Solidariedade • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 20 de setembro de 2015

Solidariedade

Estocado em Manuscritos

Esta é a parte 6 de 7 da série Despachos da Muralha

 

– Ela tem razão – disse Caio Gonçaço, enrubescendo um pouco, e deslizou a mão sobre o mapa estendido no quadro-negro. – A Muralha amazônica você pode pensar como uma enorme, enorme biblioteca. Toda planta e todo animal, todo índio e todo ribeirinho é um volume dessa biblioteca, com o detalhe que cada livro está repleto de referências a todos os outros e só pode ser adequadamente lido e apreciado dentro desse sistema de alusões, descontinuidades e remetências. Se pegar isoladamente uma bromélia ou um índio você vai ter ainda uma obra prima, um livro formidável, mas vai perder as referências cruzadas a todos os outros.

A mulher continuava de pé, para ilustrar que não achava que o professor tinha lidado adequadamente com a sua objeção. Aretuza Marcas tinha sessenta anos, era negra, mãe de santo, carioca da Madureira, e não dava indicação de sentir-se fora de lugar numa sala de calouros da Universidade Federal do Pará.

– Quero lembrar Maria Ressurreta do Cariri – ela disse, – que devemos proteger a Muralha de qualquer explicação.

Caio Gonçaço ergueu as sobrancelhas e ajeitou o chapéu sobre a cabeça. Aquela tinha de ser a primeira vez que via aquela mulher na sua sala de aula; era por certo a primeira vez que alguém mencionava Ressurreta do Cariri.

– Maria Ressurreta do Cariri, para quem não conhece – disse Gonçaço, que não tinha escolha mas fingir isenção acadêmica, – é uma anarquista do Serestão. Segundo ela, todas as tentativas de explicar a Muralha podem ser usadas contra a Muralha. Para Ressurreta, o único modo legítimo de aproximar-se da mata amazônica é sem palavras e sem explicações. A Muralha, ela mesma, incomoda porque é legítima sem uma explicação de fora.

– Então me desculpe o professor – insistiu a mulher, – mas a Muralha não quer a sua comparação, e ainda com uma biblioteca. Tudo que está destruindo a Muralha foi trazido para cá com as palavras que foram trazidas para cá.

– Me desculpe…

– Aretuza.

– …Aretuza, mas eu mesmo sou filho de ribeirinho, e vivo na margem entre a palavra e o silêncio tanto quanto qualquer um. Gosto da imagem que usei porque ela inverte aquela da biblioteca combinatória de Borges, em que a maior parte dos livros não tem qualquer sentido e a perda de milhares de volumes não implica em perda alguma. Ressurreta do Cariri diz que

– O que acontece na Muralha tira da Muralha.

Quem quer que fosse aquela mulher, pensou Gonçaço, operava sob a ilusão de que estar no ambiente acadêmico lhe dava a liberdade de dizer o que queria. Faltavam ainda dez minutos, mas lhe cabia arrematar aquilo imediatamente e preservar do perigo todos naquela sala: os que sabiam o que estavam acontecendo e os que não.

– O que acontece na Muralha tira da Muralha – ele repetiu, dizendo o que nunca tinha dito naquele recinto, – até mesmo as palavras que se trazem para cá. Quando falo na Amazônia como biblioteca estou dizendo a mesma coisa. Queimar qualquer número desses volumes é roubar sentido de um sistema de sentido riquíssimo. Não é só o horror eurocêntrico de ver queimada uma biblioteca. Como cada volume na biblioteca amazônica faz referência a todos os outros, tem também a noção de que os sentidos da Muralha diminuem e se perdem com a Muralha. Se perdermos a Muralha perdemos a própria ideia da Muralha.

Entendeu imediatamente que tinha falado demais, e achou que até sua nova aluna tinha percebido isso. Mas usou o artifício de dispensar a classe imediatamente, de modo a que sua imprudência apagassem as telas dos smartfones que todos saíram acendendo.

