Raízes • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 22 de agosto de 2015

Raízes

Estocado em Brasil · Manuscritos

Esta é a parte 2 de 7 da série Despachos da Muralha

 

A sala da fazenda era emoldurada por dois quadros enormes: um mostrava a versão gaúcha do mapa da União, o outro o imperador Gerdau bebendo chimarrão de uma cuia que tinha o formato do mapa.

De dentro entrou Esmalte Heinz, deputado, homem loiríssimo e latifundiário, pulando para terminar de calçar uma bota de cano longo. De fora, escoltado por seguranças que ocuparam imediatamente todas as portas, o marechal Dos Santos, secretário de Estado dos negócios do Império.

– Estava de saída, deputado? – disse o marechal, estendendo ao fazendeiro uma mão enluvada.

– Sim, bom dia – Heinz terminou de calçar a bota e devolveu o cumprimento. – Estávamos saindo para comer um churrasco no Outback quando ouvi o helicóptero. Está tudo bem, marechal?

De dentro da casa vieram dois seguranças trazendo pelo braço a filha do dono da casa.

– A menina estava de posse de material subversivo – disse um deles, e entregou uma pilha de livros ao secretário de Estado.

Casagrande e Zagalo – o marechal foi lendo os títulos e repassando os volumes ao deputado – Raízes do Vazil, Meias abertas do América e Corinthians, Imundo porvir.

– Desde quando, Flora, você lê esse tipo de coisa? – disse o fazendeiro, indignado, que não sabia como segurar os livros porque nunca tinha se visto naquela situação. – Desde quando você lê?

– Sua filha, deputado Heinz – anunciou o marechal – é de esquerda.

– Meu Deus – disse o fazendeiro. – Mas esquerda de verdade ou daqueles que colocamos em Vazília?

Dos Santos fez sinal que os seguranças saíssem e esperassem lá fora. Na sala ficaram só ele, o deputado e a menina.

– De verdade – ele finalmente respondeu, e ajeitou o cabelo da menina sem tirar a luva de pelica preta – Diga, minha prenda, o que você sabe sobre o Caminho do Peabiru?

– Flora, pelo amor de Deus, se defenda! – disse o fazendeiro. – Diga para o secretário que você não é de esquerda; conte pra ele que abrimos juntos aquela página no Face pedindo um Starbucks em Porto Alegre!

– Não seja ingênuo, deputado – disse o marechal, e entregou para o fazendeiro uma folha de papel, que ele também não soube segurar. – Desde quando não é coisa dos gramscianos ocultar as suas táticas? Essa página foi escrita pela sua filha, e explica como o Império Gaúcho planejou, apoiou e implementou o programa Bolsa Família.

– Que absurdo é esse, Flora? – Heinz virou a folha, sem ter certeza se o cabeçalho ficava para cima ou para baixo. – Secretário, não sei porque minha filha achou de escrever mentiras desse –

– Não é mentira – interrompeu o secretário, e começou a caminhar pela sala com as mãos nas costas. – É verdade, deputado: o Bolsa Família foi ideia nossa.

– Mas mas – o dia não estava exigindo pouco da capacidade de surpreender-se do fazendeiro. – Achei que nós da plataforma urralista fossemos contra o Bolsa Família. Que fosse coisa de professorzinho vagabundo de esquerda que quer transformar o Vazil em Cuba.

– O Bolsa Família foi uma medida extraordinária – disse o marechal – na luta contra um inimigo extraordinário. Qual é a ameaça maior para o projeto da União, deputado?

– O índio – disso Heinz não tinha dúvida.

– Exato. Cada índio é o índio eterno, Der Ewige Indigene. E o que diz o primeiro parágrafo dos Protocolos dos Sábios do Serestão?

Heinz não tinha lido o livro mas tinha visto a apresentação em powerpoint.

– “Índio é a pessoa que quer uma coisa diferente da coisa que você quer” – ele recitou.

– E porque isso é inadmissível?

– Porque todos devem querer o que nós queremos.

– Para o bem de quem?

– De todos.

– E para quando nós queremos?

– Agora.

– Bolsa Família – disse o secretário de Estado, e deu um tapinha na barriga do outro.

– Ahhh – disse Flora, que não podia mais suportar aquela tortura, – ele não vai entender, marechal. Papai, o Bolsa Família não foi distribuição de renda, foi um investimento. Serviu para ensinar as pessoas a consumir.

Um lampejo de compreensão atravessou o rosto do fazendeiro.

– Então as pessoas podem ser… ensinadas a consumir – ele claramente achava a ideia maravilhosa.

– Heh, pergunte aos traficantes de drogas – disse Dos Santos.

– Papai, muitas comunidades indígenas abandonaram o seu modo de vida tradicional e começaram a consumir refrigerante, macarrão, açúcar. Eles não tem genética pra isso: estão morrendo diabetes, doença que nem conheciam.

O fazendeiro tentou por um instante sensibilizar-se com a indignação da filha, mas não foi capaz de encontrar defeito num mundo em que as pessoas pudessem tomar refrigerante.

– O imperador chama o Bolsa Família de Solução Final – disse Flora, mas desesperou imediatamente que o pai entendesse a referência.

– Não porque queremos que ninguém morra, é bom esclarecer – o marechal ergueu um dedo – mas porque é de fato uma solução e é final. Os índios podem agora entender em primeira mão que só queremos dar a eles uma experiência de usuário superior.

– Porco fascista! – Flora cuspiu.

– Eu não entendo, minha filha, logo você, minha flor – a tristeza de Heinz era sincera. – O que vão dizer os seus irmãos, executivos no Sacrocondomínio de São Paulo? O que vai dizer o seu padrinho Cravalo de Orvaglio, que lutou tanto por esse país e agora escreve dos Estados Unidos?

– Papai, ninguém mais do que eu acha ridículo o papel clichê de filha rebelde de político conservador. Tenha certeza que eu preferia estar em outra história.

– Pois vamos lhe dar essa chance – disse Dos Santos, e bateu palmas para chamar os seguranças. – Deputado Heinz, o imperador Gerdau quer interrogar a sua filha pessoalmente, vou ter de levá-la comigo ao palácio.

– Mas interrogar o quê, minha Flora é ainda uma menina, só tem dezoito anos…

– Dezesseis – disse Flora, e deixou-se conduzir para fora pelos seguranças com certo alívio.

– Não vamos fazer nada de mal com a menina, deputado – disse o marechal. – Mas pelo que sabemos ela tem informações valiosas sobre o Caminho do Peabiru.

– E do que se trata?

– É o código para alguma operação secreta da esquerda – o secretário de Estado andou até a porta. – Só sabemos que diz respeito à defesa da Muralha.

E saiu, deixando Esmalte Heinz muito embaraçado. Nunca tinha estado sozinho com livros na mesma sala que ele.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

Despachos da Muralha

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