Os usos políticos do ateísmo: o capitalismo é o preço da paz • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 26 de julho de 2015

Os usos políticos do ateísmo: o capitalismo é o preço da paz

Estocado em Manuscritos

Esta é a parte 2 de 3 da série Os usos políticos do ateísmo

Houve tempo em que o principal método para se justificar o uso da violência era alegando-se o direito divino dos governantes. Nos nossos dias, para substituir as obsoletas justificativas religiosas inventaram-se outras. Essas novas justificativas são tão inadequadas quanto as antigas, mas sendo novas a maioria das pessoas não consegue perceber de imediato a sua futilidade.
Leon Tolstoi em Carta a um hindu (1908)

 

O ateísmo não é reacionário por natureza ou por tradição. É o contrário: pela inclemência do seu ponto de vista, os ateus estiveram por milênios entre os críticos mais lúcidos e articulados da cultura e da sociedade, denunciando onde as encontravam a ideologia, a parcialidade, os condicionamentos sociais e os sistemas de dominação.

Para falar de exemplos relativamente recentes, Bernard Shaw delineou a urgência da reforma social; Bertrand Russel foi um pacifista intransigente; Michael Foucault descreveu a dança entre conhecimento e poder, despindo-nos publicamente; Nietzsche foi Nietzsche.

Por muito tempo foi assim: religiosos tenderam a ser reacionários e vendidos ao sistema, ateus tenderam a ser radicais e revolucionários. Na esquina do terceiro milênio essa lógica deixou de prevalecer: despontou e alçou-se à popularidade a figura do ateu conservador, nada radical, com um discurso perfeitamente alinhado à manutenção do estado de coisas.

Essa reviravolta pode ser em parte explicada como uma virada no jogo do poder. O conservador está sempre inclinado a cortejar o poder e a confirmar a legitimidade das elites, e entre as classes dominantes a balança da religiosidade pendeu. Com o avanço da secularidade, o ateísmo deixou de ser um peso e passou a ser um lastro; deixou de ser um estigma e passou a ser uma credencial.

Deus perdendo o seu poder de marca, a ciência passou a representar a infalibilidade e a legitimidade, e angariou poder político na mesma medida. O homem “racional” (em particular o cientista) passou a desfrutar do status e da deferência social que em outra época couberam ao o homem “espiritual”.

Essa virada Tolstoi já intuía em 1908:

As novas justificativas [para a injustiça social] são denominadas “científicas”. Porém o termo “científico” é entendido precisamente como era entendido o termo “religioso”. O que era tido como inquestionável por ser religioso é agora tido por inquestionável por ser científico. A justificativa religiosa para a violência foi superada pela justificativa “científica” – segundo a qual, visto que a exploração do homem sobre o homem existiu em todas as épocas, conclui-se que é natural que deva continuar a existir.

Mais ou menos como o cristianismo, chegando ao poder o ateísmo abandonou a sua vocação revolucionária e passou a legitimar o estado de coisas. E a ciência, precisamente como a ideia de Deus, foi sequestrada para justificar as injustiças sociais – “o modo como as pessoas viveram através das eras”.

Nos nossos dias os exemplos mais fulgurantes dessa postura são os que estamos examinando, os porta-vozes do Novo Ateísmo.

O capitalismo é o preço da paz

Em seu livro The Better Angels of Our Nature/Os melhores anjos de nossa natureza (2011) o psicólogo e cientista cognitivo Steven Pinker sustenta duas teses: uma, que a humanidade está vivendo a era mais pacífica da sua história; e outra, que essa ausência de conflitos deve-se “às forças pacificadoras” da democracia, do comércio e da sociedade internacional.

A primeira ideia, de que os seres humanos estão vivendo o momento menos violento da sua história, pode parecer indefensável a qualquer um que esteja olhando ao redor, mas para desbastar a nossa incredulidade Pinker recorre ao instrumento científico (isto é, ideologicamente inquestionável) por excelência: as estatísticas.

Como as profecias da tradição religiosa, no discurso cientificista as estatísticas aliam as vantagens da infalibilidade e da maleabilidade. Ninguém seria tolo de duvidar de uma estatística (ou de uma profecia), mas se a realidade andar em outra direção você sempre pode alegar que a estatística (ou a profecia) foi mal interpretada.

O estatístico Nassim Nicholas Taleb é um que está convencido de que Steven Pinker interpretou mal as suas planilhas e os seus búzios. Para Taleb, especialista em encontrar desvios em análise de probabilidades, o otimismo de Pinker e de outros cientificistas em cantar o declínio dos conflitos armados não passa de uma perigosa “ilusão estatística” 1Taleb escreveu dois artigos para demonstrar as falhas na lógica de Pinker..

