O sublime pela via do vulgar: a redenção e o grotesco • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 11 de março de 2014

O sublime pela via do vulgar: a redenção e o grotesco

Estocado em Manuscritos

    La satira esibisce il corpo grottesco, dominato dai bisogni primari (mangiare, bere, defecare, urinare, scopare), per celebrare la vittoria della vita: il sociale e il corporeo sono uniti gioiosamente in qualcosa di indivisibile, universale e benefico.
    Daniele Lutazzi


    Há dois caminhos para a edificação, e apenas um passa pela estrada do sublime. A própria palavra “edificante” é tendenciosa, porque aponta constantemente para o alto, para longe das regiões mais baixas – como se fosse coisa verdadeiramente indesejável que nos víssemos identificados com elas.

    Mesmo aqueles que nunca foram formalmente “educados” encontram nos que foram o apelo eloquente de uma vida elegante e sofisticada – elevada – como caminho para o sublime. O condicionamento cultural é intransigente: o sublime não anda descalço, não fala palavrão, não transpira, não fica bêbado, não arrota, não fala de boca cheia, não cheira mal, não anda pelado, não anda sem camisa, não anda de zíper aberto, não transa drogas, não transa – e acha muito importante viver sem falar dessas coisas, como se elas não existissem, ou como se as pessoas verdadeiramente notáveis fossem imunes a cada uma delas.

    A armadilha, é claro, está em que a estrada do sublime não leva ao sublime, pelo menos não diretamente. A redenção está nos atalhos, em que os atalhos revelam quem somos – e não pode haver engano mais diabólico do que achar que podemos ser redimidos sem chegar a conhecer o que somos: sem chegar a entender de que matéria somos feitos. Como se o verniz e a encenação do sublime – aquilo que Jesus chamava de sepulcros caiados – pudesse nos fazer algum bem.

    Há evidentemente um outro caminho para a edificação, e evidentemente a vida que chamamos de civilizada tem feito tudo – especialmente ao longo do último século – para desacreditar esse caminho e negar a sua legitimidade.

    Falo do caminho do grotesco.

    Quem quer ser “edificado” pede à cultura ferramentas para esquecer a própria humanidade. Esse entorpecente o grotesco não tem como fornecer, porque tudo que o grotesco faz é nos lembrar que somos gente de carne – gente com apetites, com secreções, com falhas e com deformidades.

    O caminho alternativo ao bom-mocismo do homem “educado” é a pública exibição daquilo que, em sua análise da obra de Rabelais, Bakhtin chama de “corpo grotesco”. Num extremo da cultura está o folheto de cordel, no outro está a loja da Apple. O corpo grotesco é a leitura do mundo que não respeita nada e nada esconde. O grotesco anda descalço, fala palavrão, transpira, fica bêbado, arrota, mastiga de boca aberta, cheira mal, anda pelado, anda sem camisa, anda de zíper aberto, transa drogas e transa. É, numa palavra, “relaxado”, e se não respeita convenção alguma é com o propósito de denunciar, como encenação que é, tudo que chamamos de nobre, ideal e sublime.

    O homem civilizado e urbano pede para ser identificado com uma cultura superior que sirva para distingui-lo da massa. O corpo grotesco, por sua vez, usa a carne e a crueza das funções biológicas para lembrar que são precisamente as partes baixas que todos temos em comum. O homem universal é o que peida.

    O homem civilizado gostaria de poder viver na esfera fora do tempo da mente e das ideias, sem ter de se distrair com as funções corporais – especialmente aquelas consideradas “inferiores”, que distraem-no em particular da ideia de eternidade. As funções do corpo inferior – o estômago, os intestinos, o ânus, os órgãos genitais – evocam sem cessar o ciclo de vida e morte das coisas e é por isso, porque são argumento tão inescapável da irmandade dos homens e da superficialidade do orgulho humano, que o grotesco volta sempre a elas.

    É essa crueza do grotesco, sua potencialidade para denunciar e repelir, que torna a cultura popular repulsiva (ou pelo menos gravemente secundária) para a porção sofisticada do homem urbano. No Brasil isso fica emblemado no alto grau de rejeição que recebem no sul e no sudeste do país as manifestações da cultura popular nordestina – que é grotesca por excelência, sendo profundamente calcada em modos literários e estéticos medievais.

    O grotesco é a língua franca do período medieval, e nada me fez entender com maior eloquência a identidade entre essa herança e a brasilidade nordestina do que folhear as catedrais medievais italianas: cordel, meu caro leitor, puro cordel.

    A paixão pelo que existe à margem da cultura sofisticada e urbana é a linguagem da literatura de cordel e a sua razão de ser. O grotesco medieval está na capa, na estética das xilogravuras, nos títulos e nas temáticas: O cavalo que defecava dinheiro, A chegada de Lampião no inferno, O testamento do cachorro, A mulher que deu tabaco na presença do marido, A peleja do cérebro com o coração.

    Não é por acidente que seja esse o modo literário do nordeste: o cordel ilustra um modo subversivo de se ler o mundo, um modo que fala de espaços abertos, temporários e sociais – festas populares, feiras e circos mais do que casas e shoppings.

    Num extremo da cultura está o folheto de cordel, no outro está a loja da Apple. Cada criação da Apple, seja um dispositivo ou um anúncio, fala de um ideal sofisticado, elegante, superior, distinto e sem arestas, que almeja o sublime: sua mensagem é posso estar na mão de poucos. O cordel é anguloso, despretensioso, barato, escatológico, relaxado, inferior, almeja o popular – sua mensagem é posso estar na mão de todos.

    Fora das páginas dos folhetos, essa leitura popular do mundo vive solta em gírias e falares, o modo evocativo e transversal do falar nordestino.

    Alvado, apito, às-de-copas, beiju, berba, boga, bozó, bufante, butico, buzanfan, caneco, cardam, cardam reduzido, chambica, cuelhos, curto-circuito, dema, dentrol, enrugadinho, face-dos-quartos, fevereiro, foba, fogareiro, fonfom, fopa, formiróide, franzidinho, frinfa, frosquete, fruta rara, furico, gobilha, heliodoro, jaca, jacunda, lândrias, malota, mucumbu, muteta, oiti, olhinho-de-palhaço, oveiro, palo, papeiro, parreco, parrecuda, pascovilho, pé-de-rabo, portinha do sim senhor, provarino, quartuda, quincas, rabichola, rabiosque, rubiau de aliás, sedenho, segundo-distrito, severino, sim-senhô, subilutório, sundo, tábua de engomar, taioba, tareco, tarraqueta, terra de ninguém, tóbis, tripa gaiteira, velho quincas, viegas, vintém, zebesquefe, zé bocó, zé-de-obrar e zeferino são, é claro, sinônimos para ânus no Dicionário do Nordeste de Fred Navarro.

    * * *

    Depois de adiar essa vocação por anos, comecei finalmente a leitura formidável de Gargântua e Pantagruel, de François Rabelais (1494-1553), que divide com Cervantes o mérito de ter inventado a novela contemporânea.

    Leio devagar, deixou digerir com um bom vinho, e depois de passar pelos intestinos da interioridade deixo sair um novo capítulo de Os impropérios de Carnivaldo de Bezerros, que é o filho que estou tendo com o francês.

    Os protagonistas de Gargântua e Pantagruel são gigantes, e nisso já fica denunciado (como não escondem as magníficas ilustrações que Gustave Doré fez para o livro) o corpo grotesco como modo literário. Você pode se aproximar do livro como de um livro de aventuras com ecos de fábula, mas vai logo entender que a característica mais contundente de Rabelais é seu compromisso com nada respeitar e nada esconder.

    François Rabelais escreve como o erudito que é, mas seu idioma – sua casa e seu universo – é o grotesco. Seu destino pode ser o sublime, mas seu caminho é todo atalhos. Piadas de duplo sentido, humor escatológico, grosserias, uma obsessão com o que entra no corpo e com o que sai, um olhar sem qualquer julgamento sobre todos os apetites, um hábito de recorrer a citações clássicas e bíblicas sem qualquer respeito pela gravidade dos seus contextos: tudo faz parte de um projeto intransigente de provocação (ou de desconstrução, como diríamos hoje).

    Alguns intérpretes extraíram dessas características – as referências constantes a merdas e disenterias, a paixão pelo que a norma toma como degradante e as constantes provocações a instituições religiosas e políticas – a conclusão de que Rabelais era antes do tempo um ateu e um cínico no modelo dos grandes ranzinzas da nossa era.

    Hoje em dia entende-se que o autor (que foi franciscano e beneditino) se alinha à herança do humanismo cristão, fornecendo a necessária companhia a gente como Erasmo de Rotterdam.

    Trata-se de herança em grande parte perdida, e tomo seu sumiço por muito lamentável, porque o humanismo cristão sustentava que um cristão deve, antes de tudo, não ter ilusões. Como não se dá ao luxo de ter ilusões, o humanista cristão não pode ter medo de ideias novas, ou de submeter as antigas ao crivo da crítica mais inclemente. E a sátira é ferramenta particularmente eficaz no desmantelamento de ilusões, porque denuncia na mesma cacetada aquilo que somos e aquilo que não somos.

    Não é à toa que, apaixonados que somos pela sofisticação e pela cultura “superior”, olhemos com desconfiança a sátira que concentra o seu ataque nos países baixos. O medo que temos do grotesco e do vulgar é o medo que temos do espelho: o pavor de ter denunciada diante de nós mesmos a nossa condição de gente de carne.

    Curioso é que o grotesco que os cristãos de hoje tratam de esconder era universalmente anunciado e visível na era medieval. Longe de esconder o grotesco, a cultura cristã se identificava com ele de modo público e profundo. Os apuros grotescos e “degradantes” da aventura terrena de Jesus – a fome, a sede, a flagelação, o sangue, o suor, as lágrimas, a água que lhe escorreu do flanco – eram celebrados como indicações divinas do sublime na dura experiência dos sentidos.

    Porque, naturalmente, não pode haver nada mais grotesco do que a cruz – como fato, como destino, como estética, como lembrança, como emblema, como aspiração. Nisso insistiu o Apóstolo: o poder da subversão cristã reside em encontrar o sublime no grotesco, em reverter os critérios de valor deste mundo, em encontrar a sabedoria na boca dos que não têm maturidade para sequer controlar as funções do corpo.

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    Paulo Brabo @saobrabo

    Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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