Planeta hostil • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 04 de outubro de 2015

Planeta hostil

Estocado em Goiabas Roubadas

Pode haver água em Marte. Mas há vida inteligente na Terra?

George Monbiot em The Guardian

 

A evidência de água corrente em Marte amplia a possibilidade de vida, de maravilhas que não conseguimos começar a imaginar. A descoberta é um feito extraordinário. Enquanto isso os cientistas marcianos continuam a busca por vida inteligente na Terra.

Estamos fascinados com a ideia de organismos em outro planeta, mas parecemos ter perdido o interesse pelos nossos. Nas últimas quatro décadas o planeta perdeu 50% dos seus vertebrados selvagens.

Pense o que mudaria se déssemos à água terrestre o mesmo valor que damos à possibilidade de água em Marte. Apenas três por cento da água do nosso planeta é doce, e dois terços desse total encontra-se congelado. Ainda assim nós devastamos a porção acessível. Sessenta por cento da água usada no agronegócio é desnecessariamente desperdiçada por irrigação irresponsável. Rios, lagos e aquíferos são drenados até a última gota, enquanto o que resta é com frequência tão contaminado que torna-se uma ameaça para os que bebem dele.

Quanto à água salgada do tipo que nos encanta quando aparentemente detectada em Marte, na Terra expressamos nosso apreço com um frenesi de destruição. Um relatório recente sugere que o número de peixes se reduziu pela metade desde 1970. O atum de barbatana azul do Pacífico, que chegou a cruzar os mares aos milhões, foi reduzido ao que se estima serem 40.000 espécimes, que são ainda assim perseguidos. Os recifes de coral encontram-se debaixo de tamanha pressão que estima-se que terão deixado de existir até 2050.

Deixe que o mercado decida: este é o modo como os governos querem resolver a destruição do planeta. Deixe com a consciência dos consumidores, quando essa consciência encontra-se emudecida e confusa pela ação da propaganda e de mentiras corporativas. Num virtual vácuo de informação, somos deixados para decidir por nós mesmos o que tomamos de outras espécies e de outras pessoas; o que queremos alocar para nós mesmos ou deixar para as próximas gerações.

Um porta-ovos para o seu refrigerador, que sincroniza com o seu telefone para informar quantos ovos restam. Um dispositivo para bater ovos… dentro da casca. Perucas para bebês, para que “bebezinhas com pouco ou nenhum cabelo tenham a oportunidade de ter cabelo maravilhosamente realista”. O iPotty, que permite que o seu bebê possa continuar a brincar com o iPad dele enquanto aprende a usar o toalete. Um paiol de 2000 libras esterlinas, à prova de aranhas. Uma sauna de neve, vendida nos Emirados Árabes, dentro da qual você pode simular um clima de inverno com um toque do interruptor. Um refrigerados portátil para melancias, indispensável para piqueniques. Bananas pré-descascadas, vendidas em bandejas de poliestireno e embaladas com uma película de plástico. Basta tirar da embalagem…

A cada ano inventamos modos mais engenhosos de desperdiçar as coisas, e a cada ano nos tornamos mais insensíveis ao consumo despropositado dos recursos preciosos do planeta. Com cada sutil intensificação, a base da normalidade se altera. Não é à toa que quanto mais rico um país se torna, menos os seus cidadãos se importam com o impacto que imprimem a este planeta vivo.

Nossa alienação do mundo de maravilhas com o qual evoluímos apenas se intensificou desde de que David Bowie descreveu uma jovem cambaleando ao longo de “um sonho submerso”, a caminho de “viciar-se numa tela prateada”, na qual uma longa série de distrações desviaria a sua atenção das questões fundamentais da vida. A música, naturalmente, se chamava Life on Mars.

George Monbiot em Inhospitable Planet

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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