ou a ascensão do nacionalismo no mundo é covardemente mais fácil do que se pronunciar com qualquer lucidez sobre o que acontece neste país.

Se o mundo é complexo, o Brasil é excepcionalmente. As correntes que cortam e definem o planeta são pelo menos visíveis e mapeadas. Em comparação, não há nome ou disciplina que corresponda a muita coisa que acontece no Brasil.

Não é à toa que entre nós tanta gente reputada escreve tolice sem perder a reputação. O Brasil é um estado de exceções, mas fingimos continuamente que as categorias tabuladas externamente aplicam-se aqui, e com isso não chegamos a falar do que está acontecendo. Sem um vocabulário próprio, a conversa não avança: permanecemos incompreensíveis para os outros e invisíveis para nós mesmos.

Uma lista das singularidades que se escondem no Brasil

Proponho aqui, com metodologia nenhuma, uma relação das tendências, heranças e particularidades que [1] definem o país e [2] permanecem abaixo da percepção e quase sempre ausentes da – com o perdão da palavra – conversação nacional. Esses desvios gravitacionais são o que somos, mas são também o que temos de vencer para chegar a ser o que somos. Minha intenção é decupar cada um desses itens em textos posteriores; por enquanto estas meias palavras terão de bastar. Se na leitura você tropeçar em uma generalização ou duas, celebre comigo: a ideia é mesmo esta.

A desigualdade na distribuição de riqueza

O mundo está longe de ficar mais justo, mas o Brasil habita a planilha desonrosa das nações com maior desigualdade na distribuição de renda e de riqueza do planeta. Quando a economia cresce, como aconteceu nas últimas décadas, os benefícios são canalizados para os que já tinham mais recursos em primeiro lugar: o crescimento apenas serve a disparidade.

Este item está no topo da lista não porque a questão não esteja sendo discutida, mas porque está longe de ser assimilada e serve para acentuar todas as demais defasagens. As mínimas medidas de distribuição de riqueza tomadas pelos governos do PT – tão mínimas que em outros lugares do mundo seriam tomadas como humanitárias – serviram para conter a miséria, mas foram consideradas excessivas pelas parcelas da população que não se enxergaram beneficiadas por elas. Dito de outro modo, convivemos diariamente com injustiças que o mundo desconhece.

É muita gente – e em altas concentrações

A presente crise econômica, política e humanitária da Grécia pode parecer difícil de manejar, mas a Grécia tem ao todo 11 milhões de habitantes. Só a Grande São Paulo tem duas vezes isso. O estado de São Paulo tem sozinho 11 milhões de habitantes a mais do do que a população inteira da Austrália.

Esse pode não parecer um fator crítico se considerarmos que os Estados Unidos têm 120 milhões e a Índia um bilhão de habitantes a mais do que nós – mas nossos 200 milhões sofrem a particularidade de viver engarrafados numa porção mínima do território. Os indianos não tem escolha, mas decidimos em larga escala viver em Índias de nossa própria construção.

A cultura das metrópoles

Queremos ser civilizados como europeus e americanos, mas esse próprio desejo cria os destemperos que caracterizam países falidos e injustos – em particular a abdicação dos interiores e o inchamento dos grandes centros urbanos.

Metrópoles são crises concretas, ao mesmo tempo inventadas pela desigualdade e motores da sua perpetuação, mas grande parte dos brasileiros não conhece outra vida. Nossas ambições trabalham contra o ideal que admiramos em lugares civilizados, a tradição de cidades pequenas distribuídas de modo mais ou menos uniforme pelo território. Nos Estados Unidos e na Europa uma cidade pequena tem entre 300 e 3000 habitantes; no Brasil chamamos de pequena uma cidade que tenha 100.000.

O latifúndio interior

Certo, Casa Grande e Senzala: nossa tolerância à desigualdade e nossas metrópoles são em parte reflexo da nossa história com fazendas que chegam a ser maiores do que certos países. Os latifúndios da história não deixaram de existir, mas se transmutaram em corporativismo e em agronegócio – querendo dizer que testemunhamos como se fosse coisa natural entregar o território para ser processado industrialmente em benefício de meia dúzia de coronéis.

