O mundo ao reverso (e outros versos) • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 15 de maio de 2014

O mundo ao reverso (e outros versos)

Estocado em Manuscritos

Esta é a parte 3 de 3 da série A peleja do Carnaval com a Quaresma

Nada é mais sério do que uma festa: nada concilia e emblema melhor a dupla paixão humana pela liberdade por um lado e pelo ritual por outro. Uma festa é um dia programado para ser fora do programa, e essa contradição encarna mais do que qualquer outro aspecto da cultura os contrastes da condição humana.

Os antropólogos entenderam há muito tempo o engano que seria continuar dividindo festas populares entre sagradas e profanas, visto que cada festa que encontrou ocasião de se entremear no calendário das gentes celebra a seu modo uma entrada no domínio do que não pode ser dito, visto ou explicado: o domínio do sagrado, que só pode ser explorado indiretamente.

Uma festa é um encontro que marcamos com aquilo na experiência que não pode ser articulado de outra forma: um encontro com o que só podem expressar a deliberada pausa, o deliberado excesso, o abraço, a risada, a cantoria, a dança, o beijo, o copo erguido para o alto, o banquete, o jogo, a fantasia, a música, a máscara, o cortejo com o caos, a dança com a morte, o balé da alegria de todos os fins e de todos os recomeços. Uma festa é a encenação ritual de um final feliz, e os seres humanos não esboçaram tema ou motivo mais sagrado.

Nada é mais sério do que uma festa, e não havia festa maior do que o Carnaval.

Uma festa é delimitada não pelas suas liberdades, mas pelos seus rituais. Isso é especialmente verdadeiro nos festivais que, como o Carnaval, cortejam a dissolução. Celebrar o caos tem o seu método.

Cada região da Europa pré-moderna pintava a seu modo a face do Carnaval, mas as suas tradições exibiam alguns traços comuns:

  • alguma espécie de procissão, com andores ou carros alegóricos, que representava contraponto às procissões religiosas;
  • o uso generalizado de máscaras e fantasias;
  • alguma espécie de competição, que figuradamente mobilizava determinados setores da sociedade contra outros;
  • a representação pública de autos e peças teatrais, especialmente sátiras e farsas, sendo que cada região tinha seus clássicos e seus temas favoritos.
  • os excessos deliberados em comida e bebida;
  • a celebração do sexo em imagens, palavras e danças (e, como acontece mesmo quando não é dia de festa, em atos);
  • a exploração pública do potencial redentor da violência – normalmente estilizada em danças, zombarias, duelos de palavras e impropérios.

Unindo todos esses cordões estava o tema que dá ao mundo do Carnaval a sua cor: o motivo da inversão de papéis.

O reverso do universo: a pauta do fim do mundo

Muitas culturas prevem algum espaço para a contemplação do mundo às avessas: um domínio simbólico em que os papéis tradicionais da sociedade e da ordem natural são invertidos ou subvertidos. Porém coube à tradição cristã ligar a inversão de todas as coisas ao fim do mundo (e a inversão do mundo ao fim de todas as coisas).

Uma reversão de papéis e de prioridades já estava associada aos últimos dias nas provocações messiânicas do Antigo Testamento. A chegada do Messias e a consumação de todas as esperanças tem como marca a subversão da cultura e da ordem natural. Espadas e lanças serão convertidas em utensílios agrícolas. O leão se deitará ao lado da ovelha. Dos montes brotará vinho e das colinas correrá o leite. Os grandes impérios cairão, e o fraco dirá eu sou forte. Deus derramará o seu precioso espírito sobre escravos e escravas. Os mortos caminharão entre os vivos.

