Tudo na mesma noite • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 16 de novembro de 2006

Tudo na mesma noite

Estocado em Sonhos

Estava com alguns amigos (não me lembro quais) numa cidade não muito grande, talvez em Santa Catarina. Entramos animadamente, eu por último, num prédio baixo junto da praça central; não recordo se o edifício abrigava uma rodoviária, um mercado municipal, uma prefeitura, um clube. Uma placa ou cartaz anunciava que alguém havia improvisado um museu de alguma coisa (não recordo o quê) na Sala 00 (a placa mencionava também as Salas 01 e 02). Eu quis ver o museu: deixei que meus amigos seguissem adiante e entrei no corredor à esquerda: a Sala 00 era a primeira (à esquerda). A porta estava aberta; alguém havia feito um caminho muito estreito que levava ao interior do museu, definido à direita por cadeiras e à esquerda por cones de trânsito. Para entrar era preciso acompanhar de lado esse caminho numa curva acentuada para a direita; o restante da sala, onde deveria estar o museu propriamente dito, estava oculto por duas ou três divisórias. O caminho era muito estreito, e quando tentei avançar acabei empurrando algumas das cadeiras, que derrubaram por sua vez as divisórias. Isso revelou que na sala, que era muito pequena, não parecia haver museu algum. Uma burocrata de meia-idade, sentada atrás de uma mesa no fim do caminho de cadeiras e cones, deu-me uma bronca porque eu havia atrapalhado a sessão inaugural de fotografias. Duas ou três moças, vestidas como cheerleaders norte-americanas, pareciam compartilhar da frustração dela. Ajudei alguém a reerguer os tapumes e saí dali.

* * *

No corredor encontrei meu boné, que havia aparentemente deixado cair antes de entrar no museu. Aninhado no interior do boné alguém havia deixado um recém-nascido com uma cabeça enorme, comprida no sentido horizontal. Tirei o nenê do boné e tomei-o no colo, na tentativa de fazê-lo parar de chorar. Eu estava agora (sem qualquer transição), na velha casa de madeira de minha vó Vergínia; eu tentava contar a minha mãe como havia encontrado o bebê, mas ela estava no telefone e fez sinal que eu esperasse. Caminhei embalando o bebê pela casa; sua cabeça parecia estar voltando ao normal. Perguntei se ele estava com fome e ele respondeu que sim. Achei monstruoso um bebê tão jovem ter respondido; olhei para ele e, em tom de acusação, choque ou revelação, disse: “Você agora está parecendo mais um pássaro do que um nenê, não é?” Ele olhou-me com perversidade e ressentimento, abriu as asas brancas e saiu voando pela janela.

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Aparentemente não relacionado ao anterior:

Chego à casa térrea onde moro [no sonho], depois de dormir duas noites fora. É noite, e vindo da sala pelo corredor vejo que as luzes dos quartos estão acesas. Isso é inconcebível, por isso corrijo o sonho para que estejam apagadas.

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Aparentemente não relacionado aos anteriores:

Falta pouco para o sol se pôr e estou dirigindo na estrada de terra que liga o Monastério à rodovia. Percebo, no alto de um morro, que as cores da tarde estão maravilhosamente saturadas. Algum efeito atmosférico está tingindo a paisagem de matizes indescritivelmente pungentes. O sol está brincando de Photoshop. Uma luminosa bruma azul-violeta desce do céu e tinge as árvores e colinas de azul turquesa, uma neblina verde-limão sobe da terra e tinge de um verde impossível casas e campinas. Arrependo-me na hora de não ter trazido minha câmera para registrar aquele momento. Termino de descer a curva e lembro que trouxe, sim, a câmera: está ali no banco do passageiro. Para o carro e dou a ré a fim de voltar ao alto do morro e capturar a paisagem como eu a tinha visto. Quando chego ao topo, no momento seguinte, já está escuro.

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Aparentemente não relacionado aos anteriores:

Estou mostrando a minha irmã Alice um trecho do filme que [no sonho] inspirou Steven Spielberg, dez anos depois daquilo, a filmar E.T., O Extra-Terrestre. Plano americano da lateral de uma kombi estacionada numa campina com a porta lateral aberta: um menino de dez anos aproxima-se e senta-se no chão da kombi. Ele inclina-se para a frente e começa a mexer com um objeto que está fora do nosso campo de visão, mas que aparece por alguns momentos quando o menino o revira com uma vareta. É um modelo de plástico de um boneco marrom com uma cabeça enorme, coroada (ao contrário de E.T.) por quatro chifres. Comento com minha irmã que a cabeça e os chifres são tão proeminentes na figura que, virado de cabeça para baixo, o boneco poderia ser usado como cadeira.

(na noite de 14 para 15 de novembro de 2006)

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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