O recurso • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 20 de dezembro de 2014

O recurso

Estocado em José Fabro

Era perto do meio-dia mas o peito do homem tinha dentro um sol baixo e dourado no horizonte, um esplendor no ar e uma revoada de pássaros que lhe girava sem cessar o domo do coração. Pousou a mão sobre o peito nu como que para estancar aquela ternura e impedir que lhe roubasse todo o fôlego.

Deitou um peixe sobre a tábua de cortar e neste momento chegou o jegue trazendo o engenheiro Mateus, que pisou o chão agreste intermediado por sapatilhas finas de brocado.

Protegido por um chapéu de couro e pelas dobras de um camisão reluzente e arejado, o engenheiro aproximou-se do homem, descalço que estava, sentado numa saliência da rocha e abrigado do sol pelo arco incompleto do que deveria ter sido um imenso vaso de cerâmica.

– Pescaria?

– Pagamento.

– Esqueço sempre que mestre José não acredita em contante. Que é aquele que desfigura moedas a modo de que não valham mais.

– Larguei mão dessa prática quando entendi que as moedas que restavam no mundo ficavam mais valiosas, pelo rogo da escassez – ele abriu o peixe e começou a limpar. – Considere que minha intenção era lembrar o que não valem, em primeiro lugar.

– Se você soubesse bajular políticos não teria de estar por aí limpando peixe – lembrou o engenheiro.

– Se você soubesse limpar peixe – disse o homem com grande polidez – não teria de estar por aí bajulando políticos.

Içaram diante disso uma trégua de alguns minutos. Nesse meio tempo o homem limpou as mãos na terra branca e num pedaço de couro, e começou a dispor os pedaços de peixe sobre o moquém.

– Posso precisar de você e da sua sociedade nos próximos meses – disse o engenheiro. – Estou querendo ampliar a minha casa.

– Sua casa é já enorme. Um casal, meia dúzia de criados e garanto que nunca se cruzam ali dentro. Podem todos testemunhar que vivem sozinhos e não chegarão a saber que estão em perjúrio.

– Um casal e uma filha. Uma filha.

– Essa não conto porque não passa um ano e é encontrada pelo futuro marido. O engenheiro Mateus e a mulher ficam sozinhos, na casa enorme.

– José meu caro, porque insiste em não entender? Porque não entende o que se requer de um homem da minha posição?

– O senhor se engana, engenheiro Mateus, entendo beníssimo. E não desejo para o meu maior inimigo.

O engenheiro suspirou profundamente e afastou-se dois passos para proteger-se da linha da fumaça.

– A propósito de gente inimiga: na cidade se diz que você prestou uma visita ao comendador Rufino. Em casa sua.

– Certo, estive na casa dele. Não, não tenho inimigos. E não prestei coisa alguma.

– Sobre não ter inimigos, fosse assim simples. Nem sempre cabe a nós essa decisão. Também se diz na cidade que na casa do comendador Rufino o mestre de obras José cuspiu-lhe no rosto.

– Certo, cuspi, mas foi uma deferência a um pedido dele, e não estava ligado diretamente ao motivo da minha visita.

O engenheiro se contorceu com sincera angústia.

– Mas o quê, é estúpido? Um homem da estatura dele! Meu caro, nem tudo deve ser histórias pitorescas para se contar aos aprendizes! Ultrapassado um certo limite, ser excêntrico deixa de ser uma credencial.

– Quando entrei o comendador me disse para não cuspir em casa sua, que era tudo muito elegante e suntuoso e não se devia arruinar. A ideia não tinha me passado pela cabeça, mas assim que nos vimos a sós me veio a vontade e cuspi no rosto dele.

– Você é um morto entre os vivos, veramente! E em seguida?

– Ele perguntou por que eu lhe tinha cuspido no rosto. Eu disse que não tinha encontrado em casa sua recipiente mais ordinário. Em que me aliviar, entendido?

– O senhor claramente não tem amor à vida, mestre José: isso já é coisa batida e rebatida. Mas que diz da vida da sua mulher? Do seu filho? Seu filho ainda não tem dez anos e você já lhe deixou herança: um nome esmerdalhado.

– Eles não têm medo de nada.

