O horror ou o absurdo de existir • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 27 de outubro de 2008

O horror ou o absurdo de existir

Estocado em Goiabas Roubadas

O êxtase do estado dionisíaco, com sua destruição das cadeias e limites costumeiros da existência, contém, naturalmente, durante todo o período em que dura, um elemento letárgico no qual permanece submerso tudo que a pessoa já experimentou pessoalmente no passado. Devido a esse vórtice de esquecimento, o mundo da realidade cotidiana e o mundo da realidade dionisíaca separam-se um do outro.

Porém tão logo a realidade cotidiana retorna à consciência, a pessoa a percebe como algo repulsivo. O resultado desse estado é a condição ascética, na qual a pessoa nega o poder da vontade. Neste sentido o homem dionisíaco tem similaridades com Hamlet: ambos tiveram um vislumbre da natureza essencial das coisas. Ambos passaram a compreender e têm agora aversão a agir, pois sua ação não será capaz de mudar coisa alguma na natureza eterna das coisas. Percebem como rídiculo ou humilhante o fato de que espera-se deles que coloquem em ordem um mundo que está fora dos eixos. O conhecimento neutraliza a ação, pois a ação requer um estado de consciência em que estejamos cobertos pelo véu da ilusão. É isso o que Hamlet tem a nos ensinar, não aquela sabedoria inteiramente mercenária sobre o sonhador que é incapaz de sair do lugar devido a um excesso de reflexão — devido a um excesso de possibilidades, por assim dizer.

De modo algum; é o verdadeiro conhecimento, o vislumbre da cruel verdade, que vence cada motivo que poderia impeli-los a agir, tanto em Hamlet quanto no homem dionisíaco. Agora nenhum consolo tem mais efeito. Ele passa a ansiar por algo além do mundo, algo além dos próprios deuses, na direção da morte. A existência é negada, juntamente com seu fulgurante reflexo sobre os deuses e sobre uma vida futura de imortalidade. Na consciência de ter vislumbrado uma vez a verdade, o homem vê em todo lugar apenas o horror ou o absurdo de existir; ele agora compreende o simbolismo do destino de Ofélia; ele agora reconhece a sabedoria de Silenus, o deus da floresta. E causa-lhe aversão.

Neste ponto, quando a vontade está sob o mais grave perigo, entra a arte, na qualidade de mágica salvadora e curativa. Somente a arte é capaz de transformar esses pensamentos de repulsa diante do horror ou do absurdo da existência em conceitos imaginários que permitem que a vida continue.

Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia (1872)

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna