5 • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de dezembro de 2015

5

Estocado em José Fabro

Esta é a parte 5 de 8 da série O primeiro trabalho

– Não sei se seu pai já lhe falou do pai dele – disse Niconó ao filho de José Fabro. – Não sei se José lhe contou que Gadaraí foi a primeira cidade para onde veio depois que se separaram.

Estavam sentados os dois na escadaria externa da sede do município, Niconó dois degraus acima do menino, debaixo do friozinho mais acolhedor da manhã. O menino demorou a responder, Niconó chegou a pensar que ele não tinha ouvido.

– Meu pai nunca chegou a não responder uma pergunta minha – disse o menino. – Algumas coisas eu não pergunto, porque sei que ele responderia mesmo se não quisesse.

Niconó refletiu que o filho de José Fabro estava bem iniciado ele mesmo na arte de produzir silêncios, quando José chegou trazendo três cones de castanhas assadas e distribuiu um a cada um.

– Viram que manhã! – ele indicou com um braço o céu de mescla azul e laranja e as nuvens em arco que as colunatas deixavam entrever. As pombas vertiam do prédio acima deles como se buscassem encontrar para o céu uma medida circular.

Niconó agradeceu as castanhas e despediu-se no momento seguinte, tinha de trabalhar.
José Fabro e o filho tinham para a manhã programa nenhum além de aguardar oportunidade de ouvir quem sabe as três meninas de Gadaraí e de vê-las pela primeira vez. Corria que quando cantavam era cedo de manhã ou à tardinha, em lugares de alguma circulação.

Mordendo uma castanha, José fez sinal que o menino o acompanhasse, e entraram no saguão da sede do município.

Era um salão mais suntuoso do que o tamanho da cidade poderia sugerir, com um teto muito alto e ornamentado e claraboias de cúpulas circulares. Apesar da hora já havia gente cruzando velozmente o saguão, e o menino maravilhou que não dessem qualquer atenção à arquitetura. José Fabro e o filho eram os únicos sem pressa, e os únicos que caminhavam por ali descalços.

Ao longo das paredes uma série de mosaicos mostrava cenas de alguma história que o menino não soube imediatamente reconhecer. Aproximaram-se para examinar os detalhes de uma montanha coberta de nuvens, um palácio majestoso visitado pelo sol e uma mulher que escondia um fardo no meio da noite, mas o rosto do menino só se iluminou quando ele viu o berço e o bebê.

O bebê na figura parecia estar ninando as víboras, uma em cada uma das mãos e aparentemente muito vivas, mais do que preocupado em eliminar o risco que podiam representar.

– Tivemos há algum tempo um governador que era grande adepto de Hércules – disse José. – O sonho dele era que cada sede de município a leste de Zequié ficasse representando um dos doze trabalhos. Durou pouco o governador. Só conseguiu completar, aqui em Gadaraí, o primeiro.

José avançou para a entrada de um nicho que era quase uma sala lateral. O menino abandonou os mosaicos e andou até o lado do pai.

A sala era alta como saguão principal e tinha a parede em semicírculo coberta por colunas, doze ao todo. Cada coluna tinha no topo a estátua de um cavalo, cada cavalo numa postura diferente de bravura, empinamento ou fúria, e na sua indignação cada um mesclava-se ao teto. No centro da sala um pedestal circular, e sobre a ele a estátua de um homem massudo de barba e cabelos encaracolados, inteiramente nu, no momento mais selvagem da luta sem armas com um leão. O pé direito descalço e erguido pisava o quarto traseiro do animal, as duas mãos seguravam as mandíbulas abertas, a perna esquerda esticada para trás fornecia o grosso da sustentação.

– É a reprodução de uma estátua que está em Roma – disse José. – Mas como tudo no sertão tem de ser grande, a reprodução é maior do que a estátua original.

O menino ficou observando a estátua um longo tempo sem se mexer. As mãos e os pés em particular, grandes e torneados e pejados de carne, falavam de um tempo em que os homens afagavam ou pisavam uma realidade que não incorre em erro chamar de fantástica. Ticiano, que era meio siciliano, tinha mãos e pés que eram incrivelmente um pouco daquele jeito.

O menino entregou o cone de castanhas ao pai e começou a caminhar devagar ao redor da estátua, como se tivesse recebido o dom de enxergar a realidade pela primeira vez. José Fabro deixou que ele completasse um giro e começasse o segundo antes de interromper.

– É o primeiro trabalho. Hércules não sabe ainda que é Hércules.