Queremos ser como os americanos, mas com exceção de Santa Catarina e talvez os sertões do nordeste (de bendita memória), desconhecemos a cultura de pequenas propriedades rurais autônomas. O quanto a nossa familiaridade emocional com o latifúndio serviu para moldar a nossa identidade serão necessários outros Gilbertos Freyres para mapear.

Temos o país inteiro para queimar

Perto do topo das nossas singularidades está esta: curadores de um território imenso cujo destino está em grande parte por decidir, temos ainda uma quantidade assombrosa de recursos para queimar.

Os estrangeiros enxergam essa nossa característica com muito mais clareza do que nós. Este é um mundo de países cansados e desiludidos, que alcançaram todos e conhecem bem os seus limites. Pergunte à Índia, à Itália, aos Estados Unidos – a virtualmente qualquer outra nação do globo – se são ignorantes das limitações do seu território e dos seus recursos naturais. Essa lucidez nós desconhecemos: vivemos uma euforia adolescente de crescimento que o planeta inteiro ao mesmo tempo inveja e sabe onde vai dar.

Estamos queimando o país inteiro

O que as nações do mundo sabem por experiência própria é que um país só pausa para temperar os seus apetites depois de queimar todos os seus recursos, depois de encontrar e encarar finalmente os seus limites. Ignorantes dessa tragédia anunciada, prestamos culto febril aos ídolos do desenvolvimentismo e do progresso, que os países que chamamos de civilizados deixaram de cultuar há décadas.

A floresta amazônica ainda está lá, mas em parte e não por muito tempo, cedendo em ritmo vertiginoso lugar ao agronegócio. Cometemos Belos Montes como se não houvesse amanhã, e assinamos qualquer sacrilégio ambiental ou social no altar do crescimento. Curioso é que, ao contrário do resto do mundo, temos ainda uma (brevíssima) janela de oportunidade para fazer diferente, e uma raríssima base cultural para fazer diferente. O que torna a coisa toda, naturalmente, apenas mais trágica.

Os limites da nossa antropofagia

Porque soterrado na identidade nacional, debaixo dos tumores que mandamos enxertar dos Estados Unidos, está um cerne de indiaria e de sertanejidade. Essas vozes – falando pela música 1Um italiano me disse em 2010 que a música popular brasileira vai um dia salvar o mundo; emocionei-me à lágrima por ver que ele entrevia da Itália o que daqui não somos capazes de ver., pela cultura popular, pela carne tremente dos portugueses que comemos – nos dizem sem cessar que não vale à pena esse desvario todo, esse correr atrás do vento, e que vale menos ainda chamar essa doença de crescimento.

Os estrangeiros se apaixonam pelo Brasil porque entrevem em nós esse antropófago belíssimo deitado na rede, inteiramente caracterizado pela sua suficiência e pela sua indiferença, mas essa subversiva vocação todas as nossa elites – a direita em peso e uma desconcertante parcela da esquerda – rejeitaram por completo. O antropófago comia porque assumia o nome do comido; nós queremos aprender a consumir para que o mundo não pense mais em nos chamar de antropófagos.

Rejeição à coisa histórica

Lévi-Strauss não conseguiu entender a perpétua precariedade e o desengajamento das cidades brasileiras, e intuiu que a chave desse des-envolvimento está na relação particular que o país colonizado tem com o tempo. O motor seria a pressa que temos de emparelhar, a vertigem de alcançar artificialmente o grau de civilização da civilização que nos gerou. Como nos vemos obrigados a saltar os longos processos históricos que definiram o continente colonizador, tomamos como essencial apagar todo traço do nosso próprio processo histórico.