– Suponho que também não tenham medo de passar fome, diante da impossibilidade de que voltem a encontrar trabalho nestas paragens.

– Uma pessoa livre tem a vida eterna – esclareceu o homem, ensaiando virar os pedaços de peixe com um ramo de alecrim.

– E terá uma eternidade para lamentar os erros que cometeu livremente, é o que vejo eu. É o que vejo eu.

Sendo que o peixe ainda não começara a dourar, o homem alinhou o ramo de alecrim sobre o assado e reclinou-se contra a parede de rocha atrás de si.

– Eu não escondi do comendador o motivo da minha visita, eu. – ele disse. – Por que um homem da sua estatura me sonega a gentileza de me dizer o seu?

O engenheiro lhe deu as costas várias vezes, como se ponderasse a possibilidade de ir embora, antes de se aproximar e acocorar-se diante do homem, protegendo as mãos como quem está diante de um leproso ou de um cão sarnento.

– Sua visita ao comendador também me diz respeito.

– Entendi isso assim que você desmontou daquele jegue.

– Na sua versão do que é bom e íntegro neste mundo, o que lhe dá o direito de chantagear o comendador?

– Não chantageio ninguém. Minha visita foi fundamentada na minha visão do que é bom e íntegro neste mundo. Nesse mundo gente poderosa como o comendador não se rebaixa a roubar as terras de gente sem voz e sem defesa; gente que não tem, ao contrário dele, outras reservas e fontes de renda.

– E quem lhe designou defensor dos injustiçados? Quem lhe deu magistratura?

– Aqueles que você chama de injustiçados estão muito bem. Têm uns aos outros e têm tudo. Se eu estava tentando proteger alguém é ao próprio comendador. Quem trata os outros como menos que gente acaba no processo se tornando menos que gente. Desfigurar é desfigurante. Não há homem tão perdido que não mereça ser convidado a largar mão dessa vida.

– O comendador tem contatos na capital. Ceia quando quer na casa do questor. Você o que tem?

– Quem vive exibindo estabilidade está exibindo sem saber o quanto é precário o seu modo de vida.

O engenheiro levantou-se com uma exasperação do corpo, como quem desiste de ensinar a uma criança o procedimento mais simples.

– O seu modo de vida não seria precário, é isso?

O homem decidiu que era hora de virar os peixes sobre o moquém, e de salpicá-los com avelãs que tinha triturado na pedra.

– Rico é quem não precisa de nada, engenheiro Mateus.

– Repita isso quantas vezes for necessário, até acreditar – disse o engenheiro. – Até que acreditem os seus aprendizes.

Redisposto o assado sobre a grelha, o homem levantou-se também, e não ficou claro se o fazia para esticar as pernas ou para exibir ele mesmo poder. O homem sem camisa tomou a mão do engenheiro com uma mão de dedos incrivelmente grandes, rijos e bem formados.

– Deixe-me ajudá-lo a montar no seu jumento. A não ser que queira almoçar com a gente; se não erro aqueles três ou quatro pontinhos no horizonte são minha família chegando.

– Agradeço – disse o engenheiro, recolhendo a mão.

E fez menção de partir.

– Deixe-me só dizer no claro o que você seguramente já sabe – o homem falava com ternura sincera. – Não fui à casa do comendador Rufino para chantageá-lo.

– Sei disso.

– Não sei o que o comendador concluiu que eu sabia, mas às vezes o universo encontra modo de corrigir-se sem intervenção. Gente condenável não cessa talvez de condenar a si mesma. Só depois, e isso é importante que você entenda, entendi os processos mentais que levaram o homem a voltar atrás, e que já estavam em andamento durante a minha visita. Fui ingênuo o bastante para acreditar que ele estava sendo apenas grande.

– Estou seguro que você não vai voltar a ser ingênuo desse modo.

– Esteja seguro.

– E o que leva a crer que saindo daqui eu não vá até o comendador denunciar o que acabamos de conversar?

– Aquilo que eu não sabia sobre o comendador, sobre sua senhoria eu sei. E você nunca vai acreditar que não vou usá-lo contra sua pessoa.

O engenheiro montou no jumento recusando qualquer ajuda.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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