1 • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 15 de dezembro de 2015

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Estocado em José Fabro

Esta é a parte 1 de 8 da série O primeiro trabalho

José Fabro não conseguia entender a vergonha; não conseguia entendê-la e era desse modo incapaz de simpatizar com ela.

Era sempre uma criança diferente das redondezas que vinha entregar o bilhete no meio da tarde, um pedaço de papel dobrado ao meio sem qualquer conteúdo que não a aplicação em relevo de um brasão nobiliárquico.

Quando todos dormiam e José Fabro saiu da casa para a noite eram dez e meia. Encontrou o questor Quintino denunciado por um palmo de luar, sentado na balaustrada de uma cisterna arruinada que no vilarejo estavam usando como depósito. Parecia sozinho, mas a cinquenta passos em alguma direção aguardavam sem dúvida um ou dois brutamontes armados, e a duzentos passos um pequeno destacamento e alguma condução.

– Essas convocações noturnas – disse Fabro no lugar de uma saudação, e encaixou numa fenda da pedra o bilhete sem palavras que tinha recebido. – Nunca vou me acostumar às cautelas de gente que tem o que perder.

– Saúde, mestre José – Quintino recolheu-se um pouco em vez de se inclinar para a frente, e José Fabro maravilhou que, tendo buscado o abrigo do para-vento da cisterna e da figueira que um raio havia feito arcar, até do olhar da lua o questor parecia achar necessário se esconder. – Só pense que tenho uma família maior do que a sua para zelar.

E estendeu luar afora uma garrafa muito finamente acabada, lacrada com cera.

– A mim me parece que para evitar suspeitas vossia acaba escolhendo as circunstâncias mais suspeitas – Fabro aproximou-se e aceitou a garrafa estendida. – Eu, no seu lugar, me faria conduzir pela vergonha de ter vergonha. Se fosse para encontrar um sujeito desalinhado como eu, o faria à luz mais clara do dia, para não correr o risco de ser apanhado fazendo às escondidas.

– Aô, ninguém pode acusar mestre José de esconder o que pensa e o que faz. Muito infelizmente, ao que se diz.

José Fabro examinou a garrafa.

– E vossia – ele disse, – o que está escondendo?

– O vinho mais caro que já pisou este vilarejo. Faça o favor de beber com alguma cerimônia ou pelo menos não na minha frente. É para uma ocasião especial, seu ignorante.

– Mais do que esta agora, seguro?

O questor praguejou, e José pousou a garrafa de lado, em cima da mureta.

– Às vezes – disse o questor – a sua falta de sofisticação fica muito aquém de resultar em pitoresca e adorável.

– Minha razão de viver é permanecer interessante para gente rica.

– Está deixando de funcionar, está. Uma guerra entre as falanges da capital, há dois anos, por um carregamento dessas garrafas.

– E manter-me informado sobre as suas mancanças. Vossia estava para me dizer o que está escondendo.

– Se quer saber – disse o questor, – um pensamento que me vem todas as vezes que lhe encontro vivo, tendo chegado até mim as barbaridades que disse e que fez desde a última vez em que nos encontramos. Vivendo como vive, não entendo como vossia não tem medo de morrer.

– Não entendo como vossia vê diferença entre medo de morrer e medo de viver.

O questor bateu um palma.

– Procure não dilatar o aperreio – disse. – Já estive com líderes carismáticos muitas vezes mais famosos do que vossia, e se o renome deles não me enterneceu, não será a sua impertinência de caboclo a me fazer corrigir.

– Quantas vezes devo dizer: cada um tem aquilo que tolera. Diga.

– Vim ver se consigo erguer o seu coração da soda, em favor de uma causa que lhe interessará.

O questor Quintino era um canalha e um onzenário, mas neste mundo não é que os homens descansam antes de encontrar para si alguma contradição. José Fabro conhecia outros canalhas ternos, inteligentes e atenciosos, mas o questor tinha o vício particular e talvez irresistível de encontrar prazer em observar de uma distância segura as operações da virtude. Ele mesmo não desceria a cometer uma honradez, mas do apreciador não se requer que saiba fazer o vinho para prezá-lo.

Mas era também forasteiro, de terras amenas de verde bom e afável, pouco preparado para entender o verde que ferroa e talha mas não se deixa acariciar. José às vezes tinha vontade de tratá-lo com mais gentileza, mas depois lembrava que era político e o melhor que podia fazer era dar vazão à sua irritação e poupar-lhe do afago que recebia de todos.

Fabro sentou-se a uma distância um pouco maior do que seria cordial.

– Uma satisfação eu lhe posso dar – ele disse, – e é a de saber que se chegar a fazer alguma coisa não é porque vossia está me dizendo. Quanto a me enternecer o coração, não estou seguro de que sou eu mesmo quem decide quando acontece. Por certo não é o senhor questor.

– Eu lhe conto a história e vossia me diz se se enternece ou não.

– É justo.

– São três meninas, três adolescentes, de Gadaraí. A mais velha terá dezesseis anos, creio. Famílias diferentes. Há coisa de dois meses saíram cada uma de casa, e hoje vivem as três juntas sem residência fixa, mais na rua do que qualquer outra coisa.

– Sempre em Gadaraí.

– Sempre.

– Prostituem?