Aretuza ficou por último, balançando a cabeça e recolocando devagar as coisas na bolsa de pano. Gonçaço ficou olhando para a tela apagada do próprio smartfone para desencorajar qualquer pergunta enquanto os últimos alunos deixavam sala.

– Vem cá – ele disse quando ficaram sozinhos – não faça mais isso. Não sei como conseguiu se afastar do grupo, mas foi dupla imprudência sua vir até aqui.

– Foi dupla estupidez vir até aqui – Aretuza disse depois de uma pausa.

– Vem que eu te levo de volta – ele disse, deixando claro que estava mais disposto mais a conter um vazamento do que a fazer um favor.

A mulher não entendeu, mas ficou indignada com o tom de condescendência dele. Foi desviando das carteiras vazias em direção à porta.

– Ei, onde você vai – ele deu um passo para apontar que não queria recorrer a qualquer extremo mas não podia deixar que ela saísse da sala. Aretuza não entendeu, mas indignou porque nada no mundo podia justificar aquele senso de autoridade.

– Vou sair dessa sala feliz da vida e deixar mais uma ilusão para trás – ela disse. – Não há momento mais fino da vida, o senhor não acha? Não lhe deixo ofensa nenhuma, as suas escolhas já fazem isso por mim.

– De onde você me conhece, Aretuza?

– De lugar nenhum, essa é a questão. Da confluência do Vazil – ela tirou da bolsa um maço de panfletos presos com elástico e jogou em cima da mesa dele. Porque o vazileiro não reage à destruição, dizia o título. – Sua tese sobre a apatia informante é excepcional, se você quer saber, ainda que os seus textos não falem sobre você.

Só então ele entendeu o engano.

– Quando você chegou em Belém, Aretuza? – sem se abaixar, ele estava com muita urgência descalçando um sapato.

– Antes de ontem – ela disse.

– Nas últimas semanas você teve febre, insônia, sonhos estranhos? – ele descalçou o outro sapato e deixou os dois alinhados em cima da mesa. – Teve tipo visões inexplicáveis? Viu coisas no céu?

– Mais ou menos.

– Você pagou a sua passagem com o próprio dinheiro?

– Mas claro.

Ele espalmou as duas mãos para indicar que era a pergunta mais importante:

– Você sabe dizer, Aretuza, por que veio ao Pará? O exato motivo?

Ela hesitou só um instante.

– Porque sou ialorixá e minha Inhansã me disse pra vir.

– Excelente – ele pensou um pouco, olhando para cima como se estivesse fazendo um cálculo mental. Depois ergueu a perna e foi tirando uma meia atrás da outra. – Acredite em mim, vou te levar pra o lugar onde você quer ir.

– Tá bem – disse a mulher, como se aqueles dias já tivessem requerido dela fé maior. – Estou num hotelzinho na Cidade Velha, só vamos ter que pegar a minha mala.

Ele enterrou as meias dentro dos sapatos sobre a escrivaninha, devolveu o maço de panfletos para a bolsa da mulher e fez sinal que podiam ir.

– Primeiro me diz você – ela amarrou o homem no lugar com a mão sobre o peito dele – por que não está ensinando esses garotos nada do que você sabe.

– Então você não sabe – ele disse, – do plano da Residência para acabar com a educação superior na União. Vamos ter de falar sobre isso mais tarde.

– E você acha que pode salvar a educação deixando de ensinar?

– Ensinar no sentido que você está dizendo está agora enquadrado na lei antiterrorismo. Mas não perca o sono por causa disso, as verbas que sustentavam a farsa estão sendo cortadas de qualquer forma. Índios e professores são os últimos alvos da Residência.

Saíram para o corredor, atravessaram a Cidade Universitária e pegaram um ônibus na perimetral. Só voltaram a falar caminhando pela Cidade Velha.

– Quando veio a primeira ideia de vir até a Muralha? – falou Gonçaço.

