Trezentos anos se passaram • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 24 de novembro de 2007

Trezentos anos se passaram

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II

Cem anos, duzentos anos, trezentos anos se passaram.

Belzebu não contava o tempo. Ao seu redor o que havia era negra escuridão e silêncio completo. Ele jazia imóvel e tentava não pensar no que havia acontecido, mas pensava assim mesmo, e odiava impotentemente aquele que havia ocasionado a sua queda.

Mas de repente – ele não recordava ou não sabia quantas centenas de anos haviam transcorrido – ouviu acima de si sons que lembravam passos, gemidos, gritos e ranger de dentes.

Belzebu ergueu a cabeça e começou a ouvir.

Que o inferno pudesse ser restabelecido depois da vitória de Cristo era incrível demais para ele acreditar, mas os passos, os gemidos, os gritos e o ranger de dentes soavam cada vez mais nítidos.

Ele ergueu o corpo e pôs-se de pé com suas pernas hirsutas e seus cascos crescidos pela falta de uso (para sua perplexidade os grilhões caíram por si mesmos) e, batendo livremente as asas estendidas, deu o assobio pelo qual costumava convocar seus servos e assistentes para junto de si.

Antes que ele pudesse dar o fôlego seguinte uma abertura surgiu acima da sua cabeça, chamas rubras feriram-lhe a vista e uma multidão de diabos, empurrando uns aos outros, desceram pela abertura para aquela região inferior e acomodaram-se ao redor de Belzebu como urubus ao redor de carniça.

Havia diabos grandes e diabos pequenos, diabos gordos e diabos magros, diabos com rabos compridos e diabos com rabos curtos, diabos com chifres pontudos, diabos com chifres retos e diabos com chifres curvos.

Um diabo de um negro reluzente, nu exceto pela capa atirada sobre os ombros, com um rosto redondo sem pelos e uma enorme pança saliente, agachou-se diante do rosto do próprio Belzebu e, rolando os olhos para cima e para baixo, sorria sem cessar, balançando a comprida cauda de modo ritmado, de um lado para o outro.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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