Onde você se engana a respeito de futebol • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 13 de julho de 2014

Onde você se engana a respeito de futebol

Estocado em Brasil

Você nunca leu tanto sobre futebol quanto esta semana, então permita-me assumir o papel do japonês e limpar esta arena das concepções equivocadas que você leu ou defendeu sobre o assunto.

Sobre futebol? É aqui que você se engana.

► perder de 7×1 da Alemanha foi uma coisa ruim para o futebol nacional

E esta não requer praticamente explicação. A derrota espetacular da seleção brasileira em solo brasileiro (e o fato de ter sido tão espetacular) é uma coisa boa – pelo menos para quem se interessa minimamente por futebol. Nada pode fazer mais bem a uma coletividade do que deixar de acreditar que é a melhor do mundo em alguma coisa, especialmente se quer nutrir alguma esperança de chegar a ser.

► você é coxinha e se diz contra a Copa do Mundo

Não pude deixar de ler porque você acarpetou o twitter, o Facebook e o instagram com a sua mensagem: “não sou contra a Copa do Mundo ou contra o futebol, sou contra a injustiça, contra a exploração sexual, contra as desapropriações”.

O que você está querendo dizer é que é contra o capitalismo predatório e contra o desenvolvimentismo, mas se fosse realmente contra saberia a diferença – e saberia que o seu tipo de oposição só serve para alimentar o apetite do monstro.

O capitalismo parasitário funciona dessa forma: tudo que cresce além uma massa crítica, tudo que se torna de interesse de uma fatia significativa ou explorável de público, é sequestrado política e economicamente. A Copa do Mundo não é o único exemplo disso; não é de longe o melhor, o mais emblemático ou o mais prenhe de injustiças.

#nãovaitercopa tentou tentar sequestrar o lastro político da Copa em seu favor, como faz o seu oponente, e como resultado a Copa só ficou maior e mais gostosa de sequestrar pelo seu oponente. Dizer não vai ter Copa garantiu que ninguém esquecesse por um minuto que ia ter.

► menos, galera, futebol é um esporte como outro qualquer

Explicar a singularidade do futebol é ingrato como ter de explicar uma piada – mas, como nesse caso, não tira em nada a graça do original.

Não importa o esporte, torcer para um time é um modo ritual de dizer: esses caras que admiro exercem a humanidade deles melhor do que esses caras que você admira. Olha o que eles fazem!

No fim é tudo uma questão de admirar e de celebrar humanidades, e como temos vergonha de adorar as pessoas diretamente, sem subterfúgios (já pensou abordar uma pessoa arbitrária na rua e dizer: “sua linda, me dá um autógrafo? Posso tirar uma foto com você?”) inventamos intermediários e atenuantes. O espetáculo nos dá a chance de gritar o nome do jogador, de celebrar a sua humanidade, com uma paixão que a esposa do sujeito jamais conheceu.

Por uma série de motivos, o futebol produz uma arena de se admirar humanidades mais ampla e mais fiel do que a maioria dos esportes. Talvez seja porque, mais do que em qualquer outro esporte popular, no futebol perícia e azar – preparo e espontaneidade – são fundamentais ao mesmo tempo. Talvez seja a singeleza da ideia de deixar vinte homens correndo e interagindo com um equipamento que para todos os efeitos é um só, aquela bola. Querendo dizer, arranjar um meio para que vinte homens interajam apenas entre si.

Em outros esportes coletivos, a grandeza de um time fica evidenciada antes de tudo pelo placar. O futebol é mais intolerante: aqui a humanidade bem exercida (a grandeza) de um time é julgada em primeiro lugar pela interação dos jogadores entre si e com seus oponentes.

A torcida é um deus terrivelmente sábio, e sabe distinguir sem margem de erro um futebol bonito de um feio. Futebol feio é aquele em que a humanidade não é adequadamente celebrada: uma coisa sem alegria, sem potência, sem perícia, sem criatividade, sem interação, sem generosidade, sem coragem, sem graciosidade e sem graça.

A torcida é um deus terrivelmente sábio, e em muitos casos saberá vaiar o seu próprio time e aplaudir o adversário, dependendo do campo em que resida o futebol bonito – dependendo de onde a humanidade estiver sendo mais espetacularmente celebrada.

► no Brasil o futebol é o circo (da política de “pão e circo”)

Vem você me dizer que o futebol é alienante e se presta de ferramenta de manipulação, e eu querendo explicar que a paixão pelo futebol é uma espécie de inteligência coletiva.

É claro que políticos e corporações continuarão a sangrar o quanto podem a seiva do futebol – mas também é verdade que fazem isso com qualquer coisa, com qualquer causa ou pessoa que assuma diante do público determinadas dimensões. O mérito de ser explorado não é singularidade do futebol.

Seu mérito é o de se mostrar tão eficaz em resistir à manipulação.

Talvez mais do que o Carnaval, o futebol resiste a ser terraformado ou gentrificado pelos que querem lucrar com ele. O brasileiro escolhe se identificar com o futebol porque escolhe se identificar com a beleza e com a graça, e essas coisas não resistem bem ao cativeiro. A torcida é mais lúcida e mais inclemente do que a máquina.

A máquina é burra. O que a torcida exige do futebol é um ambiente adequado para celebrar humanidades, e quem tem anseios tão elevados se mostra tudo menos fácil de manipular.

► a CBF ou a FIFA ou a Globo ou [insira aqui a sigla pertinente] vão acabar com a beleza do futebol

Em parte já o fizeram e em parte continuarão a fazê-lo, mas o reino desses demônios termina onde começa uma partida. Ali a beleza do futebol é julgada sem descontos e sem subterfúgios por uma família imensamente mais nobre. Se for o caso de ver uma Alemanha (ou Argentina) jogando com a generosidade e com a graça que tradicionalmente estiveram associadas ao futebol brasileiro, essa glória nenhum placar comporta. Celebram mais adequadamente a humanidade de todos: que sejam por todos adequadamente celebrados. A regra é clara: o futebol é autocorretivo. O futebol bonito tende a humilhar o feio e a riscá-lo do mapa.

► para falar sobre futebol é preciso entender de futebol
Eeee, é tudo teologia, e nem mesmo quem tem razão sabe do que está falando. Quando falamos de coisas tão humanas que se aproximam do divino, os termos que usamos para falar delas não tem necessariamente nenhuma relação com a grandeza ou a verdadeira natureza do assunto. O futebol não endossa qualquer opinião, mesmo que sejam lúcidas como as minhas. Com isso todos ganham, desde de que de coisas humanas continuemos falando.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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