Se formos somente por nós • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 02 de novembro de 2014

Se formos somente por nós

Estocado em Política

Todas as vezes que falo da cultura judaica numa luz positiva, como em A verdade na assembleia dos discordantes, fico com medo de estar dando a impressão de que aprovo a política histórica do estado judeu, e que nada tenho contra o público estrangulamento da Palestina. O Estado de Israel fez muito para sequestrar em seu favor o termo “judeu”, esvaziando-os de suas implicações religiosas e culturais e restringindo-o ao âmbito político e nacional.

Confortou-me entender recentemente que essa particular hesitação, o medo de ter a admiração pelo judaísmo confundida com admiração pelo estado israelense e sua política, afeta em alguns casos até mesmo quem é judeu. Deixo que fale Daniel Boyarin, historiador que trata o cristianismo com imensas gentileza e lucidez, autor de livros que levo comigo sempre – mesmo quando não estão comigo:

A despeito do caráter convencional da minha identificação como judeu ortodoxo, encontro-me neste momento seriamente fora de sintonia com a minha comunidade, numa posição de marginalidade que me é com frequência dolorosa. O presente é uma época em que a ortodoxia judaica foi redefinida de modo a incluir o apoio não questionado a uma entidade política, o Estado de Israel, e todas as suas aventuras marciais.

Escrevo num momento (2003) em que judeus e cristãos (inimigos por milênios) tornaram-se de repente improváveis parceiros, engajados coletivamente numa guerra ou guerras contra os muçulmanos. A guerra de limpeza étnica contra os palestinos, deflagrada por Ariel Sharon, é aplaudida por fundamentalistas cristãos, e a cruzada do presidente americano George W. Bush contra o Iraque é celebrada pela maioria dos judeus em nome de uma batalha contra muçulmanos terroristas.

. . . Eu e todos nós (especialmente judeus) que discordam da aliança judaico-cristã que acusa palestinos, Saddam Hussein e Osama bin-Laden de serem terroristas islâmicos da mesma estirpe demoníaca, somos rotulados por judeus e por cristãos de judeus antissemitas. Isso me traz fortes reminiscências de Jerônimo, séculos atrás, estigmatizando como hereges tanto judeus que eram cristãos quanto cristãos que eram judeus, declarando com toda a convicção que não eram “nem judeus nem cristãos”.

É desconcertante, beira o surreal, ver presidentes protestantes de direita, pregadores fundamentalistas da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos (historicamente nada amigos dos judeus) e o presidente judeu da Universidade de Harvard falando do púlpito (cristão) da Igreja Memorial de Harvard (historicamente local pouco usado na defesa dos judeus) demonizando de comum acordo aqueles, judeus ou não, que discordam da política e da prática contra os palestinos. Quão amargamente irônico é ver esse púlpito sendo usado para rotular como antissemitas os judeus e outros que assinaram uma petição para que as universidades rejeitem o apartheid de Israel. Eu e os demais judeus que discordamos do apoio judeu a Israel estamos sendo tachados de hereges.

. . . Dilacera-me a dor de ver a minha tradição, o meu judaísmo, ao qual dediquei a vida, desintegrando-se moralmente diante dos meus olhos. Já foi dito por muitos cristãos que o cristianismo morreu em Auschwitz, Treblinka e Sobibor. Temo – D’us não permita – que meu judaísmo esteja morrendo em Nablus, Daheishe, Beteen (Beth El) e Al-Khalil (Hebron). As ofensivas de guerra tomadas em nome da defesa talvez ajudem alguns corpos judeus a sobreviver (e mesmo isso de modo dúbio, temporário, momentâneo), mas ameaçam esvaziar a existência judaica de todo o significado, invalidar a resistência de dois mil anos pela dissolução na maioria. Se não formos por nós, dizem-me os outros judeus, quem será por nós? Respondo, se formos somente por nós, o que somos?

Daniel Boyarin em Border Lines

 

 

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Paulo Brabo @saobrabo

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