7 • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 22 de dezembro de 2015

7

Estocado em José Fabro

Esta é a parte 7 de 8 da série O primeiro trabalho

Boas três horas depois do almoço Costino foi embora, e Lauco foi acompanhá-lo até a casa. Ficou decidido que, se assim quisesse, Costino iria encontrá-los em Casaredo ou em Sepori quando concluísse a obra em que estava trabalhando.

– Vossia conseguiu tirar dele se vai deixar de atormentar as meninas? – quis saber Niconó.

– Tenha paciência, Niconó. Dele não tirei nada.

– Vossia contou que sabemos como morreu Pompeu Coxé? – perguntou Ticiano.

– O que sabemos não faz bem nem a nós – disse José.

– Ele por certo lhe disse – Ticiano insistiu.

– É estúpido pensar que alguém é inocente só porque não é culpado – José disse. – E falo de nós, antes que vocês pensem outro.

E a Niconó, juntando as mãos:

– Caro amigo, obrigado. Amanhã cedo partimos.

– Essa pressa não é minha – disse Niconó, e tinha os olhos imediatamente marejados. – Quando a casa está vazia de vocês esqueço que Gadaraí pode ser um lugar melhor.

– Ahhh – disse José, e abraçou o amigo por um momento. – Este é o Niconó sentimental! Sua casa nunca está vazia, meu caro.

– Pergunte aos meus filhos a falta que vocês vão fazer, pergunte – disse Niconó.

Mal tinham limpado a cozinha do almoço e começaram a preparar o jantar. Ticiano saiu para avisar Priscila que partiam na manhã seguinte e convidá-la para jantar, mas não demorou estava de volta com outro recado para José Fabro.

– Priscila está com as três meninas. Foram procurá-la.

– Querem me ver?

– Querem que vá sozinho.

– Estão em casa com Priscila?

– Na casa delas.

Um quarto de hora depois José Fabro estava diante de uma casa de esquina a duas quadras do mercado. Bateu e veio atender uma anciã muito elegante, muito pobre e muito desconfiada, que abriu o portão e o fez percorrer o jardim, a varanda da frente, a sala, a cozinha e a varanda de trás, todos minúsculos, sem responder ao seu boa tarde. Na parte de trás da casa, no encontro entre três terrenos e duas edificações sem janelas nos fundos, havia uma terra de ninguém triangular oculta da rua, e nela estava erguida uma choupana com um dos lados aberto. José Fabro contou uma mesa, um sofá, duas cadeiras, um fogão, duas redes e muito mais pequenas comodidades, enfeites e bugigangas do que seria de esperar.

Priscila estava em pé, o sofá vazio, as três adolescentes divididas entre as duas cadeiras. Ainda estavam vestidas de roxo da cabeça aos pés, mas não usavam maquiagem e pareciam muito mais vulneráveis e jovens do que tinham parecido na escadaria do centro naquela manhã.

– Elas querem falar com José Fabro – Priscila tomou-lhe a mão por um momento, sorriu e andou até a anciã. Depois de muita relutância a senhora deixou-se acompanhar para dentro da casa, deixando o homem sozinho com as meninas.

José separou os lábios e puxou um curto respiro.

– Uma de nós tem um segredo – disse a adolescente que estava ocupando sozinha uma das cadeiras.

– No que não há nenhum mal – disse o homem quando a coisa ficou por aí.

– Não estamos habituadas a nos explicar – disse a mais alta, que dividia a segunda cadeira com a que tinha cabelos crespos, – mas sabemos que vossia veio à cidade com a intenção de nos ajudar. De um lado entendemos.

– Mas não queremos a sua ajuda. Ou proteção – explicou a primeira, a única que parecia bastante indignada.

– No que não há nenhum mal – disse José. – Nós homens operamos nessa canaleta, acreditamos que tudo pode melhorar se colocarmos a mão. A realidade raramente corresponde.

Mas sabemos também usar o charme da autodepreciação, José pensou, e ficou quieto.

– Chamamos vossia aqui – disse a mais alta, tentando parecer muito razoável – para explicar que estamos decididas. Não vamos voltar para a casa dos nossos pais.

– Conhecemos todos os riscos – disse a primeira. – Sabemos o que envolve as escolhas que estamos fazendo.

Nesse ponto José sentou-se, entrecruzando as pernas e sem encostar no chão com as mãos, sobre a fileira de tijolos que separava o quintal da anciã da terra de ninguém.

– Não vim mandado pelos pais de vocês – ele disse, – não respondo por ninguém além de mim mesmo. E sinceramente não faz diferença pra mim se vocês voltam para casa ou não. Ao contrário, a escolha de vocês me ilumina muito.

As três se entreolharam discretamente.

– Em que sentido?

– No sentido que é um ato de bravura, pra não dizer de insanidade.

