Para desenhar um círculo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 04 de abril de 2016

Para desenhar um círculo

Estocado em Brasilicata

No décimo-sexto volume de Vidae zu santi della Brasilicata de Giuseppe di Anscietta está escrito que São Coro de Minância tinha uma espada que só levantava para deter os que o admiravam. “De todas as missões que Deus outorgou a cada homem, a maior e mais urgente é dissuadir qualquer outro homem de segui-lo (Oração à treva que precede a aurora, XII, V)”.

Está dito que São Coro só achava interessantes os pecadores, só encontrava prazer na presença dos que o tomavam por pessoa comum e temia e detestava como o diabo os que o admiravam. “Não há volume da Biblioteca Infernal que não trate da arte de expressar admiração […] Só quem crê em si mesmo mais do que em mim tem o direito de me seguir”.

Todas as noites era acordado em plena madrugada, com um tapa ou com um beijo, por um de seus discípulos, sendo que enquanto dormia um sorteio determinava o discípulo e a modalidade de despertar que lhe caberia naquela noite. Segundo Munhaça de Bê, a função dessa disciplina era ensinar que o homem nunca sabe quando será encontrado pela morte ou pelo amor (não havendo outro registro ou testemunho contemporâneo, a tradição tratou de determinar que o beijo representava a morte e o tapa o amor).

Uma vez despertado, São Coro vestia sua rede e caminhava pelo mundo até o amanhecer, sendo que não havia outra coisa que amasse mais do que a madrugada. A Munhaça contou que tinha sido a madrugada a convencê-lo da existência da divindade: “se tivessem me falado, se eu não tivesse visto com os olhos e experimentado com o coração, a madrugada teria me soado coisa mais inacreditável do que Deus.”

Na opinião do santo de Minância, Deus criou a madrugada para que todo homem pudesse, querendo, caminhar pelo mundo e experimentar o mundo como o experimenta Deus. A noite é o mundo avesso (e portanto direito) em que todos se dobram, em que todos comungam: em que dormem abraçados, sem saber, amigos e inimigos, santos e pecadores, vítimas e algozes. A madrugada é um mundo de plena graça em que os homens apenas existem, livres de rótulos e de destinos, de compromissos e de posses, de méritos e deméritos, de títulos e de papéis a desempenhar.

Dos ditados atribuídos ao santo, nenhum é mais frequente do que este: “Avançando sempre, um homem pode desenhar sobre a terra um círculo; para desenhar uma cruz é preciso voltar atrás”.

 

Este relato foi postado na Forja Universal em 18 de abril de 2013

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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