2 • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 16 de dezembro de 2015

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Estocado em José Fabro

Esta é a parte 2 de 8 da série O primeiro trabalho

– Seu pai adora esta cidade – disse ao menino o homem que se chamava Niconó – por causa dos repentistas e dizedores de frases de efeito. Os modos que vossia toma por originais ele aprendeu aqui.

Niconó era baixo e muito magro, e tinha um nariz e uma barba longa e ondulada que pertenciam a pessoa muito maior. José Fabro e o filho tinham lavado os pés e estavam acomodados contra almofadas, os braços apoiados às mochilas, bebendo água com cravo. Ao redor, sentados sobre esteiras, jiraus e almofadões, observavam em silêncio oito dos dez filhos de Niconó.

– Sou feito de um modo assim – disse José Fabro – que não me apego a lugares. Meu filho sabe disso, vossia deveria saber.

– Mas vossia se sente à vontade entre poetas e mestres de polêmica, e eu, onde vivo? Não tem limites o meu ceticismo com relação à palavra falada… e está se estendendo também à palavra escrita.

Não era o que diziam as paredes de livros que serviam de divisória dentro da casa, e José Fabro olhou para o filho para comentar, sem dizer nada, essa contradição. O menino com o olhar estava dizendo a mesma coisa.

– Nada que é um pouco humano – José disse a Niconó – eu estranho demais. E para um cético da palavra você fala muito, fala.

– Falem vocês dois, então – Niconó sorriu e ergueu as mãos relaxadas com um deleite que era quase uma dança. – De onde essa ideia de virem sozinhos?

– Ticiano veio conosco, mas depois que passamos o rio o mandamos à represa de Zequié, para avisar Lauco que estamos aqui. Devem chegar amanhã.

– Ezequiel?

– Está bem, ficou cuidando da obra em Sepori.

Nessa hora entraram os dois filhos mais velhos de Niconó, um rapaz e uma menina com em torno de dezesseis anos, trazendo bandejas largas com a ceia: manteiga de garrafa, queijo cortado em triângulos pequenos e dezenas de pãezinhos salgados recheados com folha de mostarda. Fizeram duas viagens e dispuseram as bandejas ao redor da sala de modo que a todos pudessem comer sem precisar sair muito do lugar.

Terminada a ceia as crianças menores correram para a praça, as maiores foram para a cozinha e os dois adultos subiram para o terraço. Niconó acomodou-se numa rede e José Fabro sentou-se em outra, deixando uma perna pendurada para fora. Deixaram que as estrelas falassem muito antes de ousar interromper.

– Seu filho está igualzinho a vossia, está – disse Niconó.

– Não é verdade.

– Digo não fisicamente, não muito. Digo nos modos que importam. Assusta.

– Outro dia Lauco me disse algo que me pareceu muito justo: que o menino está mostrando todos os defeitos do pai e todos os defeitos da mãe, mas tem virtudes que nenhum de nós dois tem. Defeitos herdados e virtudes novas.

Niconó riu muito alto.

– Verdade é, verdade. Mas nisso ele é como todo mundo. É como meus filhos. É como vossia.

– Êe – disse José Fabro, e puxou o pé descalço para dentro da rede, reclinando para trás.
Daquela hora em diante falaram com o céu como se falassem um com o outro.

– Vossia não veio me ver – disse Niconó.

– Mas fico feliz de ver do mesmo modo – disse José. – Não, vim pelas três meninas.

– Foi o senhor questor quem lhe alertou das fatuceiras?

– O questor me jogou também essa moedinha.

– Certo, quando vi chegando mestre José me vieram em mente as fatuceiras. As menzonha.
As miadêra.

– Você conhece?

– Um pouco uma, Talia.

– É rica?

– Não, a rica não sei como se chama. Talia é filha do Elquias do engenho de farinha, de vez em quando ajudava por ali.

– E a rica?

