Protestantes no purgatório e católicos no inferno • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 24 de julho de 2011

Protestantes no purgatório e católicos no inferno

Estocado em Divino preconceito

Comparecem como menos que coadjuvantes, no livro que estou escrevendo sobre a relação entre protestantes e a igreja católica, algumas das crenças e práticas que desde a infância tenho invejado no catolicismo. De meu posto de observação na árida e antisséptica sala de espera que é a liturgia protestante, passei a vida admirando catedrais e cobiçando secretamente determinadas doutrinas católicas que me pareceram desde sempre igualmente terríveis, incompreensíveis e atraentes.

Há, por exemplo, o purgatório, a condição intermediária de purificação a que são submetidos os que foram poupados do inferno mas não se mostraram merecedores de uma transferência sem escalas para o céu.

Como venho aprendendo com O nascimento do purgatório de Jacques Le Goff, a noção de purgatório, por mais alienígena e arbitrária que pareça aos que habitam este lado da represa da Reforma, nasceu menos de uma forçação de barra teológica do que como produto e extensão da ênfase católica na ideia de comunidade — a Igreja como a inabalável, ininterrupta e indestrinçável comunhão dos santos.

O purgatório é em parte o resultado da arrojada crença de que nem mesmo a morte pode separar os salvos e interromper a comunhão dos santos. Como o Redentor enxertou a vida eterna no coração do mundo e anulou para sempre o poder da morte, a separação entre vivos e mortos é mera ilusão: faz todo sentido que os vivos continuem a interceder em favor dos mortos 1Thomas A. Nelson, na sua introdução ao Purgatório do padre F. X. Schouppe.:

Nossos votos e ofertas pelos mortos são mais agradáveis a Deus do que nossas orações e boas obras pelos vivos, pois as pobres almas do Purgatório estão mais perto de Deus, carecem de auxílio mais premente e são incapazes de ajudar a si mesmas.

Não custa lembrar que santa Anne Catherine Emmerich (1774-1824), informada por suas visões, explica-nos que “as almas dos protestantes sofrem por mais tempo e com maior intensidade no purgatório, por contarem normalmente com poucos amigos e parentes para orarem por eles” 2Nelson, op. cit..

Ao contrário do que possa parecer, há nessa visão do sofrimento dos protestantes no purgatório mais gentileza e graça do que verdadeiros desprezo e rejeição. Menos clementes e mais dogmáticos, os protestantes ao longo dos séculos têm preferido ser visitados por visões de católicos no inferno.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. Thomas A. Nelson, na sua introdução ao Purgatório do padre F. X. Schouppe.
2. Nelson, op. cit.
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