O que há de errado (e de bom) no capitalismo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 07 de junho de 2014

O que há de errado (e de bom) no capitalismo

Estocado em Manuscritos

Esta é a parte 5 de 6 da série Entre a riqueza e a justiça

Foto: Alexey Titarenko

O trajeto usual é este: quem se aproxima do socialismo é porque sente que há algo de errado com o capitalismo.

Como neste mundo o capitalismo é praticamente tudo que existe, é relativamente raro que as pessoas enxerguem no sistema (que é o seu mundo) falhas que as levem a concluir que o sistema precisa ser revisto ou substituído. Essa infrequência tem diversos motivos, mas deve-se antes de tudo à profundidade das transformações que o regime capitalista produziu no rastro da sua ascensão.

O capitalismo existiu em regime embrionário em todas as gerações dos homens, mas foi por milênios contido por restrições técnicas, morais e religiosas. O empréstimo de dinheiro a juros, por exemplo, é essencial para o funcionamento do capitalismo e indistinguível dele, mas foi considerado imoral na Europa católica por mais mil anos. Para nascer o capitalismo teve que esperar que a Reforma Protestante imprimisse à usura a divina credencial.

Para deslanchar o potencial represado da sua visão de mundo o capitalismo só teve de aguardar o solevamento das últimas restrições, aquelas tecnológicas, à sua ascensão. A Revolução Industrial resolveria esse problema para sempre.

Todos os poderes têm algum potencial equalizador. Todos podem ser usados em alguma medida para promover a justiça, até o momento em que não. Nos cem anos entre 1850 e 1950 o capitalismo exerceu formidavelmente o potencial equalizador do seu poder.

A face boa do capitalismo: um mundo menos desigual

O sucesso da evangelização capitalista reside em grande parte na singeleza da sua boa nova: se quiser, caro leitor e ouvinte, você pode ficar rico. Todas as restrições que trabalhavam para impedi-lo de beneficiar-se do seu potencial foram abolidas.

A enorme distância cultural que separa 1850 de 1950 é explicada pelo sucesso universal dessa ideia.

A um mundo cansado de se curvar diante de artificialidades e de sustentar a sua perpetuação, a Revolução Francesa já havia articulado o sonho equalizador de igualdade, liberdade e fraternidade. Porém a Revolução Industrial acenou com uma promessa de justiça embasada na realidade e não na poesia. A vitória da indústria parecia estabelecer um poder democrático por natureza, um poder que acabaria se transferindo naturalmente para a mão dos mais capazes e mais merecedores: a posse do capital.

Colocado em movimento, o capitalismo começou a demolir imediatamente distinções entre as pessoas que haviam permanecido por milênios fixas e indiscutidas. A mobilidade social demonstrou que o tratamento preferencial que a sociedade dispensava a determinadas classes, e que todos agiam como se fosse coisa natural, era na verdade uma invenção conveniente, uma farsa contada de modo a manter intatas as estruturas de dominação.

Pouco a pouco todas as classes de pessoas foram sendo entendidas como livres e iguais – nobres e pobres, homens e mulheres, ex-escravos e professores, negros e brancos, cidadãos e estrangeiros, açougueiros e pastores. Ninguém podia se dar ao luxo de considerar-se melhor do que ninguém, porque as oportunidades do mercado estendiam-se democraticamente diante de todos.

Com essa mensagem e o imenso lastro da sua vocação ao sucesso, o capitalismo serviu para desmascarar mundo afora forjaduras e ideologias que tinham estado em vigor por milênios. O mundo finalmente entendeu que os critérios que garantiam poderes e privilégios aos reis, aos nobres e aos sacerdotes eram inteiramente arbitrários, méritos imputados a eles sem nenhum fundamento correspondente na realidade.

A eficácia com que o capitalismo denunciou e desarmou as ideologias de dominação que prevaleciam antes dele é lembrada com frequência pelos seus defensores. Quaisquer injustiças de que o capitalismo seja culpado nos nossos dias, insistem eles, não são para comparar com as injustiças do mundo que havia antes.

A outra face do capitalismo: um mundo cada vez mais igual – e cada vez mais desigual

O sucesso do capitalismo parece mais formidável na medida em que ignoramos que ele se fundamenta em promissórias que são cobradas das gerações futuras – ou de gerações presentes que estão distantes do nosso olhar. Grande parte das reservas levantadas contra o capitalismo nascem precisamente da sua eficácia em vencer culturas competidoras e abafar a voz dos seus críticos. Alguns de nós entendem que nenhuma ideia humana deveria ter cacife para apagar da competição todas as outras, mas é precisamente essa a pegada e o efeito do capitalismo.

► o capitalismo é uma monocultura

O apelo de narrativas de fantasia como O Senhor dos Anéis e Game of Thrones reside em grande parte nisto: são histórias que falam de mundos em que subsistem, colaboram e competem uma diversidade de culturas, enquanto o nosso próprio mundo se mostra cada vez mais uma cultura única.

A ideologia capitalista parte do pressuposto de que não importa o seu sexo, idade, religião, tradição nacional, bagagem cultural ou preferência pessoal, você irá desejar a mesma coisa – o mesmo preciso modo de vida – que os demais bilhões de habitantes do planeta. Não importa se você nasceu no sertão do nordeste, numa várzea fértil da Índia, num vale remoto da Itália, numa cidade litorânea da Austrália, num vilarejo do Iraque ou numa aldeia pendurada no Himalaia ou nos Apeninos: você vai sentir a irresistível vocação de deslocar-se para uma escola, para uma fábrica, para um cubículo, para uma sala de reuniões, para um condomínio fechado, para um escritório envidraçado num edifício moderníssimo – o que for mais compensador ou mais rápido.

Você vai querer a liberdade de ter as mesmas máquinas, assinar os mesmos serviços, pagar pelas mesmas atualizações, reclamar das mesmas ninharias: ter no bolso um retângulo cujo mágica se compare à do retângulo do seu colega, e em casa uma tela maior.

O sistema tem mecanismos de controle e não vai permitir que você se sinta completo ou realizado se não se conformar ao perfil urbano, a um modo de vida que lhe permita consumir o que desejam consumir todos que habitam a cidade com você. Dica: você não vai querer ser agricultor, pintor de carrocerias de caminhão, fabricante de cestos ou pastor de ovelhas. Entre outras coisas, você não conseguiria conviver com o sentimento de inadequação. O capitalismo lhe terá convencido de que para alcançar o status de pessoa única será necessário você se conformar ao que fazem todos.

► o capitalismo elimina culturas e modos de vida

O capitalismo de mercado está tão convicto de seu status de solução universal para todas as sociedades que não pausa um instante sequer para lamentar a perda, ao redor do mundo, de uma infinidade de culturas e modos de fazer que o seu avanço eliminou ou colocou em grave risco de extinção.

A lista de culturas riscadas do mapa pelo capitalismo é longa demais para ser resumida, mas são extinções com muitos aspectos em comum. Jovens do interior são confiscados para os grandes centros em busca do batismo expiatório das escolas, sem o qual estarão todos condenados à inadequação. Pequenos produtores só conseguirão comercializar a sua produção se se dobrarem às exigências dos grandes conglomerados (ou só conseguirão sobreviver vendendo a esses conglomerados as suas propriedades). As tradições de vilas, cidades remotas e comunidades rurais morrem gradualmente, perdendo a vida e a cor pela transfusão sem volta dos mais jovens para as metrópoles.

Vocações e modos de vida pacatos e idealistas – franciscanos, freiras, monges budistas, pastores de ovelhas, pescadores, alfaiates, sapateiros, tipógrafos, serralheiros, lavradores, pequenos comerciantes locais e artesãos de toda a sorte – mínguam sem sucessores e sem que ninguém entenda o fascínio e o subversivo prestígio que já representaram.

► o capitalismo se apropria das imagens das culturas que eliminou

Em A sociedade do espetáculo (1967) Guy Debord aponta que o regime capitalista reduziu a experiência à contemplação de uma sucessão de imagens: “tudo que era antes vivido diretamente tornou-se mera representação. A vida real é absorvida materialmente pela contemplação do espetáculo, e acaba alinhando-se a ela”.

O capitalismo se apropria das imagens das culturas que eliminou, expondo-as e beneficiando-se delas como se ainda existissem. As embalagens de leite e de suco de laranja mostram imagens de casas e trabalhadores rurais inteiramente integrados na natureza – emblemas de modos de vida que a própria conveniência da produção em massa e das embalagens longa-vida tornou inviáveis e eliminou da existência. O capitalismo ignora esse paradoxo como ignora todos os demais, limitando-se a endossar com descaramento e sem pausa todas as farsas que as imagens que sequestrou ajudam a sustentar.

O World Showcase do parque Epcot, da Disney, é um mundo em miniatura: uma sucessão literal e pronta para o consumo de “imagens significativas” de onze países, entre os quais estão China, Itália, França, Marrocos e Canadá.

