O imperialismo liberal • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 02 de maio de 2006

O imperialismo liberal

Estocado em Política

Quando os valores de uma pessoa são aceitos em todas as direções, a linguagem absoluta do que parece evidente por si mesmo fica fácil de ouvir. Esse é portanto o clima do absolutismo norte-americano: a austera fé de que a validade de suas normas é evidente por si mesma. Trata-se de um dos mais poderosos absolutismos do mundo[…]. Ele tem tanta certeza de si mesmo que não precisa nem mesmo ser articulado, tão seguro está de que pode de fato sustentar um pragmatismo que parece na superfície camuflá-lo. O pragmatismo americano sempre foi ilusório porque, como um iceberg, jaz sobre quilômetros e quilômetros de convicção submersa.

O resultado [da doutrina de Bush de uma democratização militarizada do Oriente Médio] é tornar a crítica parecer uma crítica à liberdade.

Essa convicção submersa é essencial para entendermos a estabilidade, a longevidade e o poder do sistema político americano. É também essencial para compreender-se a postura dos EUA para com o mundo. Pois embutida nesta convicção está também, como diz Lieven, a “crença de que os Estados Unidos são singulares em sua lealdade à democracia e à liberdade – e que são, conseqüentemente, singularmente bons”. Embora essa tese seja então otimista e aberta ao abraçar a desejabilidade universal da liberdade e da individualidade, ela envolve também um excepcionalismo que acha que o modo de vida americano é axiomaticamente certo para todo mundo. Apesar de relativamente inofensiva por si mesma, essa crença pode em tempos de tensão levar a uma postura messiânica disposta a ignorar os interesses legítimos de outros e até mesmo justificar em certos casos atrocidades como meras pedras de tropeço na marcha do progresso.

[…]

A doutrina de Bush de uma democratização militarizada do Oriente Médio é poderosa porque alia nacionalismo e imperialismo a uma espécie de progressivismo liberal normalmente classificado como “wilsoniano”, quer dizer, internacionalista e favorável à democracia, embora beligerante. O resultado é tornar a crítica parecer uma crítica à liberdade. O que com freqüência o crítico está tentando apontar é que deveríamos separar esses diferentes aspectos de nossas políticas, apoiando ao mesmo tempo movimentos externos genuinamente pluralistas sem recorrer a guerras desnecessárias e contraproducentes. Aqui, no entanto, a negatividade da crítica colide com determinados fatos no solo. O partidário de Bush pode sempre dizer: “Veja bem. Já estámos no Oriente Médio. Você não quer apoiar os radicais de Baath, quer? Você sem dúvida quer apoiar a democracia e a liberdade?” E o crítico vai dizer: “Claro que apoio a liberdade; não sou contra as nossas forças armadas de jeito nenhum.” Mas uma vez que isso é dito a discussão termina, porque a esta altura já nos comprometemos favoravelmente com uma posição diretamente imperialista na região, mesmo que “liberal”. Aqui, no entanto, os termos “democracia” e “liberdade” foram hábil e tacitamente pressupostos pelo oponente.

Creio que é seguro dizer que entre o 11 de setembro e o começo da Guerra do Iraque muitos intelectuais liberais sucumbiram quando confrontados com essa lógica. Alguns liberais não tinha recursos ou armadura mental para resistir a essa lógica, enquanto outros deliberada e entusiasticamente submeteram-se a ela. Como argumenta Lieven, eles não apenas deixaram de perceber o pernicioso nacionalismo presente no cerne da administração, mas também abraçaram de forma positiva o messianismo e o utopianismo implícito na retórica da guerra. Seria necessário voltar à temerosa reação liberal à Primeira Grande Guerra para encontrar-se um precedente útil. Esse colapso auxiliou e contribuiu para o desastre do Iraque e fortaleceu a mão do poder conservador radical em sua contínua busca para entricheirar-se de forma permanente na vida política norte-americana.

Steven M. Levine, What went Wrong?
em Radical Society

When one’s ultimate values are accepted wherever one turns, the absolute language of self-evidence comes easily enough. This then is the mood of America’s absolutism: the sober faith in its norms as self-evident. It is one of the most powerful absolutisms in the world…. It was so sure of itself that it hardly needed to become articulate, so secure that it could actually support a pragmatism which seems on the surface to belie it. American pragmatism has always been deceptive because, glacier-like, it has rested on miles of submerged conviction.

This submerged conviction is essential for understanding the stability, longevity, and power of the American political system. It is also essential for understanding the U.S.’s posture towards the world. For embedded in this conviction is also, as Lieven says, the “belief that the United States is exceptional in its allegiance to democracy and freedom and is therefore exceptionally good.” So while the thesis is optimistic and open-ended in embracing the universal desirability of freedom and individuality, it also involves an exceptionalism that thinks the American way of life is self-evidently right for everyone. Although relatively harmless on its own, this can lead in times of stress to a messianic attitude that stands willing to ignore the legitimate interests of others and even in certain cases to justify the worst atrocities as mere stumbling blocks in the march of progress.

The Bush Doctrine of militarized democratization in the Middle East is very powerful because it ties nationalism and imperialism to a kind of liberal progressivism normally thought of as “Wilsonian,” which is to say, internationalist and pro-democracy, if belligerent. The result is to make the critic seem like a critic of freedom. The critic is often trying to point out that we should untangle these aspects of our policies, supporting genuinely pluralistic movements abroad without resorting to unnecessary and counterproductive wars. Here, however, the negativity of critique collides with certain facts on the ground. The pro-Bush partisan can always say: “Look. We’re in the Middle East already. Surely you don’t want to be on the side of the Baathists? Surely you want to support democracy and freedom?” And then the critic is going to say: “Right, I support freedom; I support the troops, really I do!” But once that is said the real argument is over, for now we have already committed ourselves to a directly imperialistic position in the region, even if it is “liberal.” Here, however, the terms “democracy” and “freedom” have been deftly assumed by the other side.

I think it is safe to say that between 9/11 and the start of the Iraq War many liberal intellectuals collapsed when confronted with this logic. Some liberals did not have the resources or the mental armor to resist this logic, while others willingly and enthusiastically submitted to it. As Lieven argues, they not only missed the malignant nationalism at the core of the administration but also positively embraced the messianism and utopianism implicit in the rhetoric of the war. One would have to go back to the timorous liberal response to WWI to find a useful precedent. This collapse aided and abetted the Iraq disaster and strengthened the hand of radical conservative power in its ongoing quest to entrench itself permanently in American political life.

Paulo Brabo @saobrabo

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