O pregador da verdadeira fé • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 22 de junho de 2009

O pregador da verdadeira fé

Estocado em Fotografia · Goiabas Roubadas

ABRAÃO: O pregador da verdadeira fé

Quando Abraão completou vinte anos seu pai, Tera, adoeceu, e disse o seguinte a seus filhos Harã e Abraão:

— Meus filhos, eu os esconjuro pelas suas vidas a venderem para mim esses dois ídolos, pois não tenho dinheiro para pagar as nossas despesas.

Harã cumpriu o desejo de seu pai, mas quando alguém abordava Abraão a fim de comprar dele um ídolo, e perguntava o preço. ele respondia:«Não vê que ele ainda está com o machado na mão?»

— Três minas — e perguntava em seguida: — Quantos anos você tem?

Se a pessoa respondia “trinta”, ele dizia:

— Você tem trinta anos e está disposto a prestar adoração a um ídolo que acabei de fazer hoje mesmo?

O homem então ia embora. Quando outro se aproximava de Abraão e perguntava:

— Quanto é esse ídolo?

— Cinco minas — ele respondia, e perguntava novamente: — Quantos anos você tem?

— Cinquenta.

— Você tem cinquenta anos e está disposto a ajoelhar-se diante do ídolo que fiz hoje mesmo?

Diante do que o homem também ia embora.

Abraão então pegou dois ídolos, colocou-lhes uma corda ao redor do pescoço e, com os rostos voltados para baixo, começou a arrastá-los pelo chão, gritando enquanto isso:

— Quem quer comprar um ídolo de que nada se aproveita, seja para si mesmo ou para aquele que o adquire para prestar-lhe adoração? Tem boca, mas não fala; tem olhos, mas não vê; pés, mas não anda; ouvidos, mas não ouve.

As pessoas que ouviram ficaram impressionadas com as palavras de Abraão. Enquanto ele seguia pelas ruas encontrou uma velha senhora que aproximou-se dele com a intenção de comprar um ídolo, bom e grande, a fim de adorar e amar.

— Minha senhora, minha senhora — disse Abraão — não sei de nenhuma vantagem quer nos grandes quer nos pequenos, seja para os outros, seja para si mesmos. E o que houve com aquela grande estátua que a senhora comprou do meu irmão Harã, a fim de prestar adoração?

— Ladrões — respondeu ela — vieram de noite e roubaram a imagem, enquanto eu ainda estava no banho.

— Se é assim — Abraão continuou a questioná-la — como pode a senhora prestar adoração a um ídolo que não é capaz de salvar a si mesmo dos ladrões? Quanto menos será capaz de salvar os outros, gente como a senhora, do infortúnio? Como pode a senhora dizer da imagem que adora que é um deus? Se é deus, porque não salvou-se das mãos daqueles bandidos? Não, no ídolo nada se aproveita, seja para si mesmo, seja para quem o adora.

— Se é verdade o que você está dizendo — retrucou a mulher, — a quem eu deveria servir?

— Sirva o Deus dos deuses — respondeu Abraão, — o Senhor dos senhores, que criou o céu e a terra, o mar e tudo que nele há. Ele é o Deus de Ninrode e o Deus de Terá, o Deus do oriente, do ocidente, do sul e do norte. Quem é Ninrode, aquele cão, para chamar a si mesmo de Deus e para que lhe seja prestada adoração?

Abraão conseguiu abrir os olhos daquela senhora, que tornou-se zelosa missionária do verdadeiro Deus. Quando descobriu os ladrões que haviam levado seu ídolo, e eles lho devolveram, ela usou uma pedra para fazê-lo em pedaços. Enquanto vagava pelas ruas, ela gritava:

— Quem quiser salvar sua alma da destruição e ser próspero em todas as suas iniciativas, sirva o Deus de Abraão.

Dessa forma ela converteu muitos homens e mulheres à verdadeira crença.

Rumores das palavras e dos feitos da velha senhora chegaram aos ouvidos do rei, que mandou buscá-la. Quando ela compareceu o rei repreendeu-a severamente, perguntando como ela ousava servir um deus que não fosse ele mesmo.

– Você é um mentiroso — respondeu a senhora — que nega o único Deus, a essência da fé, além do qual não há deus. Você vive pela generosidade dele, mas presta adoração a outro, repudiando o verdadeiro Deus, seus ensinos e seu servo Abraão.

A senhora pagou com a vida pelo fervor da sua fé. Ninrode, no entanto, foi tomado de intensos temor e terror, porque as pessoas se mostravam cada vez mais apegadas aos ensinos de Abraão, e o rei não sabia como lidar com o homem que solapava os fundamentos da antiga fé.

A conselho dos príncipes, Ninrode organizou um festival de setes dias, ao qual todos foram ordenados comparecer em trajes de estado, usando seus adereços de ouro e prata. Através dessa manifestação de riqueza e moder, Ninrode esperava intimidar Abraão e trazê-lo de volta para a fé do rei. Através de Tera, Ninrode convidou Abraão para vir até sua presença, para que ele tivesse oportunidade de ver sua grandeza e sua riqueza, a glória de seu domínio e sua multidão de príncipes e servidores. Abraão, no entanto, recusou-se a comparecer diante do rei. Em contrapartida, Abraão concordou quando seu pai pediu que em sua ausência ele vigiasse os ídolos dele e do rei, e cuidasse deles.

Sozinho com os ídolos, e enquanto repetia as palavras “o Eterno é Deus, o Eterno é Deus”, Abraão derrubou os ídolos de seus tronos e passou a golpeá-los com um machado, começando no maior e terminando no menor. Ele despedaçava os pés de um e decepava a cabeça de outro; arrancava os olhos de um, esmagava as mãos de outro. Quando todos estavam mutilados, Abraão foi embora, mas antes colocou o machado nas mãos do maior dos ídolos.

Concluído o banquete o rei retornou, e quando viu todos os seus ídolos feitos em pedaços passou a investigar quem havia cometido o dano. Quando Abraão foi apontado como responsável pela afronta, o rei mandou chamá-lo e perguntou o motivo de seu delito.

— Não fui eu! — replicou Abraão. — Foi o ídolo grande quem despedaçou todos os outros. Não vê que ele ainda está com o machado na mão? Se não acredita em mim, pergunte e ele lhe dirá.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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