– Quem dera, o escândalo seria menor. Não se sabe o que fazem. Vestem de modo estranho. Cortam o cabelo de modo estranho. Antes de tudo, cantam. Nas esquinas, nas praças, nos ginásios, na entrada das escolas, nas escadarias de edifícios públicos, ao pé dos monumentos. Cantam.

– O que cantam?

– Músicas estranhas. Gadaraí é uma cidade de alguma cultura, lugar de poetas, improvisadores e mestres de aperreio, vossia já esteve lá; mas é ao mesmo tempo cidade de província. Há os que lhes dão comida e dinheiro, há os que lhes dizem na cara que são bruxas, endemoninhadas e mundanas.

– A cidade dos poetas e dos itinerantes não tolera se poetas e itinerantes não têm um pênis para apresentar como credencial.

– Também, mas fosse o problema só esse.

– Uma coisa: é sabido se saíram de casa porque que tinham de cantar ou se cantam porque tiveram de sair de casa?

– Não se sabe porque saíram de casa. Provavelmente por um motivo que é preciso não ter a credencial de um pênis para entender.

José Fabro baixou a cabeça e empurrou as coxas para baixo com as mãos, para ilustrar que aquilo podia muito bem ser perda de tempo.

– E vossia – disse – quer me convencer a convencer as meninas a voltarem para casa.

– Ambição muito menor: que permaneçam vivas.

– Infelizmente isso pode me interessar.

O questor ajeitou-se no lugar, e na escuridão José Fabro ouviu o roçar de colares de contas e o toque de anéis uns contra os outros.

– O modo de vida das meninas gerou simpatia e antipatia na cidade, e gerou antipatia entre esses dois partidos. O escândalo foi maior para alguns homens que viram-nas por ali, requereram os seus serviços e lhes foram negados. Os cabas tomaram a recusa por ofensa maior: juraram que tomariam de graça aquilo pelo que tinham estado dispostos a pagar.

– E conseguiram?

– Ao que parece não, mas as meninas não são muito de falar, vossia pode imaginar.

– A cidade ostenta ser a mais esclarecida do sertão, e não podem ver uma mulher livre sem concluir que é puta.

– Uma mulher livre não se tolera na capital, ê – disse Quintino, para temperar a indignação do outro. – Mas o verdadeiro cacete foi quando um desses sujeitos amanheceu morto. O irmão do falecido jura que foram as meninas e alardeia que não vai descansar até recolher vingança. As três pelo um.

– E foram as meninas?

– Não se sabe.

– Como morreu o morto?

– A dizer não sei. Queria esclarecer mais, mas aconteceu há quê, dois dias.

Uma tropa de nuvens pardas terminou o serviço de cobrir o arco da lua. Na treva resultante Fabro entreviu, na distância, a luz das lanternas dos que deveriam ser os acompanhantes do questor.

José Fabro se considerava a mais disponível dos homens desde que não lhe dissessem o que fazer, mas nem sempre entravam em acordo esses escrúpulos. Era por certo com prazer que o questor sorvia o seu silêncio: era sabido que para dizer não mestre José não se demorava. No final Fabro só se pronunciou para não ter de continuar pensando se sua hesitação era sincera ou encenação; ele sabia tanto quanto o questor que um homem sem modéstia pode ser manipulado à coisa justa com mais facilidade do que um malfeitor ao delito.

– E o senhor – disse o homem que estava descalço – veio pedir a minha intervenção. A mim, a pessoa menos influente das suas relações.

– Vossia, mestre José, que já virou o embaraço de incidentes que não souberam tratar gente mais influente do que eu. Talvez possa fazer alguma coisa, vossia que vive como se não existissem máfias, bandidos, milícias, revoluções e chacinas.

– Sou praticamente a única pessoa que conheço que vive como se existissem essas coisas – disse José. E depois de uma longa pausa, como se estivesse só enumerando constatações: – Gadaraí fica a um dia de caminhada daqui, fica em outro estado e está fora da sua jurisdição.

– Vossia quer saber o meu interesse na história, e tem todo o direito. Eu deveria ter dito logo de início: uma das três meninas é filha de um meu amigo caro caro.

– Quer dizer que uma delas está protegida.

– Quer dizer – disse Quintino – que se vossia fizer alguma coisa será pelas outras duas.
José Fabro levantou-se do lugar, recolheu a garrafa de sobre a balaustrada e a deixou ao lado do questor, onde ele poderia pegá-la sem se levantar quando fosse embora.

– Essa garrafa não é mais minha – disse Quintino. – Para casa comigo não vai.

– Então amanhã algum caboclo vai beber o vinho da discórdia mais caro da vida dele. Mas talvez não o melhor – disse José, e foi se afastando.

O questor colocou-se ele mesmo de pé.

– Não preciso dizer que, Gadaraí estando fora da minha jurisdição, não vou ter como oferecer minha proteção a vossia ou aos seus associados.

– Não conto com a proteção de ninguém – disse José, voltando-se por um instante, como se dissesse a coisa mais evidente.

– Mas a oferece a qualquer um – disse o questor, e foi caminhando em direção à luz.

Minutos depois José Fabro voltava a deitar.

– Como foi? – perguntou o menino, que despertara com a entrada do pai.

– Acordamos cedo amanhã – disse o homem. – Vou te mostrar Gadaraí. Com alguma fortuna voltamos antes da sua mãe chegar.

De manhã quando partiram a garrafa ainda estava ali.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

O primeiro trabalho

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