Sobre ser amado • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 06 de dezembro de 2013

Sobre ser amado

Estocado em Manuscritos

Amanhã de manhã, como tornei difícil para qualquer um ignorar, é o lançamento em São Paulo da versão impressa de As divinas gerações (e a luta por uma eternidade mais justa) – o livro que você pode até ter lido mas do qual não sentiu ainda o cheiro.

Se fosse para articular o que me deixa agitado com a perspectiva de um evento dessa natureza eu só conseguiria fazê-lo parcialmente, e dizendo desta forma: para um cara como eu/com o meu jeitão/com as minhas limitações/com os meus escrúpulos burgueses não é fácil estar entre gente que me ama tanto conhecendo-me tão pouco.

A condição humana é um saco de contradições, e a esta altura nada deveria nos surpreender. Todo mundo quer ser amado, mas estamos sempre prontos a desconfiar do amor. Pode ser difícil, como neste caso, aceitar como coisa grande e suficiente o abraço de quem já encontrou motivo para me amar (falo de você, caro e impenitente leitor) mas não teve oportunidade de conhecer, no regime duro da convivência, motivos que me tornariam menos fácil de amar (falo de você, caro e afortunado leitor).

Saber que somos uma farsa tem a vantagem evidente de não ignorarmos que somos uma farsa. A desvantagem é que somos uma farsa.

Neste caso, e também em outros, me surpreende entender que ser amado pode ser mais difícil do que amar.

Não só isso: sempre que sinto-me tentado a pensar em algumas formas de amor como mais superficiais do que outras, sou levado a concluir que superficial é pensar dessa forma.

“Pode alguém que não nos conhece por completo nos amar?” pode parecer uma pergunta profunda, mas ignora ela mesmo a natureza ambígua e não-cartesiana de todas as coisas. Faria mais sentido ponderar se alguém pode de fato nos conhecer por completo, ou se nos conhecem melhor aqueles que convivem mais de perto conosco. A realidade raramente cede à lógica. Encontro indicações de que me enxergam e entendem com menos ruído aqueles que me observam de longe, com maior casualidade ou que acabaram de me conhecer.

O senso comum exige que o amor é cego e nos faz estúpidos, mas o senso comum é um velho antiquado que ama usar de sarcasmo sem ser compreendido. Tenho forte tendência a crer no contrário; como ensinou-me meu amigo Ivan, para quem amar não é ser afligido com a cegueira, mas ser premiado com “uma lucidez exacerbada”, um conhecimento privilegiado e sem qualquer distorção da verdadeira natureza da pessoa que amamos.

Amar implica em lucidez: talvez seja por isso que amamos menos do que deveríamos. Porém não há quem não se orgulhe da sua lucidez, quem não lute para defendê-la e vê-la reconhecida. Deixar-se amar, por outro lado, demanda singeleza de coração, autoconhecimento e autoestima – virtudes quietas que raramente andam juntas, e que mesmo separadas são mais raras do que a lucidez.

Talvez esse seja o apelo grande e terrível do Deus cristão, o apelo que o torna irresistível para alguns e dificílimo de engolir para outros: seu apresentar-se como pessoa que nos conhece por completo e que nos ama por completo – quando sabemos que no mundo real as duas coisas simplesmente não teriam como coexistir.

Uma vez lançada no ar, a ideia não tem como não desafiar a fé dos mais crentes e a desilusão dos mais desiludidos. Seria possível? Alguns de nós recorrem a psicanalistas só para experimentar nesta vida como seria o sabor de sermos simultaneamente conhecidos e aceitos, outros deixam que Deus cubra nominalmente essa lacuna. Porém nem a fé no amor de Deus nem a lanterna fustigante da psicanálise são garantia de que nos permitiremos finalmente a sentirmo-nos amados. A maior gentileza de fora não conseguirá forçar-nos a sermos gentis conosco mesmos. Esse passo tremendo, ao mesmo tempo minúsculo e caríssimo, terá de ser dado de dentro para fora.

Mesmo os que rejeitaram por completo a ideia de Deus debatem-se com os dilemas e mistérios do amor, e fazem-no muitas vezes com mais fervor e menos superficialidade do que os que não abriram mão do divino conforto. Não há ateu que não saiba que é importante não ter ilusões, e não há ser humano que não lute para decidir onde reside o amor no espectro entre realidade e ilusão.

É tremendamente custoso existir sem saber se quando amamos somos nobres ou egoístas, generosos ou estúpidos, profundos ou socialmente condicionados, genuínos ou iludidos, finalmente livres ou inteiramente movidos por comandos do nosso DNA. Nossos discursos destilam certezas voláteis, mas ninguém tem como saber ao certo. Quando amamos é por nossa própria conta e risco, e aí residem o charme e a insensatez da coisa toda.

E se amar é assim custoso, ser amado requer maior despejo e envolve riscos maiores. Quando amamos nos submetemos ao risco perene de perder o que temos de mais precioso; deixando-nos amar nos submetemos ao risco de perder a nós mesmos.

Quem não iria desejar o amor? Quem seria louco de tentar? A condição humana reside na intersecção entre essas hesitações, e em cada uma de suas precárias execuções.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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