Mas o World Showcase é também uma miniatura do mundo, porque em todo lugar o capitalismo exige que consumamos a imagem de uma cultura ao invés de nos submetermos, no confronto com outra cultura, a um encontro com o Outro. Não só você consome a imagem de Veneza e de Paris no parque da Disney; na Veneza e da Paris da vida real você não espera consumir mais do que um parque: não uma cultura, mas imagens e encontros imaginários em sucessão. Consumo e representação em lugar de assimilação, confronto e crescimento.

► o capitalismo aliena o trabalhador de tudo que diz respeito ao trabalho

A ideia de que o capitalismo produz alienação – um distanciamento entre o homem e a porção mais essencial de si mesmo – é fundamental na crítica de Marx.

A linha de produção afasta o trabalhador do produto do seu trabalho, visto que o que cada um vê é sua participação limitada – seu girar do parafuso – num processo maior do que ele e sobre o qual ele não tem controle. Trabalho numa fábrica de automóveis e não tenho um.

Porém o capitalismo gera todo um leque de relações humanas sobre as quais o trabalhador não tem qualquer controle. Marx está particularmente preocupado com as consequências desumanizantes da renúncia, por parte do proletário, de sua capacidade de autodeterminação.

O regime capitalista requer que o trabalhador deixe de agir como entidade autônoma, capaz de determinar o seu destino, e passe a operar como entidade econômica, uma ferramenta/engrenagem da qual o capitalista dispõe como bem entende. Essa transação é desumanizante, antes de tudo porque ninguém ignora que o capitalista deseja extrair do trabalhador o máximo de produção pelo mínimo de reconhecimento: sua sobrevivência no sistema depende da sua capacidade de manter artificialmente essa distância.

Isso num sistema em que todos os componentes, não importa em que patamar se encontrem, sabem-se descartáveis e sentem-se portanto desumanizados. O capitalista está competindo com outros capitalistas, o trabalhador está competindo com outros que podem querer o seu lugar.

Marx:

Suponhamos agora que tivéssemos executado a produção como seres humanos. Cada um de nós teria, de dois modos, afirmado a si mesmo e à outra pessoa. [1] Em minha produção eu teria objetificado a minha individualidade, seu caráter específico, e teria portanto desfrutado não só de uma manifestação individual da minha vida durante a atividade, mas também, olhando para o objeto, teria o prazer individual de saber que minha personalidade é algo objetivo, visível aos sentidos, e portanto um poder além de qualquer dúvida. [2] Quando você estivesse usufruindo ou utilizando o meu produto eu teria o prazer direto tanto da consciência de ter com meu trabalho satisfeito uma necessidade humana, ou seja, de ter objetificado a natureza essencial do homem, quanto o de ter criado um objeto correspondente à necessidade da natureza essencial de uma outra pessoa. Nossos produtos seriam desse modo muitos espelhos nos quais veríamos refletida nossa natureza essencial.

O seu smartfone é uma maravilha do mundo. Porém quem quer pirâmides tem de suportar escravos.

► o capitalismo mantém fora do nosso campo de visão as injustiças mais brutais do sistema

Em uma de suas sacadas mais brilhantes, o capitalismo toma providências para que não tenhamos de testemunhar gente sendo explorada na confecção do produto que estamos consumindo.

Foi assim desde o início: os primeiros consumidores modernos já compravam os primeiros produtos industrializados sem ter de saber que as condições de trabalho das fábricas estava longe do ideal.

Esse sistema de desvio de atenção, no entanto, só alcançou a perfeição numa economia globalizada.

Não se iluda: em qualquer era dos homens o seu smartfone (que você não vê a hora de trocar) seria considerado uma maravilha do mundo, digna de peregrinação e de assombro. Porém quem quer pirâmides tem de suportar escravos. O capitalismo apenas tomou cuidado para que você não tenha de testemunhar as condições de trabalho dos seus.

Os escravos que correspondem à sua parcela de consumo estão com toda a probabilidade confinados em alguma fábrica da China. Para sua conveniência, daqui você não tem de testemunhar a dureza das condições em que foi montado o seu smartfone ou o seu roteador wireless.

Essa distância entre o local idealizado de consumo e um local de produção longe do ideal é ela mesma uma forma de alienação. Nesse caso é o consumidor que se permite desumanizar, rebaixando-se a aceitar uma farsa que só um acordo mútuo e silencioso de vista grossa permite subsistir (para mais sobre o assunto, leia O comprimento das cadeias).

