O verdadeiro crente • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 23 de novembro de 2009

O verdadeiro crente

Estocado em Goiabas Roubadas

ABRAÃO: O verdadeiro crente

Certa vez Abraão entrou no templo dos ídolos da casa de seu pai, a fim de trazer-lhes sacrifícios, e encontrou um deles, chamado Marumate e feito de pedra lavrada, prostrado no chão diante do deus de ferro de Naor. O ídolo era pesado demais para alguém erguê-lo do chão sem ajuda, pelo que Abraão chamou seu pai para ajudar a colocar Marumate de volta no lugar. Enquanto moviam a estátua a cabeça se soltou; Tera pegou então uma pedra e lavrou com cinzel um outro Marumate, fixando a cabeça do primeiro no novo corpo que fizera. Depois continuou e fez mais cinco deuses, todos os quais entregou a Abraão, mandando que os vendesse nas ruas da cidade.

Abraão selou sua mula e foi até a hospedaria onde os mercadores de Fandana, na Síria, paravam em seu caminho para o Egito. Quando chegou à hospedaria um dos camelos que pertencia aos mercadores baliu, e o som assustou sua mula de tal forma que ela saiu correndo desabalada, quebrando três dos ídolos. «Foi ele que atirou-se ao fogo para que sua refeição pudesse ser preparada.»Os mercadores não apenas compraram os ídolos em bom estado que ele trazia, mas deram-lhe ainda dinheiro pelos quebrados, pois Abraão contou-lhes o quanto estava receoso de aparecer diante do pai com menos dinheiro do que esperava reveber pelo trabalho das suas mãos.

Esse incidente levou Abraão a refletir sobre a inutilidade dos ídolos. “O que essas coisa perversas fizeram ao meu pai?” ele disse a si mesmo. “Então ele não é o deus dos seus deuses? Não é devido ao lavor, esforço e planejamento dele que eles chegam a existir? Não seria mais apropriado que eles prestassem adoração e meu pai do que ele a eles, considerando-se que são obra das suas mãos?”

Pensando nessas coisas ele chegou à casa do pai, entrou e entregou-lhe o dinheiro pelas cinco imagens. Tera encheu-se de júbilo e disse:

— Meus deuses o abençoem, porque me trouxe o preço pelos meus ídolos, e meu trabalho não foi em vão.

Mas Abraão retrucou:

— Ouça, Tera, meu pai: são os seus deuses os abençoados pelo senhor, pois o senhor é o deus deles! O senhor os moldou; a benção deles é destruição, e seu auxílio vaidade. Eles são incapazes de ajudar a si mesmos; como poderão ajudar o senhor ou abençoar a mim?

Tera ficou furioso com Abraão, por ter proferido esse discurso contra os seus deuses. Abraão, refletindo sobre a ira do pai, deixou-o e saiu da casa, porém Tera chamou-o de volta e disse:

— Junte os cavacos de carvalho que sobraram das imagens que fiz antes de você voltar, e prepara-me o jantar.

Abraão dispôs-se prontamente a cumprir a ordem do pai, e enquanto juntava as lascas de madeira encontrou um pequeno deus entre eles, cuja testa trazia a inscrição “Deus Barisate”.

Abraão atirou os cavacos no fogo e colocou Barisate junto dele.

— Atenção, Barisate! — disse ele. — Cuide para que o fogo não apague até eu voltar. Se começar a apagar, sopre sobre as brasas e a chama será atiçada novamente.

Falando assim, foi embora. Quando voltou, Abraão encontrou Barisate caído de costas, gravemente queimado. Sorrindo, disse a si mesmo:

— É, Barisate, você não é capaz nem de manter um fogo aceso e preparar comida.

E, enquanto ele falava, o ídolo foi consumido em cinzas.

Abraão levou os pratos ao pai, que comeu e bebeu, ficou satisfeito e agradeceu a seu deus Marumate. Mas Abraão disse ao pai:

— Não agradeça Marumate, agradeça a seu deus Barisate, pois foi ele, pelo seu grande amor pelo senhor, que atirou-se no fogo para que sua refeição pudesse ser preparada.

— Onde está ele agora? — exclamou Tera.

— Converteu-se em cinza pela força do fogo — respondeu Abraão.

— Grande é o poder de Barisate! — disse Tera. — Vou fazer-me outro hoje mesmo, e amanhã ele me preparará comida.

Essas palavras de seu pai fizeram com que Abraão risse consigo mesmo, mas ao mesmo tempo sua alma entristecia-se diante da obstinação de Tera. Ele não hesitou em deixar clara sua posição sobre os ídolos:

— Pai — disse ele, — não importa qual dos dois deuses o senhor bendiga. Não há sentido no seu comportamento, pois as imagens que estão no santo templo são mais dignas de oração do que as suas. Zuqueu, deus de meu irmão Naor, é mais venerável do que Marumate, pois é feito de ouro: quando ficar velho poderá ser moldado novamente. Já quando Marumate ficar frágil ou partir-se em pedaços não poderá ser refeito, pois é de pedra. O deus Jouave, que está acima dos outros deuses ao lado de Zuqueu, é mais venerável do que Barisate, que é de madeira, pois foi malhado de prata e habilidosamente lavrado pelos homens de modo a mostrar a sua magnificência. Já o seu Barisate, antes que o senhor o moldasse em deus com seu machado, estava enraizado na terra, erguendo-se ali grande e tremendo, na glória de seus ramos e flores. Agora está seco e sua seiva esvaiu-se. De sua elevada posição Marumate caiu à terra; do esplendor reduziu-se a mesquinhez. Sua face empalideceu-se, e ele mesmo foi queimado pelo fogo e consumido até as cinzas: não existe mais. E agora o senhor diz “Vou fazer-me outro hoje mesmo, e amanhã ele me preparará comida”. Pai, o fogo é mais digno de adoração do que seus deuses de ouro e prata e madeira e pedra, porque pode consumi-los. Mas tampouco o fogo chamo de deus, porque o fogo sujeita-se à água, que o apaga. A água também não considero um deus, pois é tragada pela terra; digo que a terra é mais venerável, porque vence a água. Porém a terra também não chamo de deus, pois é ressecada pelo sol; digo que o sol é mais venerável do que a terra, porque ilumina o mundo todo com seus raios. Porém o sol também não chamo de deus, porque sua luz é obscurecida quando chega a escuridão. A lua e as estrelas não chamo ainda de deuses, porque sua luz também se extingue quando passa sua hora de brilhar. Mas ouça o que vou lhe dizer, meu pai, Tera: o Deus que criou todas as coisas, ele é o verdadeiro Deus. Ele tingiu os céus e dourou o sol, e deu esplendor à lua e também às estrelas; secou a terra de entre as muitas águas, e também colocou o senhor sobre a terra e, quanto a mim, buscou-me a despeito da confusão dos meus pensamentos.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Photo: Tim Caynes

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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