8 • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 26 de janeiro de 2016

8

Estocado em José Fabro

Esta é a parte 8 de 8 da série O primeiro trabalho

Atrás da casa de Niconó havia uma casa menor, antiga, em que a família tinha morado antes de construir a de agora. Nessa casa morava a esposa de Niconó, Laís, porque tinha a doença do esquecimento e não conseguia sentir-se em casa na casa nova.

– Eu estava colocando uma roupa para secar – disse o menino – e me chamou para conversar a mulher de Niconó de casa sua.

– Ah – disse o homem. – Agora como foi.

– Foi bonito. Ela lembra de pouca coisa. Dizem que mesmo depois que deixou de acumular memórias novas lembrou por tanto tempo das antigas; recorda agora menos. Ela fez aparecer biscoitos, falou sobre o tempo e sobre a forma das nuvens, contou um pesadelo que teve. E lembrou o nome de vossia.

Estavam em Coraminas, na porção mais rasa e transparente da represa de Zequié. Tinham tomado banho no lago e secavam agora deitados em cima das roupas. Ticiano e Lauco ainda estavam na água.

– Certo – disse o homem. – Ela não me reconheceu mas lembrou do meu nome nas vezes em que fui visitá-la nesses dias. “José não é vossia que eu sei”, ela falava e sorria. E falava como quem sabia mais do que eu.

– Ela lembra bem quando José Fabro chegou a Gadaraí. Aparentemente vossia era muito bonito.

– Não tanto como agora.

O menino ergueu o corpo, sentou-se e olhou para o lago.

– Penso que esperava – ele disse – que uma pessoa sem memória fosse menos igual a uma pessoa com memória.

– Verdade, é. Laís tem manias, bom humor e mau humor, sabe ainda sorrir e provocar.

– Eu não perguntei – o menino olhou para o pai um instante, – mas ela contou como vossia foi parar em Gadaraí. A história com o pai de vossia, quero dizer. Para ela é como se tivesse acontecido ontem.

José Fabro tentou agir naturalmente.

– Ah, sim?

– Certo. Ela contou.

Lauco gritou para que entrassem na água, o menino fez que não com a mão.

– Para mim é como tivesse acontecido ontem – disse o homem.

O menino começou a desenhar sulcos paralelos na areia grossa.

– Vossia acha que teria conseguido se quisesse convencer as meninas a voltar para casa?

José Fabro respirou fundo, piscando para o sol.

– Embê, talvez. Eu de minha parte as queria de volta em casa e teria sido mais simples. Nessa transação que fizeram as três rejeitaram muito patrimônio que nenhuma tradição substitui… conte-se aí as vantagens nada insignificantes de casar com a aprovação dos pais.

– E com isso vossia não se preocupa?

– Certo que preocupo – José Fabro cerrou os olhos. – Um risco enorme em se recusar como insuficiente a proteção da rede da família, especialmente para gente tão jovem, é cair numa rede de exploração com escrúpulos ainda menores.

– Mas vossia deixou porque acredita que vale à pena tentar uma coisa nova, por isso.

– Êe, a porção mais desiludida de mim só me fala do absurdo que é acreditar que gente tão jovem e pouco fornecida possa romper o cerco do mundo criando uma nova rede. Por outro lado, basta que alguém acredite em alguma coisa para a porção desiludida de mim achar absurdo, então julgue vossia.

O menino alisou a areia que tinha perturbado.

– Vossia não sei se pensou – o sangue tinha escalado as faces do filho de José Fabro – que para um homem de barba e peito peludo ser independente e fora da norma é uma coisa. Para terem a vida que vossia tem aquelas adolescentes vão ter de pagar muito mais caro, vão ter.

– Se uma criança pode corrigir um homem barbado – disse José Fabro, olhando muito sério para o menino – coisas muito novas são muito possíveis. Vossia só se engana quando diz que no tanto que as meninas vão ter de pagar eu não pensei.

– E ainda assim permitiu.

– Acho talvez mais incrível do que vossia, mas coisas de fato acontecem sem a minha permissão. Vamos colocar assim: se as meninas tivessem saído de casa inspiradas por alguma coisa que eu disse, eu Fabro teria sido o primeiro a arrastar uma por uma a casa sua. O que vossia não sei se pensou é que o preço pesaram e estão pagando as três por conta sua.

