3 • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 17 de dezembro de 2015

3

Estocado em José Fabro

Esta é a parte 3 de 8 da série O primeiro trabalho

– Por dizer – disse José Fabro, para arredondar o que filho vinha lhe contando das conversas com os filhos de Niconó, – durante o dia as três meninas têm sustento e querendo até aplauso, mas de noite se têm proteção ninguém sabe quem a dá.

– Na casa de Niconó acreditam que dormem na rua, mas confirmar ninguém sabe.

Gadaraí ficava polvilhada no alto de um morro com uma das faces cortada. Estavam na estrada que descia a face mais suave do morro, cruzando pomares irrigados e pequenas pastagens, em direção à planura. Na orla da estrada um armazém ou outro, uma olaria e um par de banquinhas de frutas e cereais sem ninguém à vista para atender.

– Achei que a primeira coisa seria ir ao centro encontrar com elas – disse o menino.

– Ir ao encontro de alguém e oferecer ajuda é coisa que aprendi a não fazer.

– Já vi vossia fazer.

– Mas aprendi – disse José, – e o sujeito era homem.

– E qual é a diferença?

José Fabro apertou os lábios e meneou a cabeça.

– Êe, digamos que este mundo foi moldado estreito para quem acontece de não ter à mão duas bolas e um cacete. As mulheres têm de lidar com basicamente dois tipos de homem, os que querem aproveitar-se delas e os que querem salvá-las, e seria estúpido pensar que o segundo tipo é para a mulher menos degradante do que o primeiro.

– E como se faz?

– Por hora não aproximar-se já é muito. Devem estar chegando Ticiano e Lauco, e eu disse a Niconó que os dois se façam ver e façam escutar pela cidade. Não custa fazer correr a notícia de que as meninas têm padroeiros de fora. Os barbudos locais vão pensar duas vezes, e as próprias meninas vão poder decidir, quando for a hora, se querem a nossa aproximação.

José Fabro parou para recolher do chão uma pedrinha. Na pedra estava impressa a forma de uma concha.

– Mas estamos indo à casa de Costino, o homem que está acusando as três – disse o menino.

– Não a casa, a propriedade em que ele está trabalhando – Fabro deu a pedra ao filho. – E não é para oferecer ajuda.

O menino examinou a pedra por um longo trecho, acariciando com o dedo as ranhuras invertidas da concha. Depois guardou-a na bolsa, porque era coisa bonita demais para não ter sido feita pelo homem.

– E vossia já sabe o que vai dizer a Costino?

– Não. O melhor que se diz a alguém é pisando quem sabe o mesmo chão. Fazer a caminhada só para revelar ao sujeito e a você mesmo que pisam o mesmo chão.

Chegando à planura estavam já no sertão: o verde raleava, mas quando despontava era claro e distinto como coice. Saíram da estrada principal na altura de um santuário em ruínas e foram se aproximando de uma casa de fazenda cercada de galpões e paióis e, mais adiante, lavoura irrigada.

Perguntaram por Costino e encontraram-no atrás de um dos galpões, com dois outros trabalhadores, cavando fundo dentro de um cercado de vigas semienterradas para fazer um silo.

A primeira coisa que Costino fez no seu primeiro encontro com José Fabro foi cobrir-lhe sem querer os pés com uma pazada de terra, e pedir desculpas.

Fabro agachou-se na beira da cova sem dar grande atenção a uma coisa ou outra; aquela inaptidão e aquela afabilidade abriam em favor de Costino uma ascendência que era necessário estancar.

– Meu nome é José – ele disse. – Procuro uma palavra para trocar com um Costino.

– E seria sobre coisa foi? – disse Costino, que era muito calvo, muito vermelho e tinha olhos muito azuis.

– Seria sobre as três moças que cantam em Gadaraí – disse José Fabro, e pensava que certas coisas só produzem o efeito desejado ditas dentro do mais impermanente dos intervalos.

O homem no buraco alçou a voz como se passasse a dirigir-se a uma multidão.

– O senhor é por caso pai de alguma das três? Sabe por caso que elas mataram o meu irmão?

– Não, não tenho sangue com qualquer uma das três e sim, soube da morte do seu irmão – José Fabro falava sem nenhuma ênfase e sem nenhum rancor. – Mas digamos que me importo o bastante com a natureza das coisas para duvidar pelo menos um pouco que três adolescentes tenham calcado um homem adulto a um mourão de cerca.

– Meu irmão era aleijado – disse Costino.

– Me despraz. Mas não de nascença, chegou-me. Vossia não estava por caso com seu irmão quando aconteceu? Digo, para ter certeza de que foram as meninas?

– Não estava com ele mas não preciso estar para saber. Menzonhas que são, odeiam homem, e odeiam com facho maior os homens que lhes querem colocar no seu lugar.

– Vossia odiava o seu irmão, mestre Costino?

– Que pergunta é! Era meu irmão.

