O projeto da cidade universal • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 11 de julho de 2015

O projeto da cidade universal

Estocado em Goiabas Roubadas

Alexandre Nodari

Assim talvez se compreenda melhor porque Hobbes sublinha a “sabedoria” de uma afirmação de Pôncio Telesino, segundo a qual a cidade estaria sempre ameaçada por lobos e depredadores de sua liberdade, a menos que as florestas em que estes se alojam fossem “arrancadas pela raiz”. A floresta apresenta-se, portanto, como exterioridade à cidade (Estado), habitat do silvaticus, do selvagem (o Fora da floresta é também um fora da condição civilizada), o qual só pode ser eliminado completa e eficazmente com a modificação ou aniquilamento do espaço geográfico-político (e mesmo ontológico) que ocupa – ou seja, por meio de uma retopologização.

Enquanto existirem florestas, há espaços para a deserção, para a fuga, para a desobediência civil de Thoreau. A eliminação de fato das florestas, desse modo, aparece como um projeto ontológico-político de colonização do fora, a eliminação do que é topograficamente externo ao Estado, a expansão dos muros da cidade – ou, em termos atuais, da fronteira agrícola.

Portanto, se levarmos adiante o raciocínio e a imagem de Hobbes (o que os Estados parecem fazer com gosto), o estado de natureza só seria superado com uma cidade universal, um grande império cosmopolítico, com a domesticação ou destruição do que (de quem) está lá (aqui) fora. Por essa razão, a proposta de José de Acosta, em meio à “conquista” do Novo Mundo, de levar os selvagens, os homines sylvestres, “de sylvis ad urbes” deve ser compreendida em todos os sentidos possíveis, inclusive o extremo de erradicar tanto o sylvestre/silvícola quanto a sylvis/selva, convertendo-a em urbes/cidade.

Alexandre Nodari em Selva de pedra: a floresta e a cidade

Leia em seguida:
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Paulo Brabo @saobrabo

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