Uma crise de proporções • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 18 de setembro de 2015

Uma crise de proporções

Estocado em Goiabas Roubadas

Paul Kingsnorth

A crise que se desenrola no cenário mundial é uma crise de crescimento. Não, como costumam nos dizer, uma crise causada por pouco crescimento, mas por crescimento excessivo. Os bancos tornaram-se tão grandes que o seu colapso resultaria no colapso da economia global. Para prevenir isso, foram resgatados com avalanches de dinheiro público, medida que está precipitando crises sociais nas ruas das nações ocidentais. A União Europeia é tão grande, tão incapaz de prestar contas, que ameaça desabar sobre si mesma. As corporações tornaram-se tão grandes que estão suplantando as democracias e erguendo uma plutocracia global que sirva seus próprios interesses. A economia humana como um todo tornou-se tão grande que mostrou-se capaz de alterar a composição da atmosfera do planeta e precipitar um evento de extinção em massa.

Chegamos ao ponto em que «em vez do crescimento servir a vida, a vida serve o crescimento»

Um homem que não teria sido pego de surpreso por esta crise, tivesse vivido para testemunhá-la, é Leopold Kohr, o mais importante pensador político do qual você nunca ouviu falar. “Onde houver alguma coisa errada”, ele costumava dizer, “alguma coisa está grande demais”.

[ . . .] Publicado em 1957, The Breakdown o Nations propunha uma tese que era naquela ocasião muito subversiva: a de que estados pequenos, nações pequenas e pequenas economias são mais pacíficos, mais prósperos e mais criativos do que superpotências e grandes nações.

Kohr acreditava que os problemas da sociedade não eram causados por formas particulares de organização econômica ou social, mas pelo tamanho. O socialismo, o anarquismo, o capitalismo, a democracia, a monarquia – todos podiam funcionar dentro do que ele chamava de “escala humana”: uma escala em que os indivíduos pudessem desempenhar uma parte nos sistemas que governavam as suas vidas.

Uma vez aumentados em escala ao nível dos Estados modernos, todos os sistemas tornam-se opressores. Mudar o sistema não previne a opressão – como demonstram qualquer número de revoluções – porque o problema não é a coisa que acontece de ser grande, mas o tamanho excessivo em si mesmo.

A solução dos problemas do mundo não é mais unidade, mas mais divisão. Pequenos estados e pequenas economias são mais flexíveis, mais capazes de sobreviver a tempestades econômicas, menos capazes de deflagrar guerras sérias e mais prontos a prestar contas ao seu povo.

O tamanho excessivo, predizia Kohr, é capaz de conduzir somente a mais tamanho excessivo, pois “quando uma coisa ultrapassa certos limites passa a sofrer o problema irreprimível de proporções não gerenciáveis”. Além desses limites o estado (ou o que quer que seja) é obrigado a acumular mais poder a fim de gerenciar o poder que já tem. O crescimento torna-se canceroso e impossível de ser detido, até que se atinja o único resultado possível: o colapso.

Chegamos ao ponto a respeito do qual Kohr nos advertiu meio século atrás: o ponto em que “em vez do crescimento servir a vida, a vida serve o crescimento, pervertendo desse modo o próprio propósito da existência”. A “crise de grandeza” de Kohr está no meio de nós e, previsivelmente, estamos planejando resolvê-la com mais do mesmo: uniões fiscais mais fechadas, controle global mais estrito, medidas de geoengenharia, mais crescimento econômico.

Paul Kingsnorth
em This economic collapse is a ‘crisis of bigness’

Paulo Brabo @saobrabo

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