O PODER DOS PESADELOS, parte 1/3 • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 12 de janeiro de 2006

O PODER DOS PESADELOS, parte 1/3

Estocado em Fé e Crença · História · Política

Três das mais bem gastas horas que passei ano passado foi assistindo ao documentário da BBC The Power Of Nightmares. O documentário revela os mecanismos pelos quais dois tipos diferentes de fundamentalismo – o neoconservadorismo cristão norte-americano e o islamismo radical do Oriente Médio – sustentam e literalmente patrocinam os medos e as iniciativas um do outro. É o que se costuma chamar escalada de violência: a cada passo que dão, cada lado tem confirmadas as suas piores suspeitas sobre seu adversário. Mas não apenas isso: o temor que o adversário instila na população de cada um dos lados mostrou-se capaz de um novo milagre; recuperou o que a ideologia havia perdido a capacidade de gerar: o poder.

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NARRAÇÃO INTRODUTÓRIA

No passado os políticos ofereciam sonhos de um mundo melhor. Eles propunham modos diferentes de realizar isso, mas seu poder e autoridade vinham das visões otimistas que ofereciam ao povo. Esses sonhos fracassaram – e hoje em dia as pessoas perderam a fé em ideologias. Cada vez mais os políticos são vistos meramente como gerenciadores da vida pública.

Porém eles descobriram um novo modo de restaurar a sua antiga autoridade. Ao invés de acenarem com sonhos, os políticos agora prometem proteger-nos de pesadelos. Eles afirmam que vão nos resgatar de terríveis perigos que não somos capazes de ver e não compreendemos – e o maior perigo de todos é o terrorismo internacional: uma rede poderosa e sinistra com ramificações em países ao redor de todo o mundo, uma ameaça que deve ser combatida com uma “guerra contra o terrorismo”.

A maior parte dessa ameaça, no entanto, é uma fantasia, que foi exagerada e distorcida pelos políticos. É uma sombria ilusão, que espalhou-se sem ser questionada por governos ao redor do mundo, pelos serviços de segurança e pela mídia internacional. Esta é uma série de filmes sobre como e porquê essa fantasia foi criada, e a quem ela beneficia.

No coração dessa história há dois grupos, os neoconservadores norte-americanos e os islamitas radicais: ambos são idealistas nascidos do fracasso do sonho liberal de construir um mundo melhor. E ambos tem uma explicação muito similar sobre o que causou esse fracasso.

Esses dois grupos mudaram o mundo – mas não da maneira que qualquer um dos dois pretendia. Juntos eles criaram a apovarante visão contemporânea de um mal secreto e organizado que ameaça o mundo – uma fantasia que, descobriram os políticos, restaura a sua antiga autoridade.

E aqueles com os temores mais sombrios tornaram-se os mais poderosos.

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Este é o primeiro episódio da série, A ascensão da política do medo. Ele mostra como um professor egípcio e um pensador norte-americano que nunca se conheceram reagiram ao que viam como sendo o mesmo problema: o grosseiro individualismo, relativismo e consumismo que permeavam a sociedade americana durante a década de 1960. O primeiro era muçulmano, o segundo um agnóstico que cria que os Estados Unidos precisavam desesperadamente de mitos, mesmo que fosse o cristão. O primeiro viria a inspirar o mentor de Bin Laden; o segundo se tornaria patrono dos neoconservadores de Washington, incluindo o atual George Bush e nosso conhecido Francis Fukuyama.

Pode ser ilustrativo ver Donald Rumsfeld falando, em 1975, de “armas de destruição em massa” soviéticas de cuja existência não havia evidência alguma. Valia, já naquele tempo, o curioso peso da evidência negativa: quando não viram evidência do desenvolvimento de armas soviéticas nos relatórios da CIA, os neoconservadores concluiram que isso provava que armas estavam de fato sendo construídas secretamente. O fato de não serem detectadas provava que deviam estar lá.

Você vai ter de ouvir o primeiro discurso do aiatolá Khomeini, dirigido ao ocidente: “Sim, nós somos reacionários e vocês intelectuais esclarecidos. Vocês, que querem liberdade para tudo. A liberdade que irá corromper nosso país, corromper nossos jovens, e a liberdade que abrirá o caminho para o opressor. Liberdade que levaria o nosso país às profundezas”.

E Ayman Zwahari, sendo julgado pela sua conexão com a morte do presidente egícpio Sadat (assassinado por ter se rendido ao liberalismo ocidental, como comprova o fato de ter, instado por Kissinger, iniciado negociações de paz com os israelistas): Nós somos muçulmanos. Nós somos muçulmanos. Nós acreditamos na nossa religião tanto como ideologia quanto como prática. Nós faremos todo o possível para estabelecer um estado islâmico e uma sociedade islâmica.

Entre outras coisas isso queria dizer que ninguém fora do seu grupo – o incipiente jihad islâmico – era realmente muçulmano. E podiam ser eliminados sem culpa.

Do outro lado do mundo, milhões de evangélicos americanos, incitados pelos neoconservadores e de forma contrária à sua tradição de não-envolvimento com o governo secular, estavam votando pela primeira vez. Em Ronald Reagan.

A Reagan os neoconservadores apressaram-se em demonstrar que todos os grupos terroristas do mundo eram coordenados pelos soviéticos em seus esforços para dominar o mundo.

Era mentira e tinha a mais curiosa das origens, mas agora os Estados Unidos possuíam uma identidade e uma missão a cumprir: eliminar o mal [soviético] e garantir a liberdade aos povos do mundo. Os neoconservadores criam-se agora “democratas revolucionários”: estavam dispostos a ajudar os povos oprimidos do mundo a organizar revoluções de modo a derrubar governos totalitários.

É em inglês, tem 1 hora de duração e requer banda larga – mas vale cada minuto.

Para assistir em tela inteira clique o botão apropriado (  ) na barra de reprodução.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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