– Filha de um alto funcionário que não lembro o nome; Lurdo, Lurpe, alguma coisa. Está na cidade há menos de um ano, pouco mais quem sabe. A terceira nunca vi antes de ver as três cantando na escadaria da sede do município.

– O que se diz das meninas na cidade?

– Depende a quem vossia perguntar. Teatro, fatiçaria, pouca vergonha. Minhas duas maiores idolatram, não me pergunte porque; talvez porque são jovens e têm um pouco de trupe, um pouco de pajelança. Estão sempre de roxo, até os cabelos. As velhas veem bruxas, os homens veem rameiras, as adolescentes veem um oráculo, o município vê corrupção de menores. Digamos que na cidade as miadeiras têm quase seguidores, mas têm perseguidores mais do que quase. Estou supondo que vossia está na cidade pelo afazer do morto?

– Vá dizendo, que só ouvi o mingo que soube me contar o questor.

– Era tarde da noite, não se sabe quantos subiam a rua Longa, na altura do Paço; não se sabe se estavam bêbados ou se fingiam: apertaram as meninas que estavam por ali e insistiram em pagar pelo que elas não tinham oferecido. Elas recusaram, daí tabefes, daí berreiro, gente correndo para a janela no meio da noite. Em Gadaraí os homens que não são intelectuais querem muito deixar claro ao mundo que não são.

– Mas as meninas escaparam. Escaparam?

– Certo, alguma porta abriu e recolheu as três. Depois se disse que os homens escarraram ameaças, teriam dito que encoxavam as meninas no bruto na primeira oportunidade. Mas tenho pra mim que essa história só começou a circular depois que o sujeito achou-se morto, semana depois. Pompeu Coxé, construtor de silos.

– Morreu de coisa foi?

– Pescoço abraçado a um mourão de cerca. E lhe economizo uma gleba de lavoira lhe dizendo quem foi: o irmão.

– Esse que está acusando as meninas?

– Certo: Costino, construtor de silos. Ele, foi.

– E de onde essa certeza?

– É preciso conhecer Costino pra não ter a dúvida. Ele aleijou o irmão quando tinham, quanto sei, quatorze, quinze anos. E grandes, devem ter agora mais de trinta, trabalhavam juntos, bebiam juntos, frequentavam juntos as mesmas muaciras. Mas antes de tudo brigavam: cacete e porrada em casa, na rua, no penedo. Ninguém se dava a lavra de separar.

– Gadaraí concorda com esse seu julgamento? Que as meninas não tem relação com a morte?

– Eu estou me coçando para o julgamento de Gadaraí. Mas certo, ninguém é burro que baste para não ver do que o irmão é capaz.

– E no seu parecer as meninas correm perigo? Digo de Costino ou dos outros rejeitados?

– Não muito mais do que corriam antes, penso. Mas não é um mundo assim muito generoso com os desalinhados. Estúpido seria acreditar que não correm risco nenhum. É terrível pensar desse modo, mas as três escolheram nenhuma proteção, não sim?

– O que se escolhe é menos terrível, talvez. Essas meninas não conheço, mas não me parece que tenham escolhido de olhos fechados.

– Penso que não – disse Niconó, e sentou-se na rede porque tinha ouvido um barulho ali no terraço.

Seguido por dois ou três dos filhos de Niconó, o filho de José Fabro tinha acabado de subir, com na mão dois copos. Era um menino muito alerta, gordinho pouca coisa, senhorzinho de um magnetismo que era ao mesmo tempo uma impaciência, uma inteligência e uma capacidade de calar. Não parecia ter mais de nove anos.

José Fabro sentou-se na rede para entender o silêncio, e sem dizer nada seu filho entregou-lhe e a Niconó os copos de chá frio de polpa de maçã.

– Ele chegou a perguntar sobre a mãe dos meninos? – perguntou Niconó quando as crianças tornaram a descer.

– Certo – disse José Fabro.

– E o que vossia lhe disse?

– Que ela tem a doença do esquecimento.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

O primeiro trabalho

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