O menino balançou a cabeça, e José Fabro se emocionou que ele fosse tão difícil de convencer.

– As meninas largaram a família porque acharam defeito, mas uma nova rede é uma nova família, não? Quem garante que a família nova não vai repetir os erros da primeira?

– Ninguém garante, e quando garantir convém duvidar. Mas vossia tem razão, para a nova rede não se tornar um sistema de exploração teria de ser diferente da família não só em estar baseada em critérios diferentes.

– Uma família é uma coisa boa. Veja Niconó.

– Uma família tem critérios, veja Niconó expulsando de casa Costino.

– Vossia diz que para a rede nova não repetir os defeitos da velha não deveria poder expulsar ninguém. Um mundo em que todos são bastardos todos são filhos, diz. Acha que é isso que as meninas querem fazer?

– Isso que estou falando está na minha cabeça, não digo que está na delas. As meninas fizeram o seu e olha quanto já custa. O primeiro trabalho é o primeiro trabalho.

– Essa nova rede sem critérios, o mundo em que ninguém corre risco nenhum, não corre então o risco de acontecer.

– As pessoas não podem ser forçadas a entrar num mundo melhor.

– Vossia bem que forçou Costino a entrar num mundo melhor.

– Costino era um homem numa posição vulnerável e quebrou na minha mão – José Fabro ergueu o corpo e ficou sentado ao lado do filho com os pulsos apoiados sobre os joelhos. – Mas soubesse você o quanto já me arrependi, e que prometi a mim mesmo não voltar a fazer coisa semelhante.

– Agora se Costino ele mesmo agradeceu? Se não há quem não veja que ele quer ser uma pessoa melhor?

– Um homem com palavras qualquer um pode quebrar, e qualquer pessoa pode manipular outra a adotar um novo código. O que Costino merecia mais do que uma mudança de vida é ter essa guinada devida a ninguém além dele mesmo.

– O homem chorou.

– Que não chorasse na minha frente. Que não devesse nada que acredita bom à minha pessoa ou à minha intervenção.

– Vossia sonha com um mundo bom, com o detalhe que ninguém pode ser persuadido a entrar.

– Ou bom ele deixa de ser, não fica claro?

– O que me custa mais caro no caso das meninas – o menino fez carinho por um instante na orelha do pai – é pensar que estão agora sozinhas. Nós não, elas sim.

– Êe, se é pra saber o que é ter estado sozinho vossia vai ter de perguntar a Costino, vai ter. Aquelas três queimaram tudo, mas sozinhas não estão.

– Pegaram a herança de Hércules, diz vossia?

José Fabro fez que sim com a cabeça.

– Meu palpite – ele disse – é que duas delas saíram de casa porque foi o único modo que encontraram de proteger de destino pior a terceira.

– Vossia acha que está grávida alguma delas?

– A bem dizer não sei. Talvez não. Priscila me disse que vai estar perto quanto elas deixarem.

– Talvez dê tudo certo e encontrem ocasião de voltar para casa.

José Fabro fechou novamente os olhos.

– Êe, fosse tão simples. Vossia não pesou que voltar para casa depois do que fizeram pode ser tão inconveniente para as meninas quanto não voltar.

– Me faça pesar.

– A família funcionando a seus próprios recursos é por dizer um banco, vai cobrar com juros o que alguém retirou. Não pense que voltando para casa elas serão tratadas como antes e recebidas com um abraço. Um pai está condicionado a debitar a retribuição. Elas vão passar a vida pagando.

O menino pousou os pulsos sobre os joelhos como o homem estava fazendo.

– A não ser que seja um pai como vossia – ele disse, – que não acredita em retribuição.

– E quem iria querer deixar um pai como eu? – José Fabro deu um sorriso sem abrir os olhos.

– Eu sairia de casa de bom grado, tivéssemos casa – disse o menino.

Lauco e Ticiano chegaram pingando e desabaram na areia.

– Lugar melhor que esse.

– Vamos embora? – disse Lauco, enxugando o rosto.

– Vamos embora – disse José Fabro, e levantou-se.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

O primeiro trabalho

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