O Novo Testamento retoma esses temas, e associa a reversão de expectativas ao advento de Jesus (O Senhor depôs dos tronos os poderosos e elevou os humildes; aos famintos encheu de bens, e mandou os ricos embora de mãos vazias, celebra Maria em seu cântico); à proclamação do evangelho (Esses que estão virando o mundo de cabeça para baixo chegaram também aqui, reclamam os pagãos diante da chegada dos cristãos, no livro de Atos dos Apóstolos); à natureza da mensagem cristã (Deus escolheu as coisas insensatas deste mundo para confundir as coisas sábias, explica o Apóstolo na sua primeira carta aos Coríntios, escolheu as coisas que não são para reduzir a nada as que são); e ao fim do mundo (Felizes dos pacíficos, porque herdarão a terra, esclarece o próprio Jesus. Felizes dos que são perseguidos por causa da integridade, porque o reino do céu pertence a eles.)

A tradição cristã europeia amou esses contrastes e definiu sua alma a partir deles (por exemplo, em que um homem sem qualquer ambição mundana como São Francisco podia acabar recebendo a admiração do mundo mais do que todos os reis, ou do que o próprio papa).

O fascínio com a ideia de reversão (o rico é na realidade pobre, o feio é na realidade belo) está presente em inúmeras manifestações da cultura popular na Europa medieval e pré-moderna. A partir do século XVI, com a entrada em cena da tecnologia da imprensa, tornaram-se populares os panfletos que ilustravam com desenhos e palavras o que já era conhecido como mundo às avessas – il mondo alla riversa, the world turned upside down. Nesse universo alternativo se veem ovelhas que tosquiam pastores, crianças que surram os pais, homens que servem animais sentados à mesa, ratos que perseguem gatos, javalis e lebres que perseguem cães de caça, carruagens puxadas por cocheiros sendo conduzidas por cavalos.

Essas, dentro da tradição cristã, eram visões mais ou menos apocalípticas. Ninguém ignorava que o fim seria prenunciado por sinais dessa natureza. A reversão de papéis era a pauta e a assinatura do fim do mundo.

A folia e seus reversos

Não é de admirar que o Carnaval, na qualidade de encenação da festa do fim do mundo, tenha adotado essa pauta apocalíptica como sua. O Carnaval da era pré-moderna era, muito mais do que o contemporâneo, uma exibição pública do mundo às avessas.

Os homens se vestiam de mulheres, as mulheres se vestiam de homens. Os senhores se vestiam de gente comum e juntavam-se à multidão, enquanto seus servos exigiam boa comida e bom vinho na sala de banquete. O povo comum entrava nos palácios, zombava dos nobres e das autoridades e requeria tratamento preferencial. As mulheres escorraçavam seus maridos, e gente séria como sacerdotes e magistrados vestia-se de palhaço e de asno e submetia-se à farra universal. Os loucos eram homenageados, e o maior dos bêbados era coroado rei 1Na Festa dos Tolos, celebrada por sacerdotes e diáconos no início do ano, um “bispo dos tolos” oficiava dentro da igreja uma paródia pública de missa. Esse oficiante usava uma máscara, vestia as roupas de trás para a frente ou trajava roupas de mulher. Durante a cerimônia ele lia o missal de cabeça para baixo, jogava cartas, comia salsichas, cantava canções obscenas e amaldiçoava a congregação em vez de abençoá-la (Peter Burke, Popular Culture in Early Modern Europe)..

Cada uma a seu modo, essas eram encenações públicas de subversões bíblicas como aquelas promulgadas no cântico de Maria. No Carnaval os poderosos eram de fato depostos dos seus tronos, e os humildes assumiam de fato os postos mais elevados. O apóstolo Paulo não insistia que Deus rejeitara a sabedoria deste mundo para revelar-se na insensatez?

A palavra folia, que herdamos do italiano e do francês, nessas duas línguas quer dizer precisamente loucura.

 

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

A peleja do Carnaval com a Quaresma

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Notas   [ + ]

1. Na Festa dos Tolos, celebrada por sacerdotes e diáconos no início do ano, um “bispo dos tolos” oficiava dentro da igreja uma paródia pública de missa. Esse oficiante usava uma máscara, vestia as roupas de trás para a frente ou trajava roupas de mulher. Durante a cerimônia ele lia o missal de cabeça para baixo, jogava cartas, comia salsichas, cantava canções obscenas e amaldiçoava a congregação em vez de abençoá-la (Peter Burke, Popular Culture in Early Modern Europe).

 

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