4 • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 18 de dezembro de 2015

4

Estocado em José Fabro

Esta é a parte 4 de 8 da série O primeiro trabalho

– Pompeu Coxé morreu como ninguém morre – disse Lauco, – com o pescoço esmagado por um mourão de cerca.

– Não um mourão, uma viga horizontal de cerca rústica – corrigiu Ticiano. – Se for como as que vimos por aí, é uma tora, uma coisa longa, larga e pesada. Como arma é bastante desajeitada.

Estavam na casa de uma amiga de Ticiano, Priscila, na rua mais alta e iluminada de Gadaraí, junto ao penedo. Tinham acabado de jantar e estavam espraiados ao redor de três grandes travessas do que tinha sido peixe assado. Lauco e Niconó procuravam com os dedos traços de peixe, cebola e alcaparra que tivessem ficado para trás.

Tinham passado uma hora fazendo o que José Fabro detestava, e era apresentar e discutir o que cada um tinha apurado das circunstâncias da morte do irmão de Costino. Parecia estabelecido que a cerca que fornecera ocasião para a morte pertencia à propriedade em que moravam sozinhos os dois irmãos; que a distância entre o morto e seu mourão e a cerca dilapidada tornava pouco provável um acidente; que o corpo tinha sido encontrado de manhã por um certo Pedro, ajudante da sociedade dos dois irmãos; que era suspeito que o corpo não tivesse sido encontrado por Costino, visto que moravam juntos; que isso se explicava porque Costino tinha adquirido o hábito de dormir não em casa mas na obra, onde Fabro o tinha interrogado na manhã anterior; que era absurdo supor que três adolescentes conseguissem matar um homem adulto atirando-lhe uma viga grossa de madeira na altura do pescoço; que era absurdo supor que Costino, por mais forte que fosse, conseguisse fazer a mesma coisa; que essa estranheza poderia ser explicada se Costino tivesse tido ajuda; que se tencionava acusar as três meninas, Costino poderia ter matado o irmão de um modo que deixasse mais provável o envolvimento delas; que era uma pena que o morto estivesse a sete palmos, porque examinar o corpo poderia iluminar algum desses pontos.

Durante todo esse tempo José não disse uma palavra; o que o manteve acordado foram as contribuições de Priscila, que conhecia naquela noite mas que disse mais de uma vez o que ele teria dito se tivesse tido paciência. Mesmo assim ele invejou o filho, que tinha subtraído um livro da parede de Niconó e estava lendo a cinco passos dali, junto de uma janela de treliça. José havia também subtraído o seu, mas não tinha encontrado tempo para dar-lhe atenção.

– José Fabro está muito quieto – disse em certo momento Niconó, recolhendo o que acreditava ser o último fragmento de peixe restante nas três travessas.

– José Fabro não acredita em resolver a mecânica dessas coisas – explicou Lauco. – Como não acredita em polícia nem em retribuição, para ele resolver a questão de quem cometeu o crime e de como não resolve coisa alguma. Se estou errado, mestre José?

– Não, não se engana de modo algum – disse José, e entrelaçou os dedos das mãos. – Ninguém vai me convencer que faz sentido pesar os mecanismos da morte mais do que os ligames dos vivos. Se foi um acidente, só poderia ter acontecido da forma que aconteceu. Se foi premeditado, poderia ter acontecido de vários outros modos.

– Nenhuma morte precisa então ser lamentada? – disse Niconó.

– Interessam os modos que os vivos encontram para continuar a viver. Amigos que se amam e irmãos que se esbofeteiam: tudo que trocamos nesta vida o é um longo adeus, alguns um pouco mais cordiais do que os outros. O mistério não é o definitivo da morte, é a indecisão dos vivos.

– Com discursos como esse – disse Lauco depois de uma pausa com a qual todos contribuíram – mestre José planta e colhe os silêncios de que precisa para viver.

– E ele só diz essas coisas – observou Ticiano – até ruminar o que dissemos e dar a explicação que não ocorreu a ninguém.

– Se resolvo o jogo de montar é porque alguém tem de avançar finalmente para o que importa – disse Fabro, e pela primeira vez sorriu um pouco.

– Sobre então as pessoas – disse Lauco, afastando o prato e limpando as mãos como pôde até alguém lhe estender um guardanapo – Meu papel era perguntar sobre os irmãos, e foi o que fiz. Digamos que Pompeu e Costino nunca chegaram a cair na simpatia do povo, mas nunca foram acusados de fazer verdadeiro mal nem mesmo um ao outro. Com exceção da história da perna, que aconteceu há tempo demais para alguém lembrar como foi.

– E só?

– Todos parecem concordar que os irmãos eram inseparáveis, ao ponto de visitarem ao mesmo tempo as mesmas casas de conforto. Além disso lutavam com frequência, em público e em privado, embora ninguém tenha conseguido fornecer um motivo mais do que superficial para essas brigas: um copo caído, uma distração de atenção, um assento disputado. Isso ao que se saiba, porque aparentemente esmurravam mais do que discutiam. O que não encontrei foi uma única pessoa que se lembre de ter visto os dois sem que estivessem juntos. E todos parecem concordar, e nisso contradizem aqui o mestre Niconó, que Costino não mataria o irmão.

– Talvez pensem isso – disse Niconó – porque é mais ou menos claro que Costino não chegou a conhecer outro amor além do de Pompeu. Mas as pessoas esquecem como é do ser humano encontrar modo de arruinar o que se ama.

