O iconoclasta • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 12 de abril de 2010

O iconoclasta

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ABRAÃO: O iconoclasta

Tera, no entanto, não estava convencido. Em resposta à pergunta de Abraão, sobre qual Deus havia criado o céu e a terra e os filhos dos homens, Tera levou-o até um salão onde se erguiam doze ídolos grandes e uma multidão de ídolos menores, apontou para eles e disse:

— Aqui estão aqueles que fizeram tudo que você vê sobre a terra, aqueles que criaram a mim e a você e todos os homens sobre a terra.

Ele em seguida inclinou-se em reverência aos seus deuses e saiu da sala com seu filho.

Abraão foi então até sua mãe e disse a ela:

— Meu pai mostrou-me aqueles que fizeram o céu e a terra e todos os filhos dos homens. Agora, mande trazer depressa um cabrito do rebanho e prepare uma carne saborosa, para que eu ofereça aos deuses do meu pai; quem sabe através dessa oferta eu me torne aceitável para eles.

Sua mãe fez como ele havia pedido, mas quando trouxe a oferta aos deuses Abraão viu que eles não tinham voz, nem audição, nem movimento, e que nenhum deles estendeu a mão para comer. Abraão zombou deles:

— Está certo, a carne saborosa que preparei não está de acordo com o seu paladar, ou talvez seja porção pequena demais para vocês. Amanhã vou preparar uma nova carne saborosa, mais gostosa e mais abundante do que essa, para ver o que acontece.

Os deuses, no entanto, permaneceram mudos e imóveis diante da segunda oferta de carne saborosa, tal como diante da primeira, pelo que o espírito de Deus veio sobre Abraão, que clamou:

— Ai de meu pai e de sua geração perversa, cujos corações estão inclinados à vaidade, que servem ídolos de madeira e de pedra, incapazes de comer, de cheirar, de ouvir, de falar; que têm boca mas não falam, olhos mas não veem, ouvidos mas não ouvem, mãos mas não sentem, pernas mas não se movem!

Abraão então pegou uma machadinha e quebrou todos os deuses do seu pai, e depois de quebrá-los todos colocou a machadinha na mão do maior dos deuses. Em seguida saiu. Tera, tendo ouvido o barulho da machadinha contra a pedra, correu até o salão dos ídolos e chegou quando Abraão estava saindo. Quando viu o que havia acontecido saiu correndo atrás de Abraão e disse:

— Que maldade é essa que você fez com meus deuses?

— Levei uma carne saborosa para eles — respondeu Abraão. — Quando me aproximei para que pudessem comer, todos estenderam a mão para pegar a carne antes que o grande tivesse se servido. Enfurecido por causa desse comportamento, ele pegou a machadinha e quebrou-os todos. Olhe, a machadinha ainda está na mão dele, como o senhor pode ver.

Tera ficou indignado com Abraão e disse:

— É mentira! Esses deuses por acaso tem alma, espírito ou poder para fazer tudo isso que você me disse? Não são por acaso madeira e pedra? Não fui eu mesmo que os fiz? Foi você que colocou a machadinha na mão do deus maior, e foi você que inventou dizer que ele matou a todos.

Abraão respondeu ao pai:

— Como pode o senhor, então, servir esses ídolos nos quais não há poder para fazer coisa alguma? Por acaso esses ídolos em que o senhor confia podem salvá-lo? Podem ouvir suas orações quando o senhor os invoca?

Depois de dizer essas e semelhantes palavras, admoestando seu pai a corrigir sua conduta e deixar de adorar ídolos, Abraão pulou diante de Tera, pegou a machadinha do ídolo grande, despedaçou-o com ela e saiu correndo.

Tera correu até Ninrode, ajoelhou-se diante dele e pediu que ouvisse a sua história, do filho que lhe havia nascido cinquenta anos atrás, e o que havia feito aos seus deuses, e o que havia dito.

— Agora, então, meu senhor e rei — disse ele, — mande que ele venha até a sua presença, para que o senhor o julgue em conformidade com a lei, para que sejamos livres deste mal.

Quando foi trazido à presença do rei Abraão contou-lhe a mesma história que havia contado a Tera, sobre o deus grande que havia destruído os menores, mas o rei respondeu:

— Ídolos não falam, nem comem, nem se movem.

Abraão então repreendeu-o por adorar deuses incapazes de qualquer coisa, e admoestou-o a servir o Deus do universo. Suas últimas palavras foram:

— Seu o seu coração perverso não der ouvidos às minhas palavras, levando-o a abandonar sua má conduta e passar a servir o Deus eterno, você morrerá de forma vergonhosa nos últimos dias: você, sua família e todos os ligados a você: todos que ouvem as suas palavras e imitam a sua má conduta.

O rei ordenou que Abraão fosse lançado na prisão, e ao fim de dez dias fez com que comparecessem diante dele todos os príncipes e grandes homens do reino, aos quais expôs o caso de Abraão. O veredito do grupo foi que o acusado deveria ser queimado; em conformidade com isso o rei fez com que um grande fogo fosse preparado por três dias e três noites, em sua fornalha em Kasdim, e Abraão foi levado da prisão até ali para ser queimado.

Todos os habitantes daquela terra, cerca de novecentos mil homens, bem como as mulheres e crianças, vieram ver o que seria feito com Abraão. Quando ele foi trazido os astrólogos o reconheceram e disseram ao rei:

— Com certeza, este é o homem que conhecemos quando criança; foi por ocasião do seu nascimento que a estrela grande engoliu as quatro estrelas. Preste atenção, porque o pai dele transgrediu as suas ordens e zombou da sua autoridade, pois trouxe outra criança até o senhor e o senhor a matou.

Tera ficou muito apavorado, temendo a ira do rei, e admitiu que o tinha enganado. Quando o rei perguntou: “Quem foi que o aconselhou a agir assim? Não esconda nada e você não morrerá”, Tera acusou falsamente Harã, que por ocasião do nascimento de Abraão tinha trinta e dois anos, de tê-lo aconselhado a enganar o rei. Ao comando do rei, Abraão e Harã, despidos de todas as roupas com exceção de suas ceroulas, com as mãos e pés amarrados com cordas de linho, foram lançados dentro da fornalha. Harã, cujo coração não era perfeito diante do Senhor, pereceu no fogo, e os homens que os atiraram na fornalha também foram queimados por chamas que se lançaram sobre eles. Apenas Abraão foi salvo pelo Senhor, e não foi queimado, muito embora as cordas que o amarrassem tenham sido consumidas. Por três dias e três noites Abraão caminhou dentro do fogo, e todos os servos do rei vieram lhe contar:

— Olhe, vimos Abraão andando no meio do fogo.

A princípio o rei não lhes deu crédito, mas quando alguns de seus príncipes mais leais corroboraram as palavras dos servos ele levantou-se e foi ver por si mesmo. Ele então ordenou aos servos que tirasse Abraão do fogo, mas eles não conseguiram, porque as chamas se lançavam sobre eles da fornalha. Quando tentaram novamente, ao comando do rei, aproximar-se da fornalha, as chamas se projetaram para fora e queimaram seus rostos, de modo que oito deles morreram no total. O rei então disse a Abraão:

— Como é que você não foi consumido pelo fogo?

E Abraão respondeu:

— O Deus do céu e da terra, em quem confio e quem todas as coisas sob o seu poder, ele me livrou do fogo no qual você fez que eu fosse lançado.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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