O trânsito é a organização do isolamento de todos • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 12 de janeiro de 2016

O trânsito é a organização do isolamento de todos

Estocado em Goiabas Roubadas

Alexandre Nodari

A cidade utópica, a cidade planejada, associa-se, assim, ao projeto colonizador: não há um corte entre cristianização e modernidade, entre a cruz e o avião que simbolizam Brasília.

Pois se há uma coisa que caracteriza Brasília é a “falta vital de esquinas”, para citar uma conhecida crônica de Clarice Lispector, que dizia preferir o “entrelaçamento carioca” e é uma espécie de resposta a Guilherme de Almeida: ela fala que Brasília fica em “lugar nenhum”, “um futuro que aconteceu no passado”.

O trânsito é o avesso do encontro

Construída durante o governo desenvolvimentista conhecido pela indução à indústria automobilística, Brasília constituiu-se como uma cidade em que não só é preciso carro para se locomover; parece mesmo uma cidade projetada para o movimento automotivo, instanciação simbólica e urbanística da modernização: cruz, carro, avião.

“Em Brasília não existe cotidiano”, afirma Clarice: “Brasília é um aeroporto”, puro trânsito, pura ordenação do trânsito. E aqui é interessante sublinhar as críticas da vanguarda situacionista a esse modelo urbanístico, críticas emitidas à mesma época da construção de nossa capital:

“O desenvolvimento do meio urbano é a educação capitalista do espaço. Ele representa a escolha de certa materialização do possível, com a exclusão de outras (…) O trânsito é a organização do isolamento de todos. Constitui o problema preponderante das cidades modernas. É o avesso do encontro: um sugador de energias disponíveis para eventuais encontros ou para qualquer espécie de participação”.

“O erro de todos os urbanistas é considerar o automóvel individual essencialmente como um meio de transporte. A rigor, ele é a principal materialização de um conceito de felicidade que o capitalismo desenvolvido tende a divulgar para toda a sociedade. (…) O tempo gasto nos transportes, como bem observou Le Corbusier, é um sobretrabalho que reduz a jornada de vida chamada livre. Precisamos passar do trânsito como suplemento do trabalho ao trânsito como prazer”. (Guy Debord)

Alexandre Nodari em Selva de pedra: a floresta e a cidade

Leia em seguida:
Três coisas que a cultura do automóvel pode ter feito você esquecer

Paulo Brabo @saobrabo

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