6 • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de dezembro de 2015

6

Estocado em José Fabro

Esta é a parte 6 de 8 da série O primeiro trabalho

– Pronto, ele chegou – disse Lauco ao homem em pé no meio da sala. – Vamos conversar lá fora.

– Quero saber – Costino disse a José Fabro – o que vossia andou falando de mim.

– Vamos falar lá fora – insistiu Lauco.

– Não, ele veio até casa minha, venho até casa sua. Quero saber o que estava falando de mim antes de entrar por essa porta.

– Posso fazer melhor – disse José Fabro, – e lhe digo o que eu não disse a ninguém sobre vossia. O problema de dizer merda cada vez que abre a boca é que alguma hora acaba acreditando que tem de concretizar as suas ameaças para ser levado a sério. Vossia não vê? Pensa que é livre porque tem um cacete entre as pernas, mas é detento das suas ameaças.

Costino engoliu fundo e franziu a testa, como se estivesse ponderando com alguma seriedade o peso daquela revelação. Sem dizer uma palavra, Ticiano desapareceu casa adentro para determinar o estado dos filhos de Niconó. A José Fabro Lauco fez sinal de que estavam bem.

– Vossia não sabe u-um cacete sobre de mim – disse Costino.

– Falamos lá fora?

– Vamos nos acomodar é aqui mesmo – disse José Fabro, e fez com que Costino sentasse com uma aproximação da mão, sem precisar tocar-lhe efetivamente o ombro. – Vossia tem razão, não sei um cacete sobre vossia.

José Fabro acomodou-se num banquinho, e com os olhos disse a Lauco que se não podia sentar que pelo menos descruzasse os braços. Seu filho chegou à cozinha com um copo d’água que apertou na mão de Costino sem que ele pedisse ou recusasse.

– Vossia não tinha o direito de andar pela cidade perguntando de mim – Costino falava de olhos baixos e mastigava um desgosto sem fim.

– Fiz coisa pior – disse José, – e pedi a meus amigos que perguntassem no meu lugar. É a última vez que fazemos esse tipo de coisa, e você é o primeiro a saber.

– Não tinha o direito.

– Todo homem vive debaixo da tentação de imitar aquilo que despreza, e eu desprezo a polícia. O que vossia despreza?

– Não tinha o direito, não tinha.

– Desculpe, Costino – Lauco desobedeceu a ordem de silêncio que lhe dava em silêncio José Fabro – mas vossia não tinha o direito de ameaçar as meninas como fez. As suas ameaças trabalharam para arruinar a sua reputação melhor do que as nossas perguntas.

– Elas mataram o meu irmão – Costino olhou José Fabro nos olhos, mas baixou a cabeça em seguida.

José inclinou-se para trás e, quando Lauco esperava que ele começasse a falar, calou.

Costino ficou ali sentado coisa de um quarto de hora, sem dizer nada e sem ser interpelado. Tremia, apertava as mãos, punhava as coxas, apertava os dentes. Toda a água do copo que não conseguia largar acabou espargida sobre as suas pernas ou pelo chão. Por dúzias de vezes pareceu pronto a dizer alguma coisa, mas a indignação o sujeitava ao silêncio. De vez em quando fitava José como um recém-nascido, implorando com os olhos que ele dissesse alguma coisa, mas Fabro lhe negou esse conforto.

Lauco nunca tinha visto uma batalha daquela natureza, em que as forças se batiam no que não era dito, em que avançar só era possível enquanto nada era explicado.

Estavam naquilo quando Niconó entrou, com o filho que tinha ido lhe chamar.

– Fora da minha casa! – ele fuzilou Costino com os olhos e apontou para a porta.

– Niconó, eu pedi para ele ficar – disse José.

– Pois eu cheguei e digo para ele sair. Fora! FORA!

Costino levantou-se cambaleando, deixou o copo vazio na mão de Lauco e saiu para o meio-dia.

José Fabro baixou os olhos por um momento antes de alçá-los de novo.

– Vá chamar Ticiano – ele disse ao filho, – e pegue as nossas coisas. Estamos saindo nós também.

O menino obedeceu, e José Fabro pôs-se de pé. Lauco ergueu de um canto a mochila, que acompanhando Fabro tinha aprendido a nunca desfazer. Saiu logo da casa, porque não era tão versado na arte de ficar sem falar.

– Ah, vão embora desse jeito? – Niconó disse a José. – Vai me deixar essa desfeita?