Esse desapego da coisa histórica toma muitas vezes a forma de um projeto consciente de eliminação da memória. Não há cidade brasileira que não tenha colocado abaixo, em nome de um progresso genérico e sem rosto, a face maior das suas coisas históricas. O centro do Rio de Janeiro, para recorrer ao exemplo mais formidável, já foi terraformado gerações de vezes: morros inteiros apagados do mapa, toda a arquitetura colonial original posta abaixo, as populações órfãs relocadas uma instância após a outra para onde causariam menor constrangimento. Se visitasse o centro de Florença na tarde de hoje, Dante reconheceria de imediato e saberia deslocar-se naturalmente na cidade em que nasceu no século XIII; largado hoje na Cinelândia, João do Rio seria incapaz de reconhecer como sua a cidade que abandonou em 1921.

Relação automutiladora com a paisagem

Os índios brasileiros não tinham utilidade para o conceito de paisagem, mercadoria importada que foi do Velho Mundo. O brasileiro resultante não é nem coisa nem outra: desconhece tanto o embrenhamento indígena quanto o culto europeu à moldura e ao panorama. Basta retomar o exemplo do Rio de Janeiro, que, estando no lugar mais bonito do mundo, submete-se a tamanha sucessão de cirurgias plásticas que deixou de ser capaz de se reconhecer no próprio passado.

Mas é em todo o território: a violência contra as feições originais da terra é nossa obsessão. Não basta ocupar o morro, construir a casa na mata, plantar junto à margem, usar o rio para a navegação; é preciso desfigurar a face do morro em pedreiras e fábricas, desbastar a mata em estacionamento, atropelar com a lavoura as matas ciliares, sepultar vastos e requintados salões de dança biossocial no lago da barragem. Não somos a única nação a comer a isca do desenvolvimento, mas apuramos o conceito até ele se tornar indistinguível da automutilação.

Senso de pertença seletivo

Os norte-americanos convivem com desigualdades em certo sentido comparáveis às nossas, mas inventaram o conceito de “comunidade” para promover algum autorreparo aos seus destemperos. Nós aqui desconhecemos todos as bases desse senso construído de pertença: rejeitamos a relação pessoal com a terra, rejeitamos a relação emocional com o passado, rejeitamos a ideia de lugar sagrado, rejeitamos qualquer responsabilidade com a paisagem, rejeitamos estereótipos (e no processo os confirmamos), rejeitamos as vozes ternuristas e temperantes da vocação afro-indígena.

Nosso senso de pertença é semovente e seletivo. A cultura popular costumava prover um senso de identidade muito real para grande parte da população, mas do Carnaval do Rio à Feira de Caruaru as tradições populares tem sido sistemicamente “revitalizadas” – isto é, sequestradas, destituídas de vitalidade e transformadas em commodities. Um processo semelhante de des-envolvimento tem atingido o futebol, drenando sua capacidade de apaixonar e de remeter às geografias simbólicas originais.

Tolerância diante de indébitas apropriações

Diferentes observadores ponderaram o estoicismo brasileiro, a patológica tolerância nacional à desapropriação. Que a história seja apagada, modos de fazer eliminados do mapa, injustiças perpetuadas, tradições sequestradas por interesses corporativos, matas e espécies pulverizadas pelos séculos dos séculos – perversidades semelhantes atormentaram a agenda de outras nações, mas raramente acompanhadas do nosso senso de impotência e de passividade.

A brasilidade que inventamos é avessa à ideia de levantar-se contra o que quer que seja. Como o popular da crônica de Luís Fernando Veríssimo, o brasileiro não é o sujeito que está fazendo o protesto; o brasileiro é o cara que está no fundo da reportagem observando o não-brasileiro que está protestando – não-brasileiro, bem entendido, porque está protestando. Nesse sentido não há modo de se tratar diretamente com o brasileiro, de obter uma resposta sua: ele se mantém perpetuamente fora do foco das próprias crises que o atingem.

A máfia informal

Um senso de fatalismo semelhante define a relação do brasileiro com a corrupção e com o crime. O brasileiro não comete a corrupção, como se ela fosse iniciativa sua: a corrupção lhe sobrevém. Ele é acometido por ela, uma externalidade que a seu ver de modo algum o define. Não lhe ocorre de modo natural sentir-se culpado pela corrupção (nem mesmo depois de apanhado), não mais do que ocorreria a alguém sentir-se culpado por contrair um câncer. São coisas que podem acontecer a qualquer um. O brasileiro sabe que se a oportunidade de tirar vantagem aparece devemos nos conformar a ela; só resta desempenhar com brio o nosso papel numa tragédia que não nos diz respeito pessoalmente.

Somos desse modo aliciantes e aliciados de uma forma de crime desorganizado, que é muito mais difícil de desbaratar do que sua modalidade organizada – porque diz respeito a oportunidades, não a agentes. Enquanto a oportunidade existir surgirão novos agentes, como cabeças da Hidra.

Compromisso com a autossabotagem

As nações pecam por supervalorizar as suas peculiaridades e contribuições; tomam o que tem de melhor e bombardeiam-no universo afora ao ponto da plena pulverização. O brasileiro teme a imodéstia, pelo que assumimos a postura oposta: recusamos com obstinação e método a encontrar mérito nas nossas singularidades. Um dos resultados é que as pessoas param e pagam para ler os livros de Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, – caracterizados, para ser generoso, pela suas carências – enquanto Brasis, Brasil e Brasília de Gilberto Freyre morreu na primeira edição de 1968.

Há outras pérolas que sepultamos entre duas capas, como Clarice Lispector, mas o trágico é que as grandezas do Brasil permanecem disponíveis, em enormes doses, na rua e onde a rua não chega. Há um veio de ouro legítimo na música e na cultura popular, há o fulgor de beleza, gentileza e criatividade que é o semiárido. Há professores, há saltimbancos, há recitadores de cordel, fazedores de ex-votos, tocadores de viola, fazendeiros urbanos, pastores do bem, pais-de-santo da maior nobreza; há gente que vi ir para cidade e colocar terno e gravata mas que escolheu voltar para a enxada, a literal enxada. Há escolas de samba, há tribos urbanas, há bairros que se enfeitam, há arrasta-pés em algum lugar, há terreiros em que as pessoas dançam, há igrejas que fazem festas, há favelas que são fontes de vida, há índios que não querem o que você quer, há gente preparando iguarias para servir amanhã. Há Luiz Antonio Simas, Eduardo Viveiros de Castro, Deborah Danowski, Flávia Cera, Alexandre Nodari, Moysés Pinto Neto e uma infinidade outra de brasileiros transversais (Rondinelly Gomes Medeiros! Zé Márcio! Cláudio Oliver! Roberto Diamanso!), que apontam futuros grandes e terríveis com medidas iguais de ternura e desilusão, assombro e celebração.

Um fascismo antinacionalista

O ressentimento contra quem não sente falta de um Starbucks desemboca em outra curiosidade nossa, o fato de que a direita (nada contra, tenho até amigos que são) se vê inclinada a adotar um fascismo de contramão. Rosana Pinheiro Machado colocou assim: “Ao passo que os italianos e alemães viam seu povo como superior, o fascismo idiossincrático à brasileira não idolatra a si próprio, mas aqueles países que lhes barra na imigração.” E Juraíldes da Cruz: “Se farinha fosse americana, mandioca importada, banquete de bacana era farinhada”.

Canalhices históricas não tratadas

Os países ricos com menos recursos que o nosso passaram os últimos 70 anos burilando (e evitando) o conceito de reparação, a ideia de que violações graves dos direitos humanos podem requerer compensação (por vezes financeira) às suas vítimas ou descendentes.

No Brasil a Comissão Nacional da Verdade, instaurada em 2011, investigou as violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 e apurou que os povos indígenas foram atingidos pelas violações mais graves. Há outras canalhices históricas a serem tratadas, mas a questão indígena é particularmente reveladora. Como começar a reparar os povos indígenas, se permanecem sitiados em todo o território pelos invasores e pelos projetos tecnocráticos do próprio governo? Outros países operam na modalidade “nenhuma reparação é possível”; o Brasil opera no modo “nenhuma reparação é necessária”.