– Se pergunto é porque as meninas odeiam homem, mas ao que se diz era vossia quem punhava dia noite e dia com o irmão. Não me consta que as moças briguem entre si.

Costino jogou a pá para longe e subiu a cova por uma escada de três degraus. Era muito menor do que José Fabro, mas fazia parte da tentativa de intimidação não dar qualquer sinal de deixar-se intimidar.

– Vossia se vê que não é daqui – disse – e não me conhece. Sou homem respeitado, perdi meu irmão pela mão de mulheres vadias que vão pagar, e não vou tolerar desaforo de ninguém.

– Me diga só essa coisa, pelo seu sagrado interesse na justiça e na retribuição: que motivo as meninas tinham para matar o seu irmão?

– Menzonhas que são, odeiam homem. Claro está?

– Não pensavam em retribuição, por dizer. Não no sentido que vossia procura retribuição?

– Fora daqui – disse Costino. – Fora.

– Deixe só eu amarrar o meu empenho, e se vossia esquecer de algum detalhe mais tarde lhe ajudarão essas duas, três testemunhas. – José Fabro falava com absoluta graça de postura e de entonação, como se tratasse o assunto mais distraído com o amigo mais caro. – Primeiro, grande engenharia, sou mestre de obras e sei reconhecer a excelência da sua. Segundo, e esse é um detalhe que costuma escapar, vossia pode parar de mentir quando quiser, e todos se beneficiarão imediatamente disso, mais do que todos vossia mesmo. Terceiro, me despraz a morte do seu irmão, mas sou homem de crença particular: não acredito em retribuição ou, para dizê-lo melhor, acredito que o assassino do seu irmão já está pagando, antes porque terá de conviver para sempre consigo mesmo.

– E segundo vossia sou homem que deixa sem pagar a morte do meu irmão?

– Acho o contrário, que seria estúpido acreditar que alguma coisa pode pagar a morte do seu irmão.

– Não acreditando em retribuição, vossia me deixa coberto para abrir o bucho daquelas três e enforcá-las nas tripas uma da outra?

– É o contrário: espero ter deixado claro a retribuição que vossia vai levando consigo se procurar fazer qualquer mal às meninas.

– Isso é uma ameaça?

– É de novo o contrário: é um convite para que vossia largue mão de sentir-se ameaçado neste mundo por quem quer que seja.

– Era o que me faltava – disse Costino com verdadeiro ou fingido desprezo, – um maldito mestre de aperreio. Um aperreador e um covarde. Saiba vossia que aquelas vadias ninguém neste mundo tem como proteger.

– Eu da minha parte prefiro pensar num mundo em que ninguém corre risco nenhum – disse José Fabro, e sorriu.

Na saída da fazenda, junto do santuário arruinado, o menino falou.

– Vossia diz que Costino matou o irmão?

– Acho que tudo é possível, o que é incrível – respondeu o homem. – As coisas que os deuses e os homens proíbem… eles proíbem para nos distrair de uma coisa bela e terrível, o fato de que no fim das contas tudo é permitido. Qualquer um faz o que quer com o que pode, e qualquer um pode praticamente tudo.

O menino se ressentiu por um momento daquela sinceridade. Depois se recompôs:

– Por que Deus iria proibir o que é permitido?

– Mais arrojado sem dúvida é o Deus de que temos notícia, que permite o proibido. E vossia, o que me diz sobre a inocência de Costino?

O menino franziu a testa para olhar para o pai sob o sol.

– Acho que não sabia, ou tinha esquecido, o quanto é bruto ver uma pessoa acusando outra.

– É obsceno – disse José. – Maldades de corriqueiro não usam máscara, mas a acusação é maldade que exige para si a credencial da justiça. Transgressão que se finge de beata. O resultado é tão desfigurante que a própria ideia de justiça fica parecendo menos admirável, e quem acusa deixa de parecer inocente mesmo que seja.

– Vossia acha que Costino vai tentar fazer mal às meninas?

– Quem pode dizer. Falsas ameaças são mais difíceis de discernir do que verdadeiras mentiras. O sujeito com frequência sabe porque está mentindo, mas é raro que saiba porque está ameaçando.

– Segundo vossia ele está mentindo?

– Disso não tenho dúvida. Mas a verdade talvez nem ele saiba.

– Agora, acusar falsamente as meninas é coisa estúpida, não? E se é verdade ele não deveria estar preocupado em provar?

– Sim e sim, mas isso se os seres humanos fizessem sentido. As pessoas às vezes dizem certas coisas e orquestram determinadas situações só para não ter como voltar atrás. A certeza é uma coisa rara, talvez inexistente, mas se você diz ou faz alguma coisa que pareça dura e incorrigível, não vai ter de dar a impressão de que não sabe como deve agir.

Tinham chegado ao lugar em que Fabro havia recolhido do chão a pedra com a impressão da concha. O menino estacou, vasculhou a bolsa, encontrou a pedra e largou onde a tinham encontrado.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

O primeiro trabalho

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