Modos de se ver

Daniel Oudshoorn

Quero começar reconhecendo que falo na qualidade de ocupante da terra que o Criador deu ao cuidado dos Anishinaabe e compartilhou com as tribos Haudenosaunee e Lenape. Ergo as mãos aos cuidadores desta terra e agradeço a eles por permitirem que gente como eu viva, trabalhe, brinque e e viva nos territórios que pertencem a eles ao lado do Askunessippi e ao longo de toda a ilha Turtle.

Na qualidade de colono, beneficio-me do projeto em andamento de colonialismo como se desenrola nos territórios ocupados que recebem o nome de “Canadá” nos mapas que estudamos na escola (mapas que deixaram de mostrar colônias europeias Continue lendo →

Árvores que andam

Há porém muitas espécies de ortodoxia, não somente aquelas ligadas explicitamente a credos religiosos, e a ortodoxia que quero mencionar hoje é a que domina o modo como vemos a pobreza e os sem-teto.

Os serviços sociais engajados com gente que experimenta pobreza e vida sem-teto acabaram sendo dominados por uma perspectiva médica. As pessoas hoje em dia veem a pobreza e os sem-teto como questões de saúde pública ou comunitária. Quando olha as fotos abaixo, por exemplo – você acha que está vendo o contraste entre um pessoa má que se tornou boa ou entre uma pessoa doente que se tornou sadia?
 

Como reter o direito sobre o corpo de outras pessoas

Primeira parte: “Pare de resistir, estamos fazendo isso para o seu bem!”

Uma crise na coerção justificada: da religião aos serviços de saúde

Quando consideramos a ascensão do modelo médico e a difusão da linguagem de comunidade e saúde pública, a primeira coisa é entender que esse é um fenômeno relativamente recente.

A idade da razão gerou uma crise para os que usavam os discursos religiosos de modo a justificar o uso da força

A medicina costumava ser praticada de modo muito diferente, saúde e doença eram compreendidas e priorizadas de modo muito diferente, e os que se ocupavam dessas coisas tinham uma posição inferior e menor influência dentro da sociedade. O que aconteceu para mudar isso? De que modo as práticas discursivas da saúde chegaram a predominar?

O que aconteceu foi que do Renascimento em diante ocorreram guinadas radicais dentro das sociedades ocidentais. A ciência, Continue lendo →

A história da loucura

Para entender como isso funciona pode ser útil prover um sumário da história da ideia de doença mental. Nesta seção quero resumir A história da loucura de Michael Foucault, valendo-me ainda de Deviance and Medicalization: From Badness to Sickness, de Peter Conrad e Joseph W. Schneider. Enquanto examinamos essa história é fundamental que reflitamos sobre a nossa própria experiência nos serviços sociais. O quanto nossas instituições refletem os valores, trajetórias e estruturas das instituições que descobrimos aqui?

Surgia a compreensão de que os pobres eram benéficos para a riqueza das nações e dos capitalistas

A sociedade ocidental é singular na sua compreensão de que a “loucura” é uma “doença mental”. De que Continue lendo →

A medicalização do desvio da norma

Dentro do manicômio a cura da loucura continuava sendo vista como levar os pacientes a aceitar a moral, os valores e as prioridades da sociedade burguesa. O foco permanecia sendo ensinar os pacientes a aceitar a obediência, a produtividade e o valor da propriedade. A sanidade vinha com o aprendizado de julgar as coisas do mesmo modo que o restante das pessoas, e em adquirir os hábitos do restante das pessoas.

Essa trajetória se alongou até o século 20, quando grandes descobertas no campo de medicamentos psicotrópicos aumentou a conformidade dos grupos dissidentes sem limitar muito a funcionalidade dos membros desses grupos. Os loucos Continue lendo →


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