Um pacto com o transporte automotivo

Despertou-me do meu torpor o amigo italiano a quem eu não soube explicar porque não há trens de passageiros entre São Paulo e Curitiba ou mesmo (ele achou que eu estava brincando) entre Rio e São Paulo.

Porque pessoas e produções não escoam Brasil afora através de barcas e ferrovias? Quando a incompetência é premiada pelo monopólio, certas perguntas encontram modo de fugir de todas as pautas.

Um olhar fora de centro

Um dia Oliver Sacks veio e me contou a história de um paciente seu, com visão perfeita mas um distúrbio neurológico que o impedia de enxergar o lado esquerdo… de qualquer coisa. A falta de saída para o oceano Pacífico fez com que o Brasil herdasse uma condição similar: em todas as coisas a nossa é uma visão de metades cambiantes, um olhar fora de centro, e dessa condição não chegamos sequer a nos dar conta.

O índio é um dos dois cantos invisíveis do Brasil, o outro é o semiárido. Não sabemos o que fazer do Brasil impensável que existe fora do alcance redentor do litoral. Queremos no Acre ou em Roraima uma metrópole como São Paulo? Por que sim ou por que não? Acreditamos de fato que o interior deva ser dilapidado para sustentar as escolhas da faixa litorânea? Se cada um dos três cantos do país tem vocações diferentes, pensar o Brasil não requererá uma sorte nova, generosa e tríplice de democracia? Essas são discussões que simplesmente não enxergamos: nossa visão fora de centro nos impede de sequer admiti-la.

Um ícone chamado Brasília

E não há nada mais fora de centro do que Brasília, uma cidade inventada para resolver um problema que não existia, e que acabou patrocinando a perpetuação de um problema que já era muito real.

Cidades planejadas são uma noção antiga (ah, Pienza!), mas Brasília é uma exceção na história do conceito todo, e não só pelo fato de ter sido executada com pouquíssimo planejamento e representatividade. Em seu caráter de permitida exceção, Brasília é precursora de todas as excrescências tecnocráticas que vieram depois (como, digamos, Itaipu e Belo Monte), “expressão magnífica do que há atualmente de boêmio e de improvisado em quase tudo que se faz de grande e de pequeno no Brasil” (Gilberto Freyre).

Um desconhecimento do fim do mundo

Enquanto o resto do planeta está ponderando os limites da sua esfera, o Brasil não vê a hora de ser uma nação madura e estar na mesma condição de não ter mais recursos para dissipar. A ideia de que, dentre todos, o país tem ainda alguma margem para fazer diferente e explorar modos alternativos de fazer absolutamente não nos sensibiliza.

O mundo engoliu os nos nossos esterótipos e acredita que nossa vocação é celebratória; ignoram que ansiamos pela carranca e pela desilusão. Queremos ter, para ontem, os problemas de países civilizados como a França ou superpopulosos como a Índia. Ainda não alcançamos o fim do mundo, mas queremos como todo mundo o privilégio de olhar pela borda.


Adendo surreal. Ontem, quando este texto já estava concluído, o governo divulgou a Agenda Brasil, desenhada emergencialmente para tirar o país da crise. Na seção “Melhoria do ambiente (ambiente de negócios e infraestrutura, o texto se apressa em explicar)” está escrito:

Revisão dos marcos jurídicos que regulam áreas indígenas, como forma de compatibilizá-las com as atividades produtivas.

“E vocês por acaso precisam de muita?” – o tupinambá continua perguntando perpetuamente a Jean de Léry.

Para contribuir, ampliar ou questionar por completo a validade desta lista fale comigo aqui ou pelo @saobrabo no twitter.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. Um italiano me disse em 2010 que a música popular brasileira vai um dia salvar o mundo; emocionei-me à lágrima por ver que ele entrevia da Itália o que daqui não somos capazes de ver.
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