– Creio que foram as duas coisas juntas, as desapropriações que estão acontecendo no Rio por causa da Olimpíada e os seus textos sobre a Muralha e a resignação do vazileiro. Me impressionou a sua ideia de que Vazília se apropriou do vórtice entre os três cantos do Vazil para impedir que um tenha contato com outro: o Rio, a Muralha e o Serestão. Achei aquilo muito forte.

– A ideia não é minha – ele disse. – A cidade foi projetada com essa finalidade. Vazília é a manifestação concreta do projeto de resignação nacional.

– Pois a ideia de visitar a Muralha veio primeiro como a ideia de passar por cima de Vazília. Isso aparece em algum texto seu, e foi antes que nos búzios os orixás começasse a virar as respostas.

– Como assim?

– Nas consultas a Muralha começou a aparecer como resposta aos problemas dos irmãos cariocas, e fui entendendo que está tudo interligado.

– Não sou do candomblé, mas o maracá cada um ouve com o ouvido que é seu.

– Vendo a autarquia do Rio de Janeiro forçando a mão pra apagar culturas locais, revirar a terra sagrada e tratar gente como gentinha de jogo de montar, entendi que nada mudou desde a colônia, Caio. Os caboclos contam histórias, e está tudo lá como cá: poder racializado, violência colonial, subordinação cultural. E tem o que você disse: se o vazileiro deixa o supressor botar abaixo a diversidade e a delicadeza na frente da sua casa, na sua própria rua meu Deus, quanto mais vai deixar derrubarem a Muralha a três mil quilômetros de onde ele mora? Contra o supressor só a deflagração.

– Se com deflagração você quer dizer que estamos na margem de uma travessia sem volta isso é coisa muito clara para mim. O que duvido, e duvido forte, é que o vazileiro pode ser despertado da apatia a tempo de fazer alguma diferença. Estamos sendo violentados todos os dias há séculos demais. A resignação deixa de ser uma coisa que a gente faz e passa a ser a coisa que a gente é.

– Preguiça também é resistência – ela sorriu pelo prazer de poder citar Gonçaço contra ele mesmo. – Talvez a gente possa convencer o vazileiro a desejar menos em vez de desejar mais.

– Que aqui sambaram nossos ancestrais – ele fez os braços orbitarem o corpo e ensaiou um passo de dança.

Nessa hora arranhou o céu uma esquadra de aviões do Império em direção ao interior, e ele parou.

– Para onde estão indo? – falou Aretuza.

– Bombardear com pasto e soja – ele disse. – Napalmizar alguma ilha em torno de Belomôntide. Alargar alguma esplanada.

– Se este povo aprender a preservar o que não tem defesa e que nunca terá – Aretuza ergueu uma mão em arco para o céu – quem sabe a preservação do que tem defesa comece junto.

Ela tinha parado de caminhar e ele viu que estavam na frente do hotel.

– Talvez seja tarde demais – Gonçaço disse. – Nosso apego a uma esperança que não existe talvez seja uma outra espécie de resignação.

– Se for não é a pior. Vem cá – ela respirou fundo, – você vai me fazer juntar a um grupo, é verdade?

– Certo. Qual é o problema?

– É que quando um branco quer me adicionar a um grupo fico com um pé atrás, imaginando se o meu papel não vai ser o de preencher alguma cota. A afrodescendente que tem visões e comparece só para prover à história algum exotismo.

– Nesse grupo todo mundo tem visões – disse Gonçaço, – as mais disparatadas. E tem só um punhado de brancos. Sem contar, e isso tem de contar, que não fui eu que convidei ninguém.

– Está certo então – ela apontou para os pés dele. – Vem cá, qual é ideia de andar descalço?

– Tem vários motivos. Mas se trata aqui de um recurso de invisibilidade. O supressor tem olhos em toda a parte, convém existir em modalidades que as pessoas não te olhem.

Ela sorriu.

– Eu sou mulher, sou preta e sou de santo. Conheço todas as manhas de ser invisível.

Mas foi tirando os sapatos em solidariedade antes de trocar a calçada estreita pelo saguãozinho do hotel.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

Despachos da Muralha

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