Sobre barragens • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 07 de janeiro de 2016

Sobre barragens

Estocado em Manuscritos

Esta é a parte 1 de 3 da série Sobre barragens

O fundamentalismo de mercado requer a fé de que as coisas podem ser mantidas isoladas umas das outras por muros de contenção.
A má notícia é que as barragens funcionam. A notícia pior é que não funcionam indefinidamente.

Em algum momento entre hoje e o instante em que desliguei uma televisão pela última vez, em 2004, o capitalismo tornou-se tudo que existe.

A expressão “espacialização do capital” quer dizer várias coisas, inclusive que não resta espaço – real ou virtual, distinção que o capitalismo trata de ignorar – que não tenha sido ocupado pelo capitalismo ou distorcido pela sua força gravitacional. Faz sentido continuar chamando de Império ao Império que anulou toda a competição? Tendo ocupado todos os espaços, o capitalismo tornou-se indistinguível daquilo com que poderia ser contrastado.

Mas “espacialização do capital” quer dizer também que a fim de operar o capitalismo depende de manter a ilusão de que espaços – espaços reais e espaços virtuais – podem ser gerenciados eficazmente por muros de contenção. Spoiler: não podem.

A má notícia é que as barragens funcionam, e é na multiplicação delas que o capitalismo se expande.

A notícia pior é que não funcionam indefinidamente. As crises locais e mundiais de 2015 revelaram cada uma a seu modo o absurdo da crença capitalista na eficácia das barragens. Parece uma crise, mas é o fim dessa ilusão.

Porque para continuar rodando o capitalismo depende de que você acredite que a lama tóxica de montanhas de mineração pode eficazmente, através de barragens, ser mantida sem acesso ao Rio Doce. Que sírios, africanos e terroristas podem eficazmente, através de outro tipo de barragem, ser mantidos sem acesso aos terraços da Europa. Que jovens poluentes da Zona Norte podem ser eficazmente mantidos sem acesso à camarotizada Zona Sul do Rio de Janeiro. Que a queima de combustíveis fósseis e o achatamento da Amazônia em pasto e soja podem ser eficazmente mantidos sem acesso à temperatura do planeta. Que a crise econômica da China pode ser eficazmente mantida sem acesso ao seu poder de compra. E que o seu poder de compra pode ser eficazmente mantido sem acesso às condições miseráveis de trabalho na China.

Se em 2015 ficaram muito claras as brechas em cada uma dessas barragens (e numa infinidade de outras), o derradeiro surreal foi que o acúmulo desses vazamentos não suscitou questionamento mensurável dos modos de fazer do capitalismo. De um lado, a luz esplendeu quando Thomas Pickett demonstrou além de qualquer dúvida que o capitalismo de livre-mercado não entrega, nunca entregou e não vai chegar a entregar a sua promessa – a promessa em que na verdade está fundamentado, – de que deixado funcionar sem rédeas o mercado trabalha para promover a justiça e a igualdade. De outro, a coisa que Pickett se ofereceu a fazer pelo capitalismo foi essencialmente salvá-lo – sendo que seus hesitantes métodos de resgate foram ignorados como impraticáveis (como se o capitalismo do modo que deixamos que seja praticado fosse em alguma medida praticável).

Barragens sempre foram uma ideia precária, mas a globalização do mercado gerou barragens maiores, sobrepostas, conflitantes e coincidentes. As falhas intrínsecas da ideia toda tornaram-se impossíveis de contornar indefinidamente. Porque gente inteligente como Pickett continua a ignorá-las? Diante do risco de ser descartado como comunista, Pickett não ousou desafiar um dogma maior do fundamentalismo de mercado:

Todo o resto (e esse resto é enorme e inclui pessoas, culturas e territórios) pode ser contido por barragens e convém que seja, mas o capital tem de ser mantido livre para fluir para onde quiser.

Há aspas enormes delimitando esse para onde quiser, mas permanecem contidas elas mesmas por uma barragem ideológica.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

Sobre barragens

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