Num mundo globalizado, fica esta regra: se você pode comprar, alguém está pagando, e não é você.

► o capitalismo requer cada vez mais energia

Quando se reduz a economia à sua formulação mais simples, riqueza e consumo de energia são a mesma coisa. O capitalismo é uma máquina peculiar que só funciona enquanto cresce: os seus custos de manutenção só são cobertos enquanto mais consumo é artificialmente gerado (através de novos consumidores, novos produtos ou do seu aumento de consumo).

Para que haja manutenção de riqueza é necessário que haja consumo de energia crescente: em outras palavras, o capitalismo requer que queimemos de comum acordo uma parcela cada vez maior dos recursos da Terra na forja capitalista.

Num mundo esférico é só de má fé que gente informada ousa colocar juntas palavras como “crescimento” e “sustentável”. A descaracterização da paisagem e o holocausto das espécies não são efeitos indesejados de algumas formas perversas e irresponsáveis de capitalismo; são o projeto e o combustível de todas.

Embora as consequências inevitáveis desse tráfico estejam se tornando cada vez mais difíceis de ocultar, esta pode ser contada como outra das instâncias em que as injustiças mais graves do regime capitalista são mantidas fora do nosso campo de visão. Somente as gerações futuras poderão avaliar o custo total da nossa imprevidência presente; entre outras coisas, porque serão elas que terão de pagar os compromissos que estamos assinando agora.

► o capitalismo derrubou valores que eram sustentados artificialmente, mas opera a partir do seu: o progresso

É inegável que a ascensão do capital denunciou e anulou valores que eram tidos como legítimos mas hoje entendemos como arbitrários e artificiais. Hoje a nenhuma pessoa sensata ocorreria sustentar o direito divino dos reis, os privilégios inerentes da nobreza ou a superioridade moral ou intelectual de sexo, raça, origem, crença, nascimento ou sangue.

O capitalismo contribui para anular o efeito desses mecanismos de dominação, mas colocou em operação o seu, tão arbitrário e artificial quanto aqueles que derrubou: a crença no progresso.

Cremos no mérito inerente do desenvolvimento do mesmo modo que as gerações que nos precederam criam no mérito da raça, e, como elas, permanecemos ignorantes de que estamos sendo manipulados por uma farsa sem fundo, sem mensurabilidade e sem prestação de contas.

Bruce Sterling:

Os sucessos do progresso tornam-se problemas espinhosos para a geração seguinte: não permanecem permanentemente “melhores”. Nossos juízos de valor sobre o que é melhor são temporários, inteiramente limitados à nossa perspectiva no tempo. Não existe um “melhorômetro”; ninguém tem como medir a extensão, a amplitude e a duração de uma “melhoria”. Melhor é um juízo abstrato de valor, não uma qualidade científica; não pode ser testado experimentalmente. Ninguém sabe o que é melhor; na verdade, ninguém sabe o que é pior. É tremenda ingenuidade acreditar que cada desdobramento tecnológico é necessariamente um avanço.

O que é o progresso? Quando acaba? Como se pode medi-lo? Quem decide quando basta? Como determinar os seus méritos? Quais são as alternativas? A quem devemos pedir desculpas se estávamos errados? Devemos proteger do progresso algumas partes do mundo? Se sim, porque não proteger dele o mundo inteiro?

A crença no progresso justifica qualquer extinção, qualquer desapropriação, qualquer descaracterização, precisamente como o pretexto invisível da “conversão do mundo” justificou todos os abusos, apropriações, genocídios e devastações abençoados historicamente pela cristandade.

É uma forja, e é universal.

► o capitalismo faz o trabalhador desejar a própria opressão

O ideário capitalista depende fortemente e promove sem pausa o excepcionalismo, a ideia simples mas irresistível de que com você será diferente. É a mesma promessa que alimenta a máquina das loterias, mas depende nesse caso de uma manifestação particular da falsa consciência: a crença de que a sua agência bastará para alçá-lo da sua presente condição.

Como resultado, você é convidado a não ressentir-se pessoalmente da carga opressiva do sistema, e a crer que as penas e maltratos servirão para filtrar os outros e permitir que você se destaque. Você chega a desejar para os outros e para si mesmo o fogo da opressão, da cobrança e da competitividade, porque acredita que ele o ajudará a demonstrar o seu valor.

