Superfície • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 29 de outubro de 2008

Superfície

— Quantas vezes vou ter de repetir — disse a voz, mas o Homem Imenso já resvalava para o interior do sono ao sabor dos laivos turquesa da consciência e sabia que não lembraria as instruções.

No mundo dos sonhos lutou contra a correnteza o quanto pôde, mas não avançou mais do que um dia ou dois no contratempo. Viu uma tarde incandescente e vermelha e uma menina azul, de vestido, que servia chá de faz-de-conta em xícaras de brinquedo a um homem imenso e nu, mas ignorou que o homem era ele mesmo.

Quando tentou voltar à superfície impediu-o a vigilância tremente da cauda de um dragão. Agarrou-se o quanto pode, mas no fim da noite, que era também o fim das suas forças, despencou para a superfície de uma esfera transparente que era um lago congelado, sobre o qual deslizou sem inércia, e um planeta de cuja órbita não saberia escapar.

Um minuto antes de acordar entendeu, por um instante, que a cauda do dragão era um seu cílio, e o lago congelado uma sua lágrima.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas não se responsabiliza por aparecer em alguns blogrolls ao lado do Júlio Severo