– Verdade é – disse Priscila, e José Fabro inflamou um pouco quando viu que tantas intervenções pertinentes depois os homens ainda se ressentiam involuntariamente que uma mulher desse a sua opinião. Para asserir a perfeita legitimidade da sua posição, Priscila começou a fazer carinho na nuca de Ticiano. – Um longo adeus não precisa de palavras se os murros ou afetos dizem quanto baste.

– E sobre as meninas o que se sabe, Ticiano? – disse Lauco.

– Só falei com homens, como se sabe, e mistério. Decididamente os homens deste mundo não sabem o que fazer de mulheres livres. Tudo que define as meninas lhes parece incompreensível: cantar pela rua, sair de casa, não depender de ninguém, não procurar a escora de um homem, vestir-se como ninguém se veste. Não entendem uma mulher desejável que escolhe não dedicar-se ao ofício de ser desejada.

– Mas das meninas, o que descobriu?

– Entre os homens, nada. Não sabem os nomes, trajetórias, não sabem dizer uma letra sobre as meninas como personalidades.

– Acho difícil pensar – disse Priscila – que as três não tenham planejado um pouco essa indiferenciação. Toda mulher acaba aprendendo a urdir um disfarce que só esconde dos homens. E para certas escolhas de vida é conveniente existir indiferenciada… para quem não tem o tipo certo de percepção.

José Fabro estava um pouco apaixonado por Priscila.

– O que diz, mestre José? – quis saber Niconó.

José esticou uma perna que estava emperrando antes de responder.

– Ticiano tem razão, acho que sei explicar como morreu Pompeu Coxé.

– E em vez de nos dizer de uma vez vai fazer da explicação um longo adeus – disse Ticiano.

Fabro sorriu por um instante.

– Se o fizer será para imprimir as ênfases que importam – disse. – Para começar, no que precedeu a morte de Pompeu Coxé algo parece ter mudado entre os dois irmãos, mas não é o tipo de coisa que os de fora percebem. Se alguém pergunta, são sempre os dois desordeiros que não se largam e não param de se esmurrar entre si.

– Mas alguma coisa mudou – entendeu Priscila. – Os irmãos que não se largam deixaram de ser vistos sempre juntos.

– Exato – disse José. – Se eram inseparáveis, de que modo o assassino encontrou ocasião de aproximar-se de Pompeu sem o conhecimento de Costino?

– E que não estavam mais sempre juntos se comprova em que Costino tinha começado a dormir na obra e o irmão em casa – apontou Niconó.

– Alguma coisa se colocou entre os irmãos e o mundo não percebeu – disse Priscila. Ela olhou ao redor – Uma das meninas?

– Vossia está entrevendo um crime de paixão? – Niconó perguntou a José, e tinha já o rosto mergulhado em melancolia.

– De certo modo; basta a lembrança de Lauco de que Pompeu morreu como ninguém morre – José disse. Nesse ponto Lauco apertou os lábios e seus olhos deram a entender que tinha entendido, mas quem falou foi Fabro: – Pompeu quase seguramente se suicidou, enforcado.

O filho de José, sem dizer uma palavra, levantou os olhos da leitura.

– Costino não matou o irmão, mas encontrou-o enforcado e ocultou como pôde o motivo da morte – disse Lauco. – Uma viga pesada no pescoço. Um recato mais do que um crime, por dizer.

– É isso – disse Niconó. – Tem de ser. Costino por certo teria tentado ocultar o suicídio do irmão.

– Mas por que acusar as meninas? – disse Priscila.

– Para ter a quem acusar, talvez – disse Ticiano.

– Costino deixou o corpo suficientemente longe da cerca para descartar a hipótese de um acidente – disse Lauco. – Talvez ele saiba, ou acredite, que as meninas contribuíram para a morte do irmão.

Por alguns momentos o silêncio foi a única coisa pertinente que todos conseguiram oferecer. Os silêncios de que o universo precisa para sobreviver, pensou José Fabro.

– O que se faz, Zeza? – disse Lauco.

– Se vive – disse José. – Ficamos aqui mais dois ou três dias e vemos o que acontece. Não temos como saber se a nossa chegada fez mais mal do que bem, mas agora estamos aqui.

– Deixamos de fazer perguntas? – perguntou Ticiano, e os olhos de Priscila queriam saber a mesma coisa.

– Façam o que acharem melhor. Façam o que gente humana faria.

– Com as meninas fala vossia?

– Com as meninas falo eu, se necessário, a não ser que sejam elas a procurar algum de vocês.

– E o que sabemos, não contamos a ninguém? – perguntou Niconó.

– Não sabemos de nada, Niconó.

– Mas se soubesse que sabemos talvez Costino parasse de ameaçar as meninas – disse Ticiano.

– Este é um mundo de gente falha – disse José Fabro, – em que as resoluções nada resolvem. Justiça de justiça não se produz. Vocês estão entre as pessoas mais inteligentes que conheço, e isso agora inclui também vossia, Priscila. Só peço que nesses dias, e se possível sempre, façam tudo para não cair nas armadilhas da inteligência.

– E quais seriam? – quis saber Priscila.

– Somos inteligentes demais para saber – José Fabro deu um sorriso meio amargo.

– Mestre José acredita que a lógica é algo totalmente estranho à natureza humana – Lauco disse a Priscila.

– Não vamos dizer tudo, nem mesmo sobre isso – pediu José. – Basta lembrar que tem tanta coisa que a linguagem não comporta.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

O primeiro trabalho

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