Como notou Wilhelm Reich (e depois dele Foucault e Deleuze/Guatari), o desejo pela própria opressão é típico dos modos desumanizantes de operação dos regimes fascitas. Reich:

A coisa assombrosa não é que alguns de vez em quando roubem ou que outros entrem ocasionalmente em greve, mas que os que passam fome não roubem todos como prática habitual, e que os que são explorados não permaneçam todos em greve continuamente. Depois de séculos de exploração, por que as pessoas ainda toleram ser humilhadas e escravizadas, ao ponto de desejarem a humilhação e a escravidão não só para os outros mas para si mesmas?

► o capitalismo canibaliza os seus críticos e sequestra o discurso revolucionário

Mais esta regra: não há nada que o capitalismo não possa reverter em seu favor. Não há crítica ao capitalismo que não possa ser usada para agregar valor a uma camiseta, não há figura revolucionária que não possa ter a sua imagem sequestrada numa campanha de publicidade.

A postura da Apple é nesse sentido exemplar. A empresa apropriou-se desde o início do discurso revolucionário, equiparando o consumo dos seus produtos a um processo subversivo e civilizatório desencadeado por uma elite de rebeldes, inconformados, criativos e lúcidos.

O comercial de lançamento do Macintosh, “1984”, usava imagens sugeridas pelo pesadelo fascista do livro de George Orwell para sugerir que adquirir o novo produto equivalia a um ato de bravura, um definido engajamento na luta contra o conformismo.

A apropriação está presente de maneira ainda mais constrangedora na campanha Think different/Pense diferente, de 1997. “Um viva para os malucos, os rebeldes, os inconformados”, dizia a narração do comercial, um dos mais famosos da história da propaganda. E concluía: “Porque aqueles que são malucos o bastante para achar que podem mudar o mundo são aqueles que o acabam mudando”. A sugestão, nada sutil e nada fundamentada, era que consumir os produtos da Apple equivalia a assumir a postura revolucionária de gente como Martin Luther King, Albert Einstein, Thomas Edison, John Lennon, Pablo Picasso, Mahatma Gandhi (GANDHI, meu amigo) – figuras cujas as imagens o comercial sequestrou para endossar aquilo que jamais endossariam.

Não foi a primeira vez e não será a última.

► o capitalismo não admite alternativas

O economista Francis Fukuyama opinou famosamente que o capitalismo neoliberal é uma ideia tão boa e irretocável que simplesmente não tem como ser substituída: nem agora, nem nunca.

Esse sentimento de superioridade moral se traduz numa feroz combatividade dirigida contra ideias competidoras, quer sejam reais ou imaginadas. O proponente do capitalismo (direita, estou falando com você) não irá admitir a mínima sugestão de que o seu sistema pode ser aperfeiçoado ou corrigido, quanto menos substituído.

O homem de direita vê a si mesmo como inflexível defensor da liberdade, e irá responder a qualquer crítica com o argumento de que a liberdade não tem como ser aperfeiçoada. Todos os ajustes que você propuser para conter os destemperos do capitalismo – taxações, impostos, regulamentação de mercado, escolas públicas, assistência e previdência social, distribuição de renda, leis trabalhistas, áreas de preservação – o partidário da direita entenderá como estorvos inadmissíveis colocados no caminho da liberdade.

Em particular, o partidário da direita procurará desacreditar cada uma dessas noções como “comunistas”, ao ponto do mais insensato reducionismo. Como a história não cessa de demonstrar, a direita tentará denunciar como comunismo qualquer postura que por algum capricho não aprove, mesmo aquelas sem qualquer relação com a teoria ou a prática do comunismo (por exemplo, mulheres de cabelos curtos ou o casamento inter-racial).

► o capitalismo é inescapável

“Para onde fugirei do teu espírito? Para onde me afastarei da tua presença?”, espantou-se o Salmo 139 (vv.7-8), e o que dizia da divina presença aplica-se sem ajuste ao espírito da nossa época. “Se eu subir ao céu, lá tu estás; se fizer a minha cama no inferno, tu estarás lá também”.

Se eu for à China, lá encontrarei um MacDonald’s. Se for a Teotihuacán, lá encontrarei um Walmart. No fundo do oceano e na montanha mais alta encontrarei a mesma garrafa de plástico, e não importa onde for perderei imediatamente a paciência se não tiver acesso a wi-fi.

