Talvez • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 14 de dezembro de 2014

Talvez

Estocado em Manuscritos · Traduzindo Borges

Eu tinha menos de dezoito anos quando Jorge Luis Borges beijou-me pela primeira vez numa papelaria em Bauru 1Meu escritor preferido e diretor da Biblioteca Nacional em Buenos Aires teria merecido coisa melhor; se não uma livraria ou uma biblioteca pelo menos um sebo, uma banca de revistas, para esse primeiro encontro. Mas a beleza é assim; golpeia com um banquete quando estamos convictos de estar no deserto. Borges o disse melhor do que eu: neste mundo a beleza é comum.. A maior parte das páginas que meus leitores atribuem a mim consiste no registro das ondas de choque que produziram no meu relevo interior aquele encontro.

E dos bens que Borges deixou-me no seu testamento, talvez o mais valioso tenha sido a fé necessária para dizer e pensar talvez.

Eu era um jovem que queria ter muitas certezas. Para o rapaz que fui a beleza (e portanto também a verdade) residia no imutável e no certo: na profissão de fé, nas tábuas de pedra da lei, na crença perfeitamente formulada. Meu autor favorito era o apóstolo Paulo, porque não conseguia conceber pessoa com convicções mais firmes 2Sobre as (quem sabe aparentes) certezas do Apóstolo e suas implicações para a história do movimento cristão, leia a primeira seção de As divinas gerações..

Mas a beleza é comum, comum o bastante para atingir este boçal: fui encontrado por Borges, e Borges relaxou-me as certezas com a massagem insistente de uma única palavra e sua singeleza, esse seu talvez.

Não bastaria compilar os talvezes de Borges, porque para ele são menos uma ferramenta do que uma visão de mundo. Não será inútil, quem sabe, enumerar alguns:

A fama é uma espécie de incompreensão, talvez a pior.

Há uma coisa que nos dá vida de vez em quando, e que talvez a justifique, e essa coisa é a felicidade.

Já havia começado a vislumbrá-los, talvez; já era aquela que seria.

Há uma hora da tarde em que a planura está para dizer algo; nunca o diz ou talvez o diga infinitamente e não o entendemos, ou o entendemos e é intraduzível.

Nós dois, neste banco de Genebra ou Cambridge, somos talvez a prova.

O universo (que outros chamam Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais.

Dante lhe teria destinado, talvez, um sepulcro de fogo.

Publica um livro dedicado à glória do herói, e também isso, talvez, estava previsto.

Certa vez teu finado padre nos disse que não se pode medir o tempo em dias como o dinheiro em centavos ou pesos, porque os pesos são iguais, e cada dia é distinto e talvez cada hora.

O tempo é o melhor antologista, ou o único, talvez.

Nenhum desses talvezes é natural, nenhum é inevitável, e são mais do que mero recurso de estilo. São em cada caso uma anotação de Borges dentro de Borges, uma pausa para a articulação de uma de suas caras profissões de fé – a fé na supremacia e no caráter redentor da bela conjectura.

Borges admirava culturas e tradições demais para contentar-se com uma só, e admirava demais a variedade de culturas e de tradições para contentar-se com as que existem no mundo que se convenciona chamar de real.

Para Borges toda bela ideia vinha acompanhada de um sopro de credibilidade; ele não podia de deixar de observar, vez após vez, que toda ideia bela poderia quem sabe ser factual em algum lugar ou em algum universo.

Daí seu tremendo respeito pela conjectura não-exclusiva: no domínio da conjectura nenhuma das infinitas belezas possíveis é incompatível entre si. Os de Borges são talvezes de criatividade, de humildade e de superabundância.

Talvez isso queira dizer que não há acontecimento, por humilde que seja, que não implique a história universal e sua infinita concatenação de efeitos e causas. Talvez queira dizer que o mundo invisível se dá inteiro em cada representação, do mesmo modo que a vontade, segundo Schopenhauer, se dá inteira em cada indivíduo.

Talvez todos saibamos profundamente que somos imortais, e que cedo ou tarde todo homem fará todas as coisas e saberá tudo.

Talvez seja um erro supor que as metáforas possam ser inventadas. As verdadeiras, as que formulam íntimas conexões entre duas imagens, sempre existiram.

