O que o passado tem em comum com o sagrado • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 06 de abril de 2015

O que o passado tem em comum com o sagrado

Estocado em Manuscritos

A internet, que tem todo motivo para querer me irritar, entregou-me semana passada um artigo de Elliott Colla, professor de literatura árabe na Universidade de Georgetown, que procura imprimir uma nova perspectiva à recente destruição de sítios históricos e de artefatos de museu por parte do Estado Islâmico.

Pode-se dizer que a maior parte das elites do Ocidente tende a pensar em artefatos históricos em termos do sagrado. Podemos não chamar de “santas” as coisas que colecionam os museus, mas são sacrossantas em nossas mentes. Isso fica evidenciado pelo modo como são apresentadas (literalmente no alto de pedestais e reverentemente iluminadas) e pelo modo como buscamos preservá-las e protegê-las.

Não foi sempre assim. As pessoas costumavam venerar objetos como sagrados não com base em gosto artístico ou valor científico, mas porque vinham ligados a alguma coisa tida como sagrada – uma pessoa, um santo, um profeta, um evento. No passado não existia o conceito de um objeto venerado universalmente – pelo simples motivo que, por exemplo, enquanto os cristãos podiam venerar objetos que pertenciam a suas narrativas do divino, judeus e muçulmanos veneravam objetos que diziam respeito às suas narrativas. Reside aqui a diferença entre o nosso presente e o nosso passado. O valor sagrado de objetos venerados no período pré-moderno era entendido como particular, não universal.

Essa introdução, que tomo por inteiramente lúcida, introduz o argumento central, que é deficiente.

Em contraste, insiste-se que o valor sagrado de um artefato de museu é universal. Pode-se afirmá-lo com argumentos científicos e objetivos – de valor histórico – ou estéticos, mas não importa como é feito, a alegação é de um valor universal. Trata-se além disso de uma alegação absolutista, visto que se insiste que quem discorda desse modo de ver as coisas é inculto, sem cultura e provavelmente um selvagem. Uma igreja jamais insistiu que seus objetos de adoração fossem venerados por crentes de outras religiões, mas é exatamente isso o que os museus pedem de nós no período moderno.

Não é a afirmação central que é deficiente – a ideia que a cultura do museu pede que atribuamos valor universal a artefatos históricos. Deficiente é a sua compreensão das bases que a cultura do museu apresenta para justificar esse pedido.

A pegada do artigo de Colla o meu leitor já terá intuído: o pessoal do Estado Islâmico tem a sua religião, nós ocidentais temos a nossa, e a nossa religião é a veneração ao passado. Se para nós parece arbitrário e profano que os adeptos do Estado Islâmico destruam artefatos históricos, para eles parece arbitrário e profano que alguém os venere como nós fazemos. Colla pede, essencialmente, que concedamos ao momento uma perspectiva mais ampla e menos tendenciosa. Qual é a diferença, ele pergunta na conclusão do artigo, entre os iconoclastas do Estado Islâmico e os americanos que derrubaram as estátuas de Saddam Hussein por ocasião da ocupação do Iraque?

Tudo isso eu poderia suportar, ainda porque há nessas ressalvas uma parcela não pequena de verdade 1Embora seja muito mais acurado dizer que a religião da modernidade ocidental é a ciência (ou o capitalismo!), não o passado. Se fosse o passado eu estaria muito mais contente..

A falha de Colla está em fingir que o valor de uma antiguidade está fundamentado nas bases limitadas de “gosto artístico ou valor científico”. A verdade é que o imperativo da preservação do passado, precisamente como o da preservação da biodiversidade, não está ancorado a questões utilitaristas ou científicas, sentimentais ou estéticas. Esta é por certo uma reivindicação absolutista, como afirma Colla, mas não pelos motivos que ele apresenta 2Naturalmente o próprio professor Colla reconhece e afirma o valor absoluto do passado, quando diz coisas como “não foi sempre assim” e “no passado não existia o conceito de”. Seu artigo contém nesse sentido sua própria refutação..

Um artefato antigo, do mesmo modo que uma espécie de animal ou planta, “deve” ser preservado não pelo que pode nos ensinar, pelo lucro que nos pode prover ou pelo prazer que pode nos oferecer contemplá-lo – mas por ser simplesmente a coisa insubstituível que é. Na verdade, até desse “insubstituível” devemos aprender a prescindir: deve ser preservada pela coisa que é, e nenhuma outra explicação é necessária. Seu caráter sagrado está fundamentado na sua singularidade – e nisso só há apenas continuidade, e não rompimento, entre os conceitos passado e presente daquilo que os homens devem considerar sagrado. As ideias de singularidade e de distinção estão na própria origem semântica da palavra santo.

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. Embora seja muito mais acurado dizer que a religião da modernidade ocidental é a ciência (ou o capitalismo!), não o passado. Se fosse o passado eu estaria muito mais contente.
2. Naturalmente o próprio professor Colla reconhece e afirma o valor absoluto do passado, quando diz coisas como “não foi sempre assim” e “no passado não existia o conceito de”. Seu artigo contém nesse sentido sua própria refutação.
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