José Fabro só respondeu um minuto depois, quando chegaram o filho e Ticiano com as coisas. O menino devolveu a Niconó os livros que tinham emprestado.

– Niconó – disse José, – sua família está segura.

E saíram os três.

– E vossia, mestre José – disse Lauco assim que o alcançaram na esquina, – ousa acusar Costino de achar que a vida é uma competição do maior cacete. Acusa ele disso, acusa.

– Do que está falando, Lauco?

– Vossia tem uma ideia de hospitalidade, e se por qualquer motivo acha alguém não está altura dela, vai embora.

José parou de caminhar para que Lauco também tivesse de parar e olhar para ele.

– Lauco, Niconó acreditou que a família dele corria perigo. E se acreditou nisso é porque estávamos na casa dele, vossia não vê?

– E Niconó não pode errar? Vossia pode ficar indignado e ninguém mais pode?

– E se Costino tivesse encostado a mão em alguma das crianças de Niconó antes que vossia tivesse chegado, Lauco, se tivesse? – disse José. – Na mulher dele?

– Mas não é José – gemeu Lauco – que fala de um mundo em que ninguém corre risco nenhum?

– Lauco, vossia é maior do que está fazendo agora – disse José Fabro, e voltou a caminhar. – Se eu falo nesse mundo, é porque neste todos correm risco o tempo todo.

E estacou, porque ali a dez passos deles, ancorado a um muro alto e de cabeça baixa, estava Costino.

Fabro deixou no chão a mochila e andou até ele. Postou-se diretamente diante do homem, abriu ligeiramente as pernas e cruzou os braços, ao mesmo tempo assumindo e se desfazendo da virilidade da sua postura.

– Meu caro Costino – ele disse, – ninguém pode ler todos os livros da estante de Niconó. Vossia também não me conhece, e do meu livro lhe dou esta página: não quero nada. Aqueles três e Niconó me conhecem há anos e acham que eu espero de vossia uma confissão, que espero uma resolução, mas efetivamente não quero nada. Não espero nada. De vossia não quero nada. Vossia sabe o que é querer nada?

Costino talvez estivesse chorando.

– Não – ele disse.

– Começa e termina no mesmo lugar – disse José. – Nada.

– Vossia fala assim – disse Costino, alçando o olhar por um instante – porque vossia tem tudo.

José Fabro deu um estalo com a língua.

– Entre nós dois não é mestre Costino quem está descalço – ele disse.

– Não é disso que estou falando – disse Costino, e por um instante quase sorriu.

José levantou a cabeça para o sol e estendeu um pouco a mão, como se sopesasse a multidão de coisas que só um estranho pode dar a outro. Controlou a vontade de chorar, porque não era uma das coisas. Sentou-se de pernas cruzadas no chão e Costino deixou-se deslizar pelo muro até sentar ele mesmo.

– Agora vamos conversar nós dois sobre um assunto qualquer enquanto eles observam de longe – disse José, – e mais tarde vou dizer que vossia me estava fazendo uma confissão. Uma confissão que eles nunca vão saber qual foi.

– E eles vão acreditar? – e de novo Costino ofereceu quase um sorriso.

– Não vou precisar nem dizer, eles vão concluir por si mesmos.

– E como vossia sabe que não vou lhe fazer uma confissão? – pela primeira vez Costino ergueu os olhos e os manteve ali.

– Porque vossia já sabe que não quero uma confissão sua. E porque só assim – ele acrescentou, como se tivesse pensado em argumento melhor – vossia vai saber que a minha apreciação pela sua pessoa não tem qualquer relação com a integridade que vossia tem para me apresentar.

Costino apertou os lábios.

– Desse modo vossia me faz detento do que eu queria lhe contar – ele disse.

– Você fica é livre – disse José.

Ficaram sentados um diante do outro por um longo tempo, procurando sobre o que falar. Mais tarde nenhum dos dois foi capaz de lembrar sobre o que conversaram, tirando a certeza de que não envolveu nenhuma confissão, pelo menos da parte de Costino.

– Vossia não vai me deixar trabalhar com vossia – disse Costino no final.

– O homem que não quer nada pode fazer o que quiser, sim?

José Fabro fez sinal que o filho se aproximasse, e só então viu, vinte metros atrás de Lauco e Ticiano e apertando a boca com o punho, Niconó.

O menino pegou Costino pela mão e ajudou-o a levantar, e o foi conduzindo de mãos dadas em direção à casa de Niconó.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

O primeiro trabalho

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