Os passos dados por um homem, desde o dia de seu nascimento até o de sua morte, desenham no tempo uma inconcebível figura. A Inteligência Divina intui essa figura imediatamente, como a dos homens um triângulo. Essa figura (talvez) tem uma função determinada na economia do universo.

 

Sempre que termino uma página com um talvez exerço uma disciplina que no homem mais gentil que não cheguei a conhecer, e de quem a herdei, era um dom natural.

Por nenhuma outra palavra, talvez, eu gostaria de ser lembrado. Talvez é uma palavra de tal modo potente e redentora que com ela até a ortodoxia e a teologia ganham poesia, e portanto credibilidade.

Talvez, meu amigo, Jesus tenha nascido de uma virgem, e talvez não faça diferença. Talvez Jesus tenha nascido em 25 de dezembro, para perplexidade e confusão de todos que demonstraram a improbabilidade da data. Quem sabe Jesus sabia do que estava falando quando anunciou a disposição divina a apagar todos os pecados de todos os homens; talvez o homem Jesus tenha inventado esse Deus generoso para corrigir o caráter tribal do Deus da religião judaica; talvez Deus tenha criado o homem Jesus para revelar o verdadeiro Deus aos homens pensando que o estava inventando. Talvez Jesus tenha sido literalmente o Filho de Deus, e em Belém uma moça e um homem embalaram ao menos um pouco (ou em certo sentido) o seu próprio Criador.

Como disse Borges, desta e de outras maneiras, “tudo é tão estranho que até mesmo isso é possível”.

Quando olho para o Jesus dos evangelhos, fica particularmente injusto que o cristianismo que sequestrou o seu nome tenha ficado conhecido pelas suas certezas, pelo seu amor ao dogma. O dogma não é generoso, não é humilde, o dogma não tudo suporta. O dogma não tudo crê, não tudo espera; o dogma é estéril.

Jesus, em contraste, falava em parábolas, conferia vida e vivia através de histórias, e histórias não são estéreis. Histórias são convite a interpretação e reinterpretação, são convite constante à gentileza e à tolerância e a uma mente aberta. Narrativas são puro e destilado talvez.

Se os evangelhos têm razão e se têm razão as suas histórias, Deus talvez seja amor. Talvez sejamos capazes de amar, porque o amor é também sempre precário e sempre pendente, a cada dia perene talvez. Talvez Deus exista quando amamos, talvez exista somente quando amamos.

Talvez este será um feliz Natal. Talvez o ano que vem será o melhor ano da sua vida e da minha. Nele conheceremos talvez improváveis reconciliações e impensáveis sucessos. Talvez você conheça e abrace o amor mais esplêndido que lhe concederá esta existência. Talvez você consiga tudo, talvez aprenda a desapegar-se de tudo, talvez encontremos eu e você a serenidade, talvez o mundo se aproxime um palmo ou dois da justiça e da paz.

Mas quem sabe também as coisas não estarão nunca melhor do que estão agora. Talvez o mundo não será jamais um lugar mais justo do que é; talvez nunca seremos mais felizes, satisfeitos e realizados do que hoje somos. Teremos que nos contentar talvez com os precários arranjos presentes, com incontáveis soluções insuficientes, utópicas e interinas. Teremos talvez que aprender a nos contentarmos com menos do que a plenitude. Quem sabe toda a beleza que chegaremos a experimentar – absolutamente toda a beleza – estará na iminência da revelação: nunca na revelação em si, nunca na coisa completa. A beleza, com o amor, possivelmente residirá sempre no talvez, e dele vai sempre depender.

Borges:

A música, os estados da feli­ci­dade, a mitologia, os rostos tra­ba­lha­dos pelo tempo, certos cre­pús­cu­los e certos lugares querem nos dizer algo, ou algo disseram que não deve­ría­mos ter perdido… essa iminência de uma revelação que não se produz será, talvez, o fenômeno estético.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. Meu escritor preferido e diretor da Biblioteca Nacional em Buenos Aires teria merecido coisa melhor; se não uma livraria ou uma biblioteca pelo menos um sebo, uma banca de revistas, para esse primeiro encontro. Mas a beleza é assim; golpeia com um banquete quando estamos convictos de estar no deserto. Borges o disse melhor do que eu: neste mundo a beleza é comum.
2. Sobre as (quem sabe aparentes) certezas do Apóstolo e suas implicações para a história do movimento cristão, leia a primeira seção de As divinas gerações.
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