Viver à margem da cultura dominante teve desde sempre os seus custos sociais, mas antes da nossa era ninguém teve de conhecer os custos de resistir a uma monocultura verdadeiramente global. Fazendeiros urbanos como o Claudio Oliver e seus companheiros, ou proprietários rurais como o João Frischenbruder de Urubici, têm de enfrentar um rosário infindável de obstáculos, que se renovam a cada manhã, no esforço de manter sustentável uma vida que dependa apenas parcialmente da máquina capitalista.

Querida Apple: os malucos, os rebeldes e os inconformados são os caras que nunca cairiam na sua conversa.

► o capitalismo pressupõe um desejo uniforme

O mundo já conheceu monoculturas, mas nenhuma foi arrogante ao ponto de pressupor um desejo perfeitamente uniforme – nem mesmo, incrivelmente, o cristianismo, que postulava como inevitável uma parcela de oposição.

Os Estados Unidos, seus embaixadores na Terra, entendem o avanço do capitalismo como parte de um grande, magnânimo e planetário processo civilizatório. Trata-se da graciosa disseminação de um modo de vida pelo qual todas as civilizações e culturas anseiam mesmo sem saber.

Os evangelistas do capital tomam por inconcebível que os habitantes do Iraque, de Cuba, da floresta amazônica ou da estepe africana não desejem uniformemente ser “liberados” para o modo de vida capitalista. O muçulmano radical quer secretamente vestir Hugo Boss, o monge budista quer secretamente o último modelo do iPhone, a madre superiora quer secretamente uma bolsa LV, o cubano quer abertamente afundar-se em McNuggets – porque quem não iria desejar algo que é inerentemente desejável?

Demorei a entender a frequência e a ênfase com que meu amigo Daniel Oudshoorn acusa o capitalismo de “disciplinar o desejo”. Por certo o capitalismo pode ser acusado de coisas mais graves, não?

Gradualmente fui entendendo que não, não pode. O regime capitalista não tem como ter feito coisa mais perversa e prejudicial do que uniformizado o desejo. Dessa sua arrogância essencial nascem todas as outras.

Levei Georges Bataille para a cama, e o erro em disciplinar o desejo agora me parece mais do que evidente. O desejo, meu amigo, deve ser mantido absolutamente livre e indisciplinado, uma metralhadora absolutamente giratória, produzindo todo o tipo de heterogeneidade pessoal, cultural e nacional. Um mundo equilibrado é um mundo em que grupos inteiros de pessoas escolhem modos de vida que você absolutamente não tem como entender. Um mundo de uma variedade atordoante, obscena, inclassificável, impossível de tabular: precisamente uma pintura de Bruegel.

O pastor de ovelhas deve poder desejar ser pastor de ovelhas, o açougueiro deve poder desejar ser açougueiro, o lavrador deve poder desejar ser lavrador. O monge budista e a freira devem desejar uma vida frugal, Gandhi deve desejar tecer as próprias roupas, o Claudio Oliver e o profeta do Rio dos Cedros devem desejar que o capitalismo não seja inescapável e devem agir em conformidade com essa sua insensatez. Que muitos outros desejem renúncias, desvarios, poetices, festivais, encenações, tatuagens de henna, folias, imprudências, pinturas de areia, rodas de oração, pelejas de repente, danças circulares, muros de lamentação, ídolos de manteiga, xilogravuras, peregrinações, desvios de rota, poesia sufi e toda sorte de tradições que não terei jamais como compreender.

Uma dada viagem de elevador deve ter em média um executivo, um pai de santo, um budista, um nudista, um muçulmano, um repentista e um rei momo. Pelo menos metade da população urbana deve escolher andar descalça, especialmente os que trabalham de terno e gravata.

Rios e rios de pessoas, grossas e irresistíveis torrentes humanas nas cidades e nos sertões, devem poder desejar o ócio em vez da autorrealização, preferir a preguiça à produtividade. Sociedades inteiras devem ser livres para zombar do capitalismo, e outras sociedades devem zombar dessas, tomando suas respostas ao capitalismo como absolutamente toscas e insuficientes.

Fábricas não devem apagar monastérios, praias de nudismo não devem apagar tipografias, companhias de ópera não devem apagar acampamentos de ciganos, direitas não devem apagar esquerdas, protestantes não devem apagar católicos. Meu Deus, viva a diversidade, porque o que permanece variado permanece impossível de controlar e de submeter. Diversidade é despoder.

Nem mesmo o capitalismo, essa merda imensa e crescente, rotatória e fractal, precisa ser apagado por completo da prática ou da memória. Basta que a criatividade humana ou alguma bem-aventurada crise (porque há pouca diferença) trabalhem para desafiar e vencer a sua obscena supremacia.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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