– Vossia não vai nos convencer a mudar de vida – falou a de cabelo crespo.

– Não vou tentar – disse o homem. – Ainda porque, tirando o talento formidável que claramente não tenho, a minha vida e a de vocês tem mais semelhanças do que menos.
Querendo dizer que compartilhamos de uma exorbitância de imprudência.

– Vossia entende, então? Que só queremos ser deixadas em paz?

– Entendo que não tenho aqui papel nenhum – ele disse, – a não ser, talvez, o de reforçar a decisão de vocês em vez de fazê-las mudar de ideia. O melhor que posso fazer nesse sentido é livrá-las de algumas das ilusões que ainda têm. A música que vocês fazem é mais madura do que vocês, porque é mais pessimista.

– Que está dizendo? Olhe a vida que estamos levando: não temos mais ilusão.

– Essa seria a primeira – ele disse. – Mas em duas palavras que trocamos já vi outras. Por exemplo: conhecemos todos os riscos. Conhecem todos os riscos? Ouçam este desalinhado, ninguém conhece todos os riscos. Vocês estão assinando por todos os riscos que puderem imaginar, e ainda por todos os outros.

– No ponto em que chegamos não temos mais medo.

As outras duas assentiram com a cabeça.

– Não ter medo é uma coisa forte, mas não está completa enquanto se têm ilusões. Se querem dar um salto no escuro pra mim está bem, só não neguem a escuridão. Ninguém sabe o que envolve decisão nenhuma, quanto mais uma tão absurdamente arrojada como a que vocês estão tomando.

– E se dissermos que não conhecemos todos os riscos. Que entendemos que nem tudo se pode antecipar. Vossia promete que nos deixa em paz?

– Paz é tudo que eu desejo pra vocês – disse o homem, – mas deixe-me colocá-lo deste modo: neste mundo paz vocês terão só de mim. Vocês escolheram não serem deixadas em paz, e isso alguém deve dizê-lo claramente. Se não veem isso estão mais iludidas do que os que os condenam vocês.

– Vossia talvez tenha razão.

– Nesse caso tenho. E se posso completar, essa união inquebrantável de vocês por ora é uma ficção, preciso que não ignorem isso também.

– Nós somos irmãs.

– O fato de ser uma ficção não torna a coisa menor – disse o homem. – Toda bela esperança é fajuta até que alguém a faça deixar de ser. Porém o mesmo amor torna vocês muito mais vulneráveis do que gente mais mesquinha e menos afortunada. O salário de quem ama é morrer. Quem não ama não vai ter o coração dilacerado; quem ama vai.

– E vossia queria nos poupar disso?

José Fabro adorou a pergunta.

– De modo nenhum – ele disse.

– Se é isso estamos prontas pra pagar. Falando por nós três.

– Estou convencido de que estão – José Fabro colocou-se de pé, para indicar que estava pronto para ir embora. – Especialmente porque já escolheram uma espécie de morte. Escolheram por dizer uma morte diferente da que escolhem todos os outros. Essa sua morte escolhida é a coisa mais próxima que terão de uma vida.

Silêncio.

– O senhor consegue ser mais melancólico do que nós.

– Agradeço com sinceridade – disse o homem. – Mas se querem vê-lo colocado de outro modo: vocês tinham uma vida e acharam necessário nascer de novo. Só não pensem que é preciso trazer o rancor da vida anterior para esta.

José Fabro ofereceu o sorriso mais otimista que conseguiu produzir.

– Vossia não vai querer ouvir o segredo? O segredo que tem uma de nós?

– Não. Não vou querer.

– Mas queremos que o senhor saiba.

– Não, não vou ser um pai pra vocês. Não sei o que vocês estão querendo ver nascer, mas vai ter de se embasar em tipos de relações que ainda não existem. O fato é que guardamos segredos, ou contamos segredos para gente que cremos de confiança, porque cremos que o mundo não é grande ou justo o suficiente para nos comportar sem o segredo. Se vocês podem ser inconsequentes de sonharem um mundo em que não vão precisar da ajuda e da proteção de um pai convencional, quem sabe eu também possa ser. Me contem quando segredo ele deixar de ser.

– Vossia acredita que o mundo pode chegar a ser grande o bastante?

– Conheço gente muito melhor do que eu – ele disse, – que acredita em coisa muito pior.

As três sorriram um pouco. José Fabro fez menção de ir embora e voltou-se no último momento.

– Mais uma coisa – ele disse, como se tivesse adiado tocar o ponto mais embaraçoso da conversa: – sei que vocês disseram que eu viesse sozinho, mas meu filho pequeno está esperando na calçada. Ele decididamente não sabe o quanto é fora de moda e de propósito ser doce e gentil; ele preparou e trouxe um presente pra vocês. Posso mandar ele entrar?

– Como ele se chama?

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

O primeiro trabalho

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