Publicar, depois escolher • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 26 de maio de 2006

Publicar, depois escolher

Estocado em Pense comigo

NO MUNDO ANTES DA INTERNET, do qual alguns talvez ainda se recordem, a regra editorial era invariavelmente escolher, depois publicar. A oferta possível de conteúdo não era pequena, mas jornais e revistas tinham de atirar em todas as direções e acertar: como a idéia era atingir e conquistar o público mais amplo possível, o conteúdo tinha de ser variado e seletivo o bastante para agradar a todos os tipos de leitores – mesmo que fosse uma coluna de cada vez. Por essa razão o dilema dos editores sempre foi escolher o que descartar, já que as limitações de espaço e a variedade do público-alvo ditavam a configuração do conteúdo.

Corta para os dias atuais. A web reverteu formidavelmente esses recatos de austeridade. Com os custos de publicação e distribuição reduzidos a praticamente zero, o que vale agora é o oposto: publicar, depois escolher – ou, dito de outra maneira, o papel serviço sujo do editor foi transferido para o leitor. É o leitor, neste mundo novo soçobrando de informações, que se vê obrigado a decidir o que descartar.

Foi-se o tempo em que você comprava um jornal inteiro para ler apenas – dependendo dos seus interesses – a tira de quadrinhos, a programação de cinema, a coluna social, a página de receitas, as notícias desportivas, os índices econômicos ou o caderno de política. Hoje em dia há na internet sáites enfileirados, prontos para abastecê-lo ao ponto da indigestão com cada um desses gêneros de conteúdo, e todas as suas possíveis variantes. Há páginas da internet que versam sobre todos os assuntos que você gosta – na verdade há na internet mais páginas versando sobre os assuntos que você gosta do que você gostaria de ler. Ou poderia.

Mesmo que seu nível de spam esteja sobre controle, mesmo que você não tenha assinado a Bacia ou o bloglines, você gasta parte da sua manhã fazendo serviço de editor: decidindo quais mensagens genéricas de email – algumas delas invariavelmente interessantes e que poderiam salvar quem sabe o seu casamento, o seu crédito bancário ou a sua vida – vão para a lixeira sem serem lidas.

A oferta de informação é, pela primeira vez na história, maior do que a procura. Na vertiginosa biblioteca de Babel de Borges apenas uns poucos livros cometiam o despudor de serem compreensíveis, e um número ainda menor podia ser considerado útil ou interessante. Aqui nesta web são tantas as informações valiosas à sua disposição que toda informação perdeu, naturalmente, qualquer valor.

Esqueci onde queria chegar com esse raciocínio, mas não faz diferença. De minha parte é só clicar em Publish e passar a bola para a frente.

Não está mais aqui quem falou.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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