– E nem sabe o leão – disse o menino.

– Algumas escolas de filosofia não encontraram modelo de virtude maior do que Hércules – José tocou com reverência uma perna do leão.

– Virtude, não força – falou o menino.

– Hércules escolheu ser livre, usou a liberdade para proteger os menos favorecidos, não reservou a sua lealdade para um único lugar ou país. Era capaz de suportar a privação e a dor, desprezou a nobreza de sangue e não reconheceu outra autoridade além de si mesmo. Mas antes de tudo – ele sorriu, mas pouco pouco, – Hércules é o bastardo por excelência.

O menino parou e olhou para o pai, tentando apreciar todas as possibilidades da metáfora.

– E a virtude está em que o bastardo é desprezado pelo mundo? – ele disse.

– Está em que o bastardo vê o mundo com olhos que o mundo desconhece. – disse José. – É absurdo crer que o sangue possa sustentar afinidades mais profundas do que o amor ou a amizade, não? A família é um mito que tende a criar relacionamentos condicionados, ao mesmo tempo venenosos e entorpecentes: veja-se Costino e Pompeu, veja-se todas as histórias do Olimpo. Algumas pessoas dão um passo para fora desse ambiente saturado e buscam a lealdade e a afinidade para além da família, como parecem fazer as três meninas que queremos conhecer. O bastardo tem a vantagem de nascer já no espaço entre esses dois mundos. Ele entende que pode escolher as suas lealdades, seus irmãos, sua mãe, seu pai. Sua posição particular o capacita a tolerar o que ninguém tolera e a não tolerar o que todos toleram.

– E alguém pode escolher ser bastardo – entendeu o menino.

– Todo mundo pode escolher ser bastardo – disse José, e devolveu ao filho o cone de castanhas.

Ficaram ali um longo tempo, sentados de pernas cruzadas aos pés de Hércules, comendo castanhas e falando na possibilidade de passar uma noite em Coraminas, na orla da represa, antes de voltar para casa.

Depois saíram e fizeram o circuito entre a rua Longa, a praça e o mercado. Quando tinham quase decidido voltar para a casa de Niconó viram primeiro alguma movimentação, e ouviram em seguida a cantoria que provinha da escadaria da sede do município, distintamente onde tinham estado antes.

As três meninas de Gadaraí cantavam sem instrumentos, com as mãos estiradas ao longo do corpo e sem qualquer expressão ou ênfase no rosto. Se paravam para respirar não se notava; a música que produziam era uma torrente e uma parede de vogais, notas longas e melancólicas que se estendiam longe longe antes de dobrar as esquinas de improváveis harmonias. Depois de minutos desse percurso as vozes se encontravam em uníssono, percorriam cada uma a sua vogal ao longo de uma melodia ascendente e se dividiam lá em cima num acorde suspenso, precisamente como uma ave que abre as asas mas não acha necessário alçar voo.

Então, sem aviso e sem interrupção, as meninas fizeram com a sua música algo que José Fabro nunca tinha visto alguém fazer. Cada uma interrompeu por um instante o fluxo da sua vogal e pronunciou uma sílaba, de modo que as coordenadas interrupções formaram uma palavra que compareceu uma única vez em toda a canção, e a palavra que formaram era “palavra”.

As vogais suspensas resultantes sustentaram por mais um minuto um trecho harmônico belíssimo que estancou de repente, sem resolução, como se alguém com uma tesoura tivesse cortado uma fita.

Enquanto meia dúzia de pessoas aplaudia o menino olhou para o pai, que sorria com algum embaraço e chorava sem, enxugando as lágrimas com as costas da mão.

Ouviram mais uma canção, que começou com a mesma barragem de vogais mas abriu-se logo numa letra que continha uma história ou a ameaçava. Porém as palavras eram cantadas da mesma forma, uma sílaba por intérprete em sucessão, numa cadência ininterrupta e hipnótica. A José Fabro ocorreu a imagem de peixes que saltam no ar diante uma cascata cuja corrente procuram vencer: uma sílaba por vez, saltando para fora do sentido que procurava ultrapassar. Em certo momento ele mesmo deixou-se derrotar, e parou de tentar capturar o senso das palavras. Deixou que as sílabas chovessem livremente, colhidas em qualquer ordem, remontando em poemas absurdos ou idiomas ainda por nascer.

A canção não tinha ainda terminado quando Ticiano por trás tocou-lhe o ombro, de semblante fechado e falando com urgência.

– É Costino, está na casa de Niconó. É bom irmos já.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

O primeiro trabalho

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