Porém, se é arriscado iludir-se com a ideia de que a violência no planeta está diminuindo (quando na verdade não está), mais perigoso é atribuir essa inexistente paz universal às virtudes da democracia, do comércio e da aldeia global – ou, para falar claramente, às virtudes do capitalismo de livre mercado.

Colocando as coisas desse modo Pinker amarra um discurso a uma ideologia, no mau sentido das duas palavras. Sua efetiva mensagem é “o capitalismo de livre mercado não deve ser em circunstância alguma questionado, porque é apenas ele que está garantindo a paz no que seria de outro modo um barril de pólvora”.

Ou, para dizer como disse Zack Beauchamp, que me apontou para essa discussão: “Enquanto continuarmos a manter as tendências do mundo em que vivemos, incluindo o crescente comércio internacional […] poderemos continuar a fazer deste mundo um lugar melhor.”

Ninguém me venha – está implícito nesse discurso – falar em diminuir a desigualdade, em conter o des-envolvimento, em fomentar a justiça social, em eliminar os nacionalismos, em priorizar relações humanas em detrimento do lucro, em humanizar e tornar locais as relações de produção, em propor estratégias de decrescimento, em questionar o capitalismo, em conter o aquecimento global, em preservar modos de fazer, diversidades e ecossistemas. O que a “ciência” está dizendo é que devemos, para o bem de todos, evitar qualquer intervenção desse tipo – sendo que na crua realidade das gentes são medidas dessa natureza que poderiam trazer algum alívio para as tensões que promovem os conflitos do mundo.

A tentativa de Pinker de impor uma credencial científica sobre o capital pouco difere do otimismo bairrista de Francis Fukuyama (hoje tido como sem fundamento até mesmo por ele), que em O fim da História (1992) declarou que o capitalismo havia criado o melhor dos mundos possíveis. As futuras gerações de seres humanos podiam até tentar, mas seria inútil procurar uma solução superior ao livre mercado para a convivência e a concórdia entre as gentes.

Sugerir que na promoção da justiça o capitalismo não tem nenhuma alternativa legítima é recurso tão ideológico – tão reducionista e totalizante – quanto afirmar o direito divino dos reis. O império pode parecer injusto pra você, caro trabalhador, mas sou sacerdote cientista: acredite quando digo que ele é a melhor coisa que já lhe aconteceu, e a mais justa.

Quando se levanta um sujeito como Thomas Piketty, que com uma montanha de erudição demonstra que em vez da prometida justiça o capitalismo promove a desigualdade, basta colocar sobre ele um rótulo de “de esquerda”. Esse mero gesto vai fazer com que o seu pensamento pareça tendencioso e pouco científico.

Resulta que a mensagem “científica” de Steven Pinker é tão reacionária e conveniente para os detentores do poder quanto foi no passado a mensagem religiosa. Ela abertamente afirma que enquanto as coisas permanecerem como estão – enquanto ninguém ousar questionar os privilégios e mecanismos vigentes, enquanto ninguém denunciar e minar os sistemas de dominação, enquanto ninguém revolucionar o estado de coisas – vai continuar dando tudo certo.

Para dar a última palavra a Tolstoi:

São essas as justificativas científicas para o princípio da exploração social. Como justificativas são não apenas fracas mas totalmente inválidas – porém são de tal modo necessárias para os que ocupam posições de poder que eles acreditam nelas tão cegamente quanto acreditavam na imaculada concepção, e as propagam com a mesma convicção.

E o grosso da humanidade, desgraçadamente subjugado pela labuta diária, fica de tal modo fascinado pela pompa com que são apresentadas essas “verdades científicas”, que sob essa nova influência acredita nessas imbecilidades científicas como se fossem verdade sagrada – da mesma fora que aceitava anteriormente as justificativas pseudo-religiosas. E continuam a submeter-se a detentores do poder que tem coração tão duro quanto os anteriores, mas que se diferem em alguma coisa é em serem mais numerosos.

continua

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

Os usos políticos do ateísmo

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  1. O ateísmo é a melhor coisa, exceto nos casos em que deixa de ser
  2. Os usos políticos do ateísmo: o capitalismo é o preço da paz
  3. A falta que Deus faz

Notas   [ + ]

1. Taleb escreveu dois artigos para demonstrar as falhas na lógica de Pinker.
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