O segundo dia • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 20 de outubro de 2006

O segundo dia

Estocado em História

Lembranças de uma excursão aos Monastérios de Alcobaça e Batalha,
pelo autor de Vathek (William Beckford)

SEGUNDO DIA
4 de junho de 1794

Os raios de sol entrando-me pelas janelas convocaram-me a desfrutar da refrescante brisa matinal que soprava sobre a ininterrupta massa de vegetação que recobre o vale a que pertence o convento.

Após o desjejum caminhei entre as bem-cuidadas plantações, campos de trigo das Índias tão ou mais saudáveis e vigorosos quanto os que jamais floresceram nas ilhas que flutuam como balsas sobre o lago do México, e amplos pomares de laranja, damasco e outros frutos, talvez os maiores de Portugal. Cada polegada de terreno dessa área cercada é utilizada de forma a gerar o maior retorno possível: só as laranjas rendem de sete a oito mil cruzados por ano. Um leigo muito ativo gerencia essa área privilegiada, e está continuamente estendendo seus limites para as colinas nuas dos arredores, muitas das quais estão compreendidas dentro dos domínios dos frades.

O rio Trancão, que corta o jardim, reduz-se nesta estação às dimensões de riacho, mas como riacho é límpido e flui velozmente. Suas margens de rocha, lapidadas em formatos irregulares pelas torrentes de inverno, medram com as flores rosáceas das espirradeiras. O aspecto dessas últimas é incrivelmente belo, sendo que muitos de seus arbustos chegam à altura de quinze ou dezesseis pés.

Juro que engoliríamos, com anzol e tudo.

Porém o maior objeto do mundo vegetal sobre o qual meus olhos já pousaram é um loureiro situado na porção mais fechada do laranjal, acima do qual ergue-se majestosamente, ostentando ramos luxuriantes que cintilam de saúde e vigor. A árvore consiste de cerca de trinta troncos (nenhum dos quais tem menos de dois pés e cerca de trinta e oito polegadas de diâmetro) que brotam de uma única raiz e erguem-se à altura de sessenta e quatro pés. Matei o tempo das horas opressivas do meio-dia da forma mais agradável, sob sua sombra intensa e fragrante.

O Prior havia ordenado uma pescaria para nossa diversão; não mostrou-se no entanto grande diversão, para alguém que abomina ver pobres animais seduzidos de seus lares aquáticos e atirados numa margem seca, onde arfam pela vida e estendem suas mandíbulas em tormento. Inúmeras vezes imaginei que horrendas caretas nós filhos de Adão seríamos forçados a fazer caso os habitantes colossais de um planeta superior, num dia pavoroso de retribuição, passassem pela terra em expedição desportiva e nos pescassem de nosso elemento para seu alimento ou recreação. Não haveria falta de presa naquele dia – muitos iriam morder a isca. Os homens nutrem em geral tão desregrados apetites pelos seus objetos de interesse individual que bastaria tornar a isca suficientemente tentadora e juro que a engoliríamos, com anzol e tudo. Tão poucos de nós estabelecem um limite qualquer para sua voracidade que com eqüidade um tubarão poderia ser escolhido para presidente de uma sociedade de temperança. A cortesia obrigou tanto o Grande Prior quanto o Doutor Erhardt, bem como eu mesmo, a permanecerem por muito mais tempo do que desejaríamos às margens do rio, testemunhando a alegria dos pescadores e a luta dos peixes que expiravam.

Cerca de duas da tarde voltamos para casa pelas umbrosas alamedas de curiosos pés de cidra, colecionados de cada região dos domínios portugueses nesta e na outra margem do oceano, divididas por altas armações cobertas de vinhas – as quais prometem, como toda planta no interior dessa área feliz, produção abundante. Os rouxinóis cantavam em recessos de mata impenetráveis ao sol, e ao mesmo tempo, sinto acrescentar, os sapos coaxavam em timbre profundo a parte do baixo dessa encantadora melodia.

Jantamos tarde a fim de podermos devorar o produto da pescaria preparado pelos próprios pescadores – uma espécie de matelotte [sopa de pescado] que meu famoso Simão, o mais incomparável dos cozinheiros, declarou, com um sorriso do mais inefável desprezo, digno de ser colocado apenas diante de gente morrendo de fome ou de náufragos nalguma ilha deserta. Na fresca da tarde atravessamos o vilarejo de Tojal até o palácio do Patriarca, que não continha nada de muito notável, exceto um vestíbulo com uma tribuna voltada para o interior de uma igreja. As paredes dessa galeria são ladeadas pelos mármores mais finos de Espanha e Portugal, dispostos em painéis e adornados com uma atordoante profusão de ornamentos de bronze duplamente e triplamente trançados, no exato estilo de despesa opulenta levada a tão triunfante excesso por aquele mais magnífico dos Salomões modernos, King John V. Depois de nos vermos refletidos por todos os lados em inumeráveis tábuas de pedra, polidas como espelhos, retornamos ao imenso jardim – o mais plano, o mais rico em flores vermelhas e amarelas e o mais semelhante a um tapete persa de qualquer um que tive o tormento de visitar quer na Holanda quer na Alemanha. Fiquei feliz de poder escapar dessa vasta espansão de pomposidade e tédio e retornar aos bosques simples dos laranjais de meu afável amigo , nos quais caminhei até quase meia-noite ouvindo os rouxinóis, que havia muito tinham constrangido de vergonha os sapos ao silêncio.

Second day

